* Pedro Serrano
Recentemente, o governador Geraldo Alckmin sugeriu que os estudantes da USP tivessem uma “aula de democracia”. Mas onde está a democracia na Universidade de São Paulo?
A USP já é uma universidade antidemocrática para os milhares de jovens que não conseguem acesso a ela. Na maioria das vezes, somente quem paga por uma escola ou cursinho consegue passar no vestibular para uma universidade pública.
A organização interna da USP, também, não respeita padrões mínimos de democracia. Com um estatuto inalterado desde a década de 70, os conselhos deliberativos da universidade têm participação restrita de estudantes, funcionários e professores. Para eleger o reitor da universidade, por exemplo, menos de 5% da comunidade universitária tem direito a voto, indicando ainda uma lista tríplice a partir da qual o governador do estado escolhe o nome de sua predileção.
João Grandino Rodas, atual reitor da USP, foi escolhido dessa maneira: segundo colocado no processo já antidemocrático de eleição, foi nomeado por José Serra. Por isso, sua gestão não apresenta compromisso com a democracia. Na política de acesso à universidade, a USP continua distante da maioria da população. Na maneira de se organizar internamente, temos visto o uso da força de sobrepor ao diálogo.
É isso que está por trás do que temos visto se passar na USP. A mega-operação policial organizada pela reitoria para desocupar o prédio de sua administração contou com efetivo policial superior ao utilizado na operação do Carandiru em 1992, por exemplo. Assim, a universidade deixa de ser o espaço do debate entre idéias para ser o espaço do conflito e do uso da força.
O próprio problema de segurança pública segue sem resolução. Segundo pesquisa do Datafolha, 57% dos estudantes não se sentem mais seguros na USP com a presença da polícia militar. Isso se deve ao fato de a reitoria ainda não ter tomado medidas básicas para resolver os problemas relacionados à segurança, como o aprimoramento da iluminação no campus e a ampliação da circulação de pessoas dentro dele, abrindo os portões da USP para toda a sociedade.
Todas as grandes universidades do mundo têm uma política própria de segurança para seus campi, respeitando a autonomia universitária. Por que a USP, que tanto se preocupa com sua colocação nos rankings mundiais, não segue esse exemplo? A própria universidade produz uma massa crítica que pode pensar um plano alternativo de segurança para nossos campi. A opção da reitoria, antes de conveniar-se com a PM, deveria ser a de se aliar com essas pessoas.
Frente a essa situação, milhares de estudantes estão se movimentado. Nas últimas semanas, as assembléias e os atos do movimento estudantil contaram com a presença de mais de 3 mil estudantes, que rechaçam a falta de democracia na universidade e a maneira como a atual gestão da reitoria trata a questão da segurança pública na USP. Mais de 50% dos alunos do campus Butantã estão em greve, com grande solidariedade por parte de professores e intelectuais.
O mínimo que o reitor da USP e o governador do estado deveriam fazer nessa situação é dialogar com os manifestantes e atender às suas reivindicações.
Mas não é isso o que vem acontecendo. Por isso, na próxima quinta-feira (24/11), realizaremos um grande ato na Avenida Paulista, com concentração às 14h na Praça Oswaldo Cruz. De lá, sairemos em caminhada até o vão do MASP, onde será realizada uma “Aula de democracia” do movimento estudantil (evento no Facebook). Vamos todos demonstrar que democracia real se faz nas ruas e na mobilização!
Nosso convidado especial já foi escolhido: governador Geraldo Alckmin. Será que ele aceita?
* Pedro Serrano é diretor do DCE da USP e faz parte do Juntos! Escreveu esse texto para o “Tendências e Debates” da Folha de S. Paulo. A Folha, é claro, não publicou.
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