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Direto do Chile! Entrevista sobre a atual situação do país

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Entrevista com Alfredo Vielma, dirigente da ACES

Alfredo Vielma

Um jovem tímido, magro e imberbe. Gosta de rock oitentista, irônico e sagaz. Assim é Alfredo Vielma. Com seus “AllStar” e sua coragem, pouco lembra os midiáticos líderes estudantis universitários como Camila Vallejos e Giorgio Jackson. Do alto de seus 17 anos é o porta-voz da ACES- entidade que organiza e congrega os estudantes secundaristas do Chile. A entidade responde por quase 800 colégios ocupados, desde abril deste ano. Depois de uma semana intensa de manifestações, prisões, os rotineiros enfrentamentos com os temíveis “carabineiros”, Alfredo falou com tranqüilidade sobre o conflito e o futuro.
Entrevista exclusiva para o site do Juntos!

1- O conflito estudantil do Chile tornou-se um tema de importância internacional. Acompanhamos mais de seis meses de mobilização. Como está atualmente a situação política do país?

Nós acreditamos que o Chile passa por um conflito que começou com os estudantes, mas, que se projetou como redes sociais de mobilização. O conflito estudantil já tem seis meses, a primeira marcha grande foi no dia 28 de abril. O aprendizado de toda a sociedade é muito intenso, rápido. Setores sociais, comunais também saíram à luta. Independente do resultado mais imediato, o que se constituiu foi a possibilidade real de uma frente comum, dos movimentos sociais, para a construção de uma via popular, acumular forças para os novos enfrentamentos. A luta de 2011 foi um salto de qualidade em relação ao Pinguinazo de 2006; é ruptura e continuidade desta luta. Ruptura porque ela colocou questões gerais, abrindo fendas no governo e no sistema partidário, o binominal. E é continuidade porque seguimos “fogueando” toda uma geração de jovens, na experiência da luta nas ruas.
Colocamos, não agora, ainda mas, no futuro, a necessidade de uma assembléia constituinte. A saída da pauta educacional não poderá ser nos marcos atuais da política chilena. O neoliberalismo está tão arraigado que qualquer mudança real no orçamento e no modelo de gestão abre um cenário novo para toda a sociedade.

2- Como está o processo de ocupação e mobilização dos estudantes secundaristas?

São cerca de 800 escolas, colégios e liceus ocupados, de norte a sul do Chile.
Cada ocupação é auto-organizada, com assembléias permanentes. Cerca de 30-40 estudantes tomam conta da administração das escolas, da segurança, da alimentação. Nas atividades culturais, políticas, este número cresce para cerca de 100/200 estudantes. A ACES atua unificando e coordenando as demandas e lutas destes colégios.
Algo interessante tem acontecido: quando organizamos barricadas, a maior parte dos pais e professores ajuda. Pessoas mais velhas, quebramos aquele estigma de que somos a “Ultrasecundária”. No movimento universitário, também estamos passando por um processo de reorganização, está surgindo uma nova direção.

3- Fale sobre a disputa da direção do ME…

A Confech é uma entidade democrática. Apesar do protagonismo dos dirigentes mais próximos à Concertação (grupo da ex-presidente Michelle Bachelet) e ao Partido Comunista, a maior parte da mesa é composta pelo que chamamos de esquerda “independente” ou “revolucionária”. As reuniões acontecem de forma itinerante, os porta-vozes só podem se pronunciar por mandato da mesa, que pode ser renovada a cada momento. Federações importantes como Concepcion, Bio-Bio, Antofagasta são referências da esquerda estudantil. Vivemos um processo de revolução estudantil…. O PC é um partido muito burocrático. Sempre estão dispostos a recuar e atuar em defesa de seus interesses e não pensam no conjunto da luta. Temos setores que se dizem trotskystas como o PTR (Partido de Trabajadores Revolucionários) e IC (Izquierda Comunista) mas que parecem mais stalinistas, pois são pequenos e pouco construtores. São seitas políticas.

4- Socialmente, existe apoio?

Sim, os estudantes hoje representam as demandas reprimidas por vinte anos de governo neoliberal da Concertação. O governo Piñera tenta criminalizar o movimento, quer aprovar uma “lei anti-ocupações”. Infiltra gente dos carabineros (polícia) nas manifestações para diluir-se nos encapuzados. Não podemos permitir esta criminalização. É uma tarefa urgente. A ACES está disposta a atuar sempre em unidade com toda a esquerda, inclusive o PC. Sabemos da importância das unidades táticas. E derrotar o “giro repressivo” é importante para evitarmos um retrocesso. O fato é que o regime e o governo ficaram muito debilitados. Tivemos manifestações com mais de um milhão de pessoas como a do dia das crianças, e não sabemos quantos estiveram no panelaço, mas, certamente, em todo o Chile, mais de um milhão saíram às ruas. Temos que acumular forças para forçar uma saída social, organizar nossas demandas contra o lucro, em favor da educação pública e gratuita, e medidas também sociais como o direito à moradia, a nacionalização do cobre, uma nova forma de gestão e organização da educação e dos serviços públicos. O ascenso estudantil apontou o caminho; a crise econômica deve chegar ao Chile e nós precisamos estar um passo a frente.

5- Qual seria esta estratégia?

Penso que estamos num novo momento de lutas no mundo, complexo. Nossa tradição nacional compõe inúmeras lutas, como a de Allende, Miguel Enriquez, o Povo Mapuche, o sindicalismo combativo. Nossa luta é por abrir espaços, unidades, construir luta de massas e de vanguarda. Assim poderemos pensar numa situação que seria radicalmente nova. Nosso futuro é lutar pela revolução social. São milhares de jovens de 14, 15 anos que estão decididos nesta estratégia, ainda que saibamos que o caminho está por se construir.

6- Qual sua visão ideológica?

Sou socialista e revolucionário. Sei que a experiência do leste europeu contaminou a consciência popular a respeito do socialismo. Penso o inverso. Temos que reinventar a perspectiva desde novas experiências. O socialismo não pode parecer com a caricatura stalinista da URSS.
Considero-me marxista-leninista, mas reivindico a contribuição de Guevara, sou um pouco Trotskista, claro. Nossa vanguarda carrega uma herança preciosa: nos consideramos herdeiros do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), da luta “rubro-negra”, que negou o reformismo e o stalinismo no Chile.

7- Alfredo, para finalizarmos, qual o papel da juventude brasileira, de movimentos como o Juntos, na solidariedade ao Chile?

Apesar de necessitarmos de apoio financeiro e material, o mais importante é tomarmos nosso exemplo para alentarmos a luta continental dos estudantes. Difundir a idéia da mobilização como método é o maior aporte que nossa luta precisa. A solidariedade do Brasil é fundamental para que possamos vencer. E a vitória dos estudantes e do povo chileno é apenas um estágio numa luta que deve ser internacionalista: a luta por outro futuro, revolucionário e socialista.

Saludos revolucionários a você e os compas brasileiros!

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