Afinal, no Brasil do rolezinho, qual o LUGAR permitido para juventude?

Cultura

por Rodolfo Mohr*

Os rolezinhos ganharam as pautas das redações, das rodas de conversa, atenção de todo o tipo de gente nas redes sociais. Estou do lado daqueles que não aceitam a ação discriminatória encabeçada pela elite e classe-média-aspirante-a-rico, sintetizada na frase “aqui não é lugar de maloqueiro”, de uma senhora de “boa família” e consumidora em um shopping paulista em relação aos jovens de periferia dando um passeio com os amigos.

Sim, dar um passeio com os amigos, amigas, pretendentes, paqueras, ficantes, namorados e desconhecidos virou caso de polícia, de justiça, de imprensa. Rebobinar a fita vale a pena. Sim, devemos nos dar conta que um grupo de jovens situados, filhos da classe trabalhadora da periferia de São Paulo resolveu dar um PASSEIO num Shopping, marcaram o encontro pelas redes sociais e, como existem milhões de jovens em São Paulo, acabaram juntando um grande número e eles foram imediatamente estigmatizados como criminosos, promotores de um arrastão. Isso não começou no natal de 2013. Jovens por todos os cantos do Brasil já marcaram encontros com seus amigos em shoppings. Ouvindo música alto e falando alto. O tamanho do rolezinho é que deu medo.

Eles foram ao templo da sociedade de consumo: o shopping. O local que todos devem venerar, de formato de passarela, cheio de espelhos e vitrines que refletem nossa imagem ao lado dos produtos mais valiosos, expostos em lindos manequins, de corpos perfeitos, mesmo que sem cabeça, numa disposição mórbida do molde que o nosso corpo deveria ter.

Jovens, hormônios, marcas, compras, cartão de crédito, praça de alimentação, vitrine. Tudo num só lugar. Não esquecendo que os ídolos dessa molecada agora são gente da idade deles, cantando como é louca a vida de balada, mulherada, homens gostosos, bebida liberada, carros que são naves. Não é só o Eike Batista no luxo. Tem gente que saiu da quebrada e tá de carro importado do ano. É óbvio que a maioria também ia querer. Aí, quando essa obviedade se realiza, desencadeia essa onda reacionária e vexatória de expulsão dos rolezeiros.

Eles não foram protestar. Não de maneira consciente. Foram curtir na boa, dar uns beijos, “nada de roubar”. Foram humilhados. No templo sagrado do capitalismo! Aí já é vandalismo. Shoppings obtiveram liminares para proibir os rolezinhos. Obtiverem licença legal para selecionar pela aparência. A mesma que até recentemente era exigência de 9 entre 10 anúncios de trabalho. “Boa aparência” foi proibido formalmente, se não iam passar mais 5 séculos discriminando pessoas pela cor da pele, tipo de cabelo, formato do nariz, na entrevista de emprego. Mesmo assim a turma deu um tapa no shape. Botou umas correntes de ouro, tatuaram o corpo, piercing, uns aba reta da hora, uns oakley firmeza. Mas aí se olha a pele que é parda, preta. Aí não tem disfarce. O DNA do país escravista fala mais alto e expulsa a meninada do shopping. O simples passeio foi um ato de agressão ao aquário inviolável de segurança para o consumo. O rolê virou ato político.

Há espaço social para juventude ser jovem?

Agora em janeiro foi proibida a realização de um baile funk na Rocinha. A festa tava toda nos conformes. Data, horário, local, bebida no gelo. A UPP chegou no lugar e disse que não ia ter. Questões de segurança, que não tinham contingente. Se partirmos da lógica que a segurança pública do RJ atribui às UPPs, não está entre suas atribuições a pacificação através do enjaulamento, de permitir às pessoas somente ficarem em casa. Na Rocinha qual outra opção de lazer? Tem uma boa oferta de comércio, de consumo. Fora isso, o baile tá proibido. “Pra dentro de casa”, ordenam sem usar as palavras. Casas que não tem habitabilidade, que qualquer senhora consumidora que critica maloqueiro no shopping não aguentaria passar um dia. Sem saneamento, o cheiro ruim não é só em dia de chuva. O espaço de diversão, a baixo custo, foi impedido de ser realizado. Isso não deve ter saído no jornal. Aconteceu em janeiro de 2014.

Em janeiro de 2013 centenas de jovens universitários, bem vestidos, que seriam bem-vindos em qualquer shopping do país, alguns com viagens ao exterior, com um futuro promissor, conseguiram encontrar um lugar para se divertir. Uma linda e famosa casa de shows. Que tinha espuma inflamável no teto, não possuía saída de emergências e um sinalizador foi acionado. A tragédia em Santa Maria fraturou nossa alma no fim do primeiro mês de 2013. Eram jovens, diferente dos jovens do rolezinho de São Paulo e de Guarulhos, que está tomando o Brasil. Morreram apenas por querer serem jovens e se divertirem. Queriam ir pra noite, ouvir música, cantar, dançar, azarar, se dar bem. Queriam beber a bebida que pisca. E na boate Kiss serviam champagne piscando, do mesmo jeito mesmo que não da mesma marca que a do patético Rei do Camarote. A mesma bebida do funk que se popularizou nas periferias brasileiras. Os jovens nesse mundo conectado, por diferentes extratos sociais que sejam, acabam se encontrando. Mesmo alguns de classe média e outros pobres. Querem sair à noite, dar um rolê no shopping, encontrar seus pares e se divertir.

A turma do rolezinho deve ir para onde? Qual o lugar que lhes é PERMITIDO acessar?

O espetáculo da sociedade de consumo é bem divulgado, na TV e por todo o lado, excita geral, mas não tem para todos. Tem polícia para controlar, tem sempre um funcionário orientado a pedir a comanda, mesmo que o fogo seja rápido e a fumaça letal. Sempre tem a barreira do dinheiro, do consumo, da mercadoria. Sempre tem um porão com pouca ventilação, um lugar lacrado pra não incomodar a vizinhança, um lugar sem rota de fuga. Sempre nos reservam um subsolo. “Fiquem aí embaixo e não nos encham o saco”. Tem sempre o lado de fora do shopping, o lado de fora do baile, o lado de dentro da casa. O lado de dentro da febem, da casa de correção, do presídio central. Pedrinhas, Maranhão. Na verdade o sistema tem um lugar superlotado para esses jovens deslugarizados, desubicados, sem local, que querem pertencer.

Por isso, pensando bem, estou encantado com os protestos nos shoppings que levam o nome rolezinho e que estão se massificando pelo Brasil. O que começou como passeio virou protesto. É uma incrível oportunidade dessa juventude altamente diversificada se encontrar e lutar por seu lugar. Os mesmos que expulsaram os jovens pretos e pardos, funkeiros, dos shoppings, agora desqualificam os “protestos-rolezinhos de brancos, de classe média”. Até isso os rolezinhos conseguiram, que ser branco e classe média em shopping seja motivo de chacota. Essa inversão da dita “normalidade” é uma marca indelével desses dias agitados que vivem o Brasil, dessas manifestações incontroláveis de querer sair do lugar-comum, de atropelar tudo que está velho. O templo do consumo vai virar palco de luta.

Com a afirmação acima, queiro deixar explícito, não concordo que os brancos da classe média asseada universitária devam falar pelos jovens da periferia. Não. Isso seria um assalto à voz e à identidade daqueles que se expressam no rolezinho, justamente por quem o apoia. Não sugiro simular artificialmente um rolezinho paulista em outros cantos do Brasil. Acredito, entretanto, que é um rico momento de visibilidade e debate para que os jovens da periferia se expressem, sejam vistos, respeitados. E também para que os shoppings sejam contestados na sua essência. Atacar a ideologia shopping center é enfrentar uma das bases, até pouco tempo bem sólidas, dessa sociedade de consumo e espetáculo. Assim, o sprotestos em shopping em apoio aos rolezinhos devem levar esse nome. Para quem pensa que os protestos de solidariedade tem pouca força ou validade, lembro do 17 de junho de 2013 em Brasília. A Marcha do Vinagre, de apoio às passeatas em São Paulo, fez uma das mais belas cenas de 2013, quando manifestantes ocuparam a marquise do Congresso.

Depois de ocuparmos as ruas, as Câmaras de Vereadores, as Assembleias, as prefeituras, o já citado Congresso Nacional, vamos tomar os shoppings. E assim, sem gastar um centavo, como quem não quer nada, fazemos o poder e a coerção mostrarem sua cara. A juventude vai em frente, fazendo história, na boa, só pra dar uns beijos, sem medo, nem nada.

*Rodolfo Mohr é jornalista e do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos.

Comentários

Deixe uma resposta