Arcando com o ônus – dos outros

Fernanda Piccolo Huggentobler 28/mar/2016, 15h26

Viviany Beleboni, modelo, cabelo longo, 1,80 de altura, ativista, transexual. Também conhecida como a trans que fez uma performance em um dos 18 trios no ato político mais conhecido como Parada LGBT de São Paulo, em 2015, crucificada com uma coroa de espinhos e palavras marcantes: BASTA DE TRANSFOBIA COM LGBTs.

Viviany causou polêmica e gerou indignação de grupos religiosos, que retribuíram tampouco não entendendo a mensagem inicial e atacando (não só) por meio de redes sociais. Pós sofrer diversas ameaças de agressão entrou com seis ações por danos morais no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP); também continuou dando explicações (ora, como se precisasse). Disse que a encenação foi um ato político do qual chamava atenção para as mortes/violências sofridas diariamente por LGBTs e a luta por uma identidade. Jamais quis atingir a imagem de qualquer tipo de religião.

Primeiro pedido? Negado. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), representado pela juíza Letícia Antunes Tavares, negou pedido de indenização proposto. Viviany afirmou ter sofrido ameaças pelas redes sociais e diz que os ataques foram resultado de eventual “discurso de ódio” proferido pelo senador Magno Malta (PR-ES), já o senador diz que ela “passou dos limites e semeou a intolerância e o desrespeito à liberdade religiosa”. Chamou ainda a ação de “nefasta, inescrupulosa e reprovável”. A juíza diz que a ‘encenação’ feita por Viviany foi liberdade de expressão, e, para maior indignação, entende que a modelo deve “arcar com o ônus e a popularidade” da repercussão do ato.

Arcar com o ônus?! A defesa do senador apontou que não houve declaração de ameaça ou ofensa à transexual, já que as críticas teriam sido dirigidas não à modelo, mas ao ato de “debochar” dos símbolos considerados sagrados no cristianismo. PORÉM, o que deve ser ressaltado é: não existe outra vítima, outro lado, outro ângulo, alguma defesa. Falamos de uma vítima única: a comunidade LGBT.

Mas eu te pergunto novamente: arcar com o ônus?! Vamos falar sobre arcar com o ônus: o Dia Internacional da Mulher acabou de passar, o Dia da Visibilidade Trans também, mas possuímos direitos de sê-las? Aos olhos de uma mulher transexual, o tema se torna mais delicado, já que pouco consideradas mulheres, são. Desprezadas pela sociedade, o mais comum é fingir que não existem – e o que muitos esperam que continue acontecendo. Como disse Carla Catelan, o problema é achar que só é mulher quem tem útero.

Não existindo a possibilidade de taxar qual violência pode ser maior ou menor (contra mulheres cisgênero e contra transexuais e travestis), o que existem são diferenças: para uma trans o direito de ‘ser’ é totalmente negado. A família não aceita a identidade trans. Os chefes não aceitam funcionários trans. O que sobra para as trans? A rua. “Objetificada e exotificada”.

No começo do ano, foram divulgados dados que mostram mais de 50 mulheres trans e travestis assassinadas em um período de 19 dias. A transfobia é definida como repugnância, ódio, preconceito. Está vista a olhos nus no país que mais mata em todo o mundo – os dados brasileiros são cada vez mais assustadores (precisa lembrar que nós também somos o país que mais procura por pornografia transexual?). Pense nesse número: quase três mulheres trans por dia.

As mulheres trans e travestis morrem enquanto cortam padrões e significam “só” mais um corpo tão odiado e feminino, um feminino tornado inferior. E o povo? O povo fala. O povo sempre fala – a grande maioria só fala. Fala e crucifica diariamente a cada assassinato de mulheres nas esquinas.

Viviany deu a cara à tapa. E apanhou. Apanhou literalmente, sofreu uma agressão em agosto de 2015, tempo após as polêmicas. “Enquanto me batiam, disseram que eu era um lixo, que tinha parte com o demônio e que não merecia viver”, disse. Durante um vídeo nas redes sociais feito após a agressão mostra a realidade aos tantos que a tratam como aberração: “(Eu fui) agredida por uma pessoa que fala que é de Deus”.

Disseram que ela teria que pagar pelo o que fez. Agora, arcar com o ônus, me parece familiar.

Viviany e todas as outras continuam taxadas em comentários nas redes sociais, continuam escondidas nas madrugadas das avenidas, todas com histórias para contar, ou, pelo menos as que sobrevivem. Viviany não fez boletim de ocorrência quando foi agredida, por ser tratada como homem na delegacia, além de ser motivo de piada. Contradição ela se esconder em casa ou na rua. Contradição, também, o senador querendo tornar “cristofobia” um crime hediondo (cristofobia é crime e transfobia não?).

Viviany não sai de casa com tanta alegria.

Laura Vermont foi assassinada por PMs, corpo encontrado esfaqueado e com um tiro no braço.

Makely Castro foi assassinada, depois de dias seu corpo foi encontrado, seminua de braços abertos.

Roberta Góes foi negada em um pedido de adoção, porque ela e o marido não eram um “casal normal”.

Luiza Mouraria foi assassinada, seu namorado não sabia que ela era trans, quando soube, matou com socos, pontapés e um pedaço de madeira. Ele foi solto 30 dias após.

Cicarelli foi encontrada morta durante a madrugada. 24 perfurações, que fizeram na calçada de uma loja de sapatos.

Gisberta, Luna, Malu, Stéfani, Michelly, Sabrina, Valéria.

Enfim, Juíza, pela nossa liberdade de expressão, arcamos com o ônus todos os dias. Arcamos com o ônus – com a nossa vida.

Na continuação: não nos calarão.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017