⁠⁠Esse cuspe é de todos nós!

Lucas Veiga 19/abr/2016, 21h28

Eu cuspiria em Jair Bolsonaro. Não só nele, mas em outros tantos (políticos ou não) que defendem dia a dia com piadinhas, violências físicas e mentais a exterminação da sociedade LGBT. E podem me chamar de baixo. Podem bater panela, podem dizer a velha justificativa do conservadorismo de que “se quer respeito, respeite”. Podem virar mesas, cadeiras, fazer escândalo, porque quem nasceu silenciado tem força no gesto.

Jean

Imagem: Ribs

Sabe por que eu cuspiria? Porque me cospem também. E não cospem só em um domingo de votação no congresso, mas sim, todos os dias que vivo, todas as vezes que saio na rua e tenho o direito de ser eu negado, todas as vezes que tive medo dos meus amigos, da minha família, da minha escola, da minha universidade, do meu professor, da sociedade. E quero que me chamem de baixo por defender o cuspe. Mas, mais que isso, quero que respeitem meus trejeitos, minhas condições, meus direitos.

É visível o cuspe – de sangue – na cara da sociedade LGBT. Você sabia que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais? Você sabia que em 2014 a cada 27 horas um LGBT foi exterminado no Brasil? Acho que não. Porque se soubesse, também cuspiria na cara de Bolsonaro e de outros tantos. Mas isso não se escancara, porque o cuspe na cara dos privilegiados tem mais evidência na mídia, nas rodas de debate, no discurso do patriarcado. Gritam aos quatro cantos que veado, sapatão, travesti e transexual tem que ficar calado. E isso é escancarado, desde as vaias ao discurso de Jean Wyllys até as lâmpadas quebradas nas nossas cabeças.

Esse cuspe é de todos nós. Todos que tem a “sorte” de amanhecer vivo numa sociedade que quer nossa morte. É de nós que somos crucificados todo santo dia por “pessoas de bem”. Esse cuspe é de quem dá a cara a tapa, de quem defende, acima de tudo, a democracia. Enquanto for preciso gastarei minha saliva dando cuspes, mas anseio pelo dia em que a gastarei – única e exclusivamente – beijando a boca da liberdade.