É necessário uma Revolução Política no Brasil

Juntos 26/abr/2016, 13h48


Nem Temer, nem Cunha: eleições gerais já!

Resolução do Grupo do Trabalho Nacional do Juntos

24 de abril de 2016

No domingo (17/4), foi aberto o processo de impeachment da presidenta Dilma. Durante horas a fio, a população assistiu ao vivo a podridão de boa parte dos membros do Congresso Nacional. Salvam-se ali raríssimas exceções, como os parlamentares do PSOL. As declarações de voto favoráveis ao impeachment revelaram que a maioria dos congressistas advoga em interesse próprio. O Congresso Nacional simboliza o que há de pior na casta política brasileira. É o palco para as negociatas da maioria dos partidos da ordem. Ali o interesse público é deixado de lado, em nome dos negócios privados.

O ponto máximo da degeneração do poder legislativo nacional foi o discurso de Bolsonaro, que parabenizou o mega corrupto Eduardo Cunha e o assassino e torturador, condenado por crimes cometidos durante a ditadura civil-militar, general Brilhante Ustra – o que causou a ira e a mobilização da juventude pelas redes. Comandada por Eduardo Cunha (o recordista de escândalos de corrupção no Brasil), a Câmara deu um passo decisivo para aprovação do impeachment. Tornando-se praticamente impossível sua reversão.

NEM TEMER, NEM CUNHA: ELEIÇÕES GERAIS JÁ

O Juntos esteve entre aqueles que há meses defendem eleições gerais como saída a esta crise, e como milhares de jovens nos indignamos diante da farsa que pode levar Michel Temer à Presidência da República. Por isso, acreditamos que a única saída aceitável para o grave problema político que atravessamos é aquela que coloca o povo e juventude no centro do debate e da tomada de decisão. Sabemos que boa parte da insatisfação da população com o governo Dilma está no fato de este ser um dos responsáveis pela calamidade social e econômica que vive o país. Mas sabemos também que um provável governo Temer aumentará este problema.

Por isso, nos opusemos ao impeachment. Acreditamos que ele não acarretará em nenhuma solução para os problemas graves que atacam o bem-estar da juventude e dos trabalhadores. Não podemos aceitar, por este motivo, o governo ilegítimo de Michel Temer. Mas dizer não ao impeachment é absolutamente insuficiente. A permanência de Dilma não inibirá os cortes de verba de áreas sociais, o desemprego na juventude, não cessará o tarifaço dos serviços públicos e a retirada de direitos da juventude e dos trabalhadores.

Se no último período, os governos do PT foram aceitos como gerenciadores do Estado brasileiro, principalmente a partir da política de conciliação de classe do lulismo, com a crise política e econômica, os setores da elite brasileira resolveram escolher outros gerentes. Há hoje uma disputa dentro do regime. Por isso que, mesmo com a ameaça iminente da realização do impeachment, o governo prefere continuar sinalizando para a elite econômica e para o mercado. Além disso, negocia sua sobrevivência reproduzindo os piores métodos de toma-lá-dá-cá, apostando num congresso conservador, frustrando aqueles que vão às ruas esperando ainda uma “guinada à esquerda”. Parte dessa política pode ser vista na participação do governo na aprovação da entrega do pré-sal no Senado, o PL do anti-terrorismo, que pode ser usado para criminalizar ainda mais os movimentos sociais, e o PLP 257/16, que é um ataque frontal ao funcionalismo público, sem falar na intenção de uma nova reforma da previdência. Neste sentido, temos clareza que independente do resultado final deste processo, o povo, a classe média, e a juventude serão os setores que vão sofrer mais. Por isso que se torna fundamental pensar em políticas que desenvolvam o sentido de nós versus eles, o povo contra a casta política, 99% contra 1%.

A defesa de eleições gerais tem como centro uma única preocupação: transferir a decisão sobre o destino político do país dos palácios para a mão do povo. Reconhecemos que as eleições têm sua limitação para a transformação dos graves problemas sociais que vive o país, mas acreditamos que o mais correto é que o povo se sinta responsável pelos próximos passos que daremos diante desta crise política e seja chamado a decidir.

Junho de 2013 foi o ápice da luta contra o regime político do país, quando as primeiras insatisfações com a crise tiveram um alcance de massas. Desde então, processos de luta importantes vem ocorrendo, nenhum tão “global” quanto Junho, mas que tem Junho como referência. Só na juventude tivemos a primavera das mulheres e o levante dos secundaristas. Além disso, o boom de ocupações urbanas, e um aumento significativo de greves pelo país. Já na fundação do Juntos, nos colocávamos como desafio ser parte da construção de uma alternativa de poder para o Brasil, a partir de um programa anticapitalista e de ruptura com o sistema político e econômico. Aprendemos com essas experiências também. Como parte dessa construção, a campanha da Luciana Genro, em 2014 foi um passo importante neste sentido: milhares de pessoas tiveram contato com essa política, sintonizada com esses movimentos.

QUE TODOS OS CORRUPTOS DENUNCIADOS SEJAM JULGADOS E PUNIDOS

A Operação Lava-Jato revelou para milhões o que há tempos já sabíamos, a maioria dos partidos está envolvida em grandes escândalos de corrupção. Além disso, desnudou a relação espúria entre financiadores e financiados: a corrupção é parte do sistema de lucros capitalistas. Não à toa, grandes empresas brasileiras, principalmente do ramo das construtoras, estão tendo que dar explicações, e alguns dos seus principais empresários estão na cadeia. Ficou claro que os partidos da ordem (PMDB, PSDB, PT, PP, entre outros) se baseiam neste método para se reproduzirem. A casta política do país atua em beneficio próprio e não em prol do povo.

A corrupção é um meio do qual a elite econômica consegue que os políticos legislem em seu favor. Por isso, enquanto os governantes cortam direitos sociais, não se combate de fato a corrupção.

Mesmo que possamos e devemos criticar desvios, imparcialidades, e excessos, algumas coisas não podem ser negadas: a operação tem forte apoio popular, e colocou em foco os corruptos e os corruptores. Por isso, existe por parte da elite política uma tentativa de deslegitimar e barrar a operação. Para a direita não é mais benéfica, ela já fez o que tinha que fazer, desacreditando a esquerda a partir dos escândalos que o PT se envolveu. Se ela continuar, Aécio (que já bateu o hexa em citações), Renan, Temer, Cunha e outros correm mais riscos. Para o PT é importante deslegitimar tudo. Defendemos que todos os citados devam ser investigados e, comprovados os crimes, punidos. Queremos que o povo possa saber como opera o sistema político brasileiro.

Como diria Bernie Sanders, o candidato autodeclarado socialista das primárias para a presidência dos Estados Unidos, necessitamos de uma revolução política: onde o povo e a juventude de fato tenham vez.

A JUVENTUDE ESTÁ PAGANDO A CONTA DESTA CRISE

O Brasil vive uma crise política, econômica e social sem precedentes, a primeira grande crise pela qual jovens de até 30 anos passamos. Só neste ano, o índice de desemprego atingiu cerca de 10% e a maioria dos desempregos está entre a juventude. Fecharam as portas quase metade das lojas de shopping centers inaugurados desde 2012. Boa parte destes empregos são ocupados por jovens. Caminhando pelos centros comerciais de algumas cidades, parece estarmos transitando por ruas fantasmas, devido ao número de estabelecimentos que encerraram suas atividades. A construção civil, uma das maiores responsáveis pelo PIB nacional, reduziu significativamente o número de postos de trabalho. Mais uma vez, são os jovens os maiores atingidos. Especialmente aqueles que encontravam na construção civil, no comércio e nos setor de serviços a oportunidade do primeiro emprego. Ao mesmo tempo que aumenta o desemprego, também aumenta a precarização. Com o fechamento de vagas com carteira assinada, a juventude passa a ser mão de obra disponível para os trabalhos mais precarizados e sem nenhuma garantia.

A renda média do brasileiro igualmente caiu em 2016. Contudo, o custo de vida aumentou muito. Tudo está mais caro: as tarifas de luz, água, gás, transporte, e também os custos com alimentação. O salário retraiu, mas o preço das mensalidades nas universidades aumentou. Além disso, o governo restringiu o montante disponível para financiamento do FIES. Muitos estudantes não conseguiram renovar seu crédito ou não puderam matricular-se por não ter conseguido o benefício.

Nas escolas e universidades públicas, o quadro é cada dia mais grave. Falta verba pra tudo, desde os salários dos profissionais da educação, até a comida que não é mais distribuída nas escolas. Ou porque seu recurso foi cortado, ou porque foi desviado como no caso do Escândalo da Merenda do PSDB de São Paulo.

Nas universidades, as bolsas recorrentemente atrasam ou simplesmente não têm sido renovadas. Muitas linhas de pesquisa tiveram seu financiamento cortado, limitando a capacidade de inovação e o desenvolvimento de pesquisas de ponta de interesse social, a exemplo do ocorrido com o PIBID.

SECUNDARISTAS E MULHERES MOSTRAM O CAMINHO

O exemplo de resistência aos ataques da casta política vem ecoando desde o ano passado a partir das escolas de São Paulo que foram ocupadas pelos estudantes que derrotaram o governo Alckmin (PSDB) e seu projeto para fechar escolas. Agora os estudantes paulistas se mobilizam para denunciar a máfia que rouba a merenda e inspiram secundaristas que se manifestam contra a redução de aulas no Pará e a juventude carioca que ocupa as escolas do Rio em defesa da educação.

O reconhecimento público de Eduardo Cunha como corrupto, conservador e machista é resultado da ofensiva que as mulheres empreenderam contra o presidente da Câmara em 2015. Enquanto uma mulher morre por aborto inseguro a cada dois dias no Brasil, Cunha afirmou que o aborto seria legalizado apenas por cima de seu cadáver. A tentativa de Cunha de proibir a pílula do dia seguinte, resultou no emparedamento deste corrupto pelas mulheres brasileiras. A primavera protagonizada pelas mulheres em 2015 foi exemplar no papel dos movimentos sociais de denunciar e combater a casta política e seu programa retrógrado que retira direitos.

Levantamos a bandeira por eleições gerais para barrar a manobra que quer entregar a faixa presidencial para Michel Temer. Não vemos saída na votação do Senado e nem na simples defesa da manutenção do governo. Acima desta polarização que tenta esconder a disputa dos peixes grandes pelo poder, está a mobilização da juventude por mais direitos. Não reconhecemos legitimidade em qualquer governo que saia desse processo de impeachment e nos inspiramos nas lutas e nos métodos radicais usados pelos secundaristas.

Queremos botar abaixo os governos da elite, o parlamento entregue aos grandes empresários lutar contra o regime que perpetua as desigualdades no nosso país. Sabemos que se não nos organizarmos em nossos bairros, locais de estudo e trabalho, os mafiosos seguirão definindo o futuro do Brasil. Vamos com o exemplo do #ocupatudo, ocupar a política e tomar as rédeas do nosso future.

  • Nem Temer, nem Cunha: eleições gerais já!
  • Que todos os corruptos denunciados sejam julgados e punidos
  • Façamos como os secundas e as mulheres: ocupar as ruas e as redes, revolucionar a política.