SP: Maior Marcha da Maconha do Brasil

Pedro Micussi 23/maio/2016, 18h19

Foi a maior Marcha da Maconha de que se tem notícia no Brasil. Na tarde do sábado do dia 14 de maio a Paulista agora acostumada às manifestações populares, foi se enchendo de gente. Se agora a avenida símbolo da cidade de São Paulo esta acostumada às manifestações, com as recorrentes manifestações pró e contra impeachment, aqueles que estavam prestes a tomar as ruas da capital clamando pelo fim da proibição à erva não podiam deixar de guardar um frio na barriga. Frio na barriga que vinha desde 2011, quando a polícia reprimiu covardemente as centenas de pessoas que naquele dia ocupavam pela primeira vez a Av. Paulista levantando essa bandeira.

Se ao longo dos últimos anos conseguimos ganhar a legitimidade de nos expressar ocupando as ruas, de modo que hoje fica fácil até pra pato gigante desfilar, sábado dia 14 era um dia diferente. Diferente já que não mais que 48 horas atrás, tomava posse um novo presidente, que do ponto de vista do dialogo com os movimentos sociais já demonstrava sua preferência ao porrete ao lugar da conversa. Novo presidente que convocava Alexandre de Moraes para o Ministério da Justiça, aquele que outrora advogado do PCC, acabava de sair da Secretaria de Segurança Pública de Alckmin, e chegava a Brasília criminalizando movimentos sociais e prometendo o recrudescimento do combate antidrogas. Eis um sujeito que não deve morrer de amores pela Marcha. No mais, era um dia diferente pois a Marcha prometia, em ato de desobediência civil, fazer maconhaço na Paulista e escancarar que fumar o pessoal já fuma. Ué, se a proibição jamais estancou o uso das drogas no país – fato este só salientado pelo maconhaço – como então justificá-la?

De todo modo, foi quando a Marcha finalmente saiu do vão do MASP e tomou conta da Paulista que tivemos conta do que de fato estava sendo diferente. 20 mil, 30 mil, 42 mil? Não se sabe ao certo, tinha gente de perder de vista, estávamos fazendo a maior manifestação antiproibicionista da história do país. Eram pessoas das mais diversas. Se a Marcha da Maconha de SP levantava o mote Fogo na Bomba e Paz na Quebrada, não há dúvidas que ela compareceu ao ato, mostrando que a capacidade unificadora da bandeira antiproibicionista no país é grande. Mais uma vez, a Marcha se mostrou uma manifestação rica em sua diversidade de composição e reivindicações.

Nós do Juntos Pela Legalização nos orgulhamos sermos parte disso, de ter ajudado a mais uma vez escancarar as contradições da guerra às drogas no país. Como mostravam nossas faixas, esse ano em São Paulo, marchamos a favor da descriminalização das drogas em processo que corre no STF. O processo em curso na Corte é um fato, e acreditamos ser necessário nele influir, uma vez que a descriminalização do uso pode representar um avanço na consciência da população ao escancarar ainda mais as contradições de uma política de drogas que diz não ser crime o uso, mas proíbe o trafico. Não apenas, estamos pela legalização da maconha e das outras drogas por achar que só assim daríamos um basta no tráfico de drogas no Brasil, o que representaria uma inflexão contra o atual populismo penal praticado no Brasil, como também ante aos números pavorosos de homicídios no país. Dessa maneira, nossa principal bandeira foi 20 de novembro é todo dia, legalizar pela vida da negritude, ao lembrarmos que, em terras tupiniquins, é inequívoco que a guerra às drogas faz das suas vitimas majoritariamente a população negra brasileira. É ela que mais morre nas mãos da polícia ou do tráfico; é ela que, de longe, compõe os números de nossa população carcerária; é ela quem mais é recriminada nos enquadros…

Ao construirmos nossas pautas conjuntamente, também entendemos que o antiproibicionismo brasileiro só tem a ganhar e enriquecer-se com o movimento negro. Dele devemos aprender e nos armar conjuntamente. Ainda temos um longo caminho pela frente. Legalize já!

PS: O atraso da realização deste texto, que sai mais de uma semana depois de realizada a Marcha em SP, traz também uma pequena vantagem: houve tempo para este que escreve presenciar, em uma Virada Cultural paulistana marcada pela insatisfação generalizada em relação ao ilegítimo governo de Michel Temer, show da Nação Zumbi em que a banda dedicou música a todos aqueles que constroem a Marcha da Maconha pelo Brasil. Na última apresentação do final de semana, no palco principal para milhares de pessoas, os pernambucanos fizeram questão de, para além do Fora Temer, escancarar o absurdo da proibição no país. Tamo junto!

Pedro Micussi é militante do Juntos Pela Legalização de São Paulo. Coletivo este que ajudou a construir a Marcha da Maconha deste ano em São Paulo.

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