“O amanhã começa aqui”, Direto de Paris #NuitDebout

Camila Souza 07/jun/2016, 17h57

Cheguei em Paris há dois dias. Foram dois intensos dias, acompanhando mobilizações, atividades, reuniões. A Franca vive um estado permanente de mobilização há alguns meses. A reforma trabalhista proposta por Hollande foi a gota d’água para a explosão de uma enorme insatisfação social, unindo a juventude e os trabalhadores.

7 em cada 10 pessoas acredita que o governo é o responsável pela instabilidade que vive hoje o país. E mais de 85% da população rejeita a proposta de reforma da lei. O governo está debilitado e as mobilizações com muito apoio popular. Milhões se levantaram em toda a Franca durante os últimos meses.

Nuit Debout pertence ao ciclo de mobilizações que os Indignados espanhóis e os americanos do Occupy Wall Street fazem parte. A rota dos indignados mundiais chegou na Franca e abalou as estruturas politicas já desgastadas. Em todas as conversas que tivemos a oportunidade de fazer com os construtores do Nuit Debout, eles se animavam em contar da conexão que estão construindo com os demais levantes internacionais.

“A crise é mundial. Os nossos problemas foram mundializados. Então vamos todos ficar de pé”, foi o que me disse uma jovem estudante da Comissão de Greve Geral do Nuit Debout. Encontrei Lea em uma Assembleia de trabalhadores do entretenimento, ela estava lá para defender ações unificadas entre o Nuit Debout e os trabalhadores desse setor.

Há mais de 11 meses os trabalhadores e a juventude estão a construir jornadas de luta, o Nuit Debout foi o espaço de convergência de todas elas, trazendo novas práticas de ações coletivas, como a ocupação da “Place de la République”. Há uma crescente retirada de direitos que começou o governo de Sarkozy e que tem continuidade no governo de Hollande. Apesar de Sarkozy e Hollande terem se enfrentado nas eleições com discursos distintos, na prática implementaram a mesma cartilha: flexibilização e desmantelamento das leis trabalhistas. Ambos atuam em defesa de uma cartilha neoliberal autoritária, que usa da repressão e da vigilância como mecanismos de garantir a estabilidade do regime.

Mas o que vi aqui foi uma juventude combativa que a partir do Nuit Debout conseguiu provocar uma mudança na correlação de forças. A crise de representatividade se aprofundou e a instabilidade aumentou. Pude acompanhar várias frentes de luta em atuação, em todas elas há o questionamento ao governo e ao poder do sistema capitalista em nossas vidas. O anticapitalismo é, sem dúvidas, uma marca do Nuit Debout.

Daqui fico com a impressão que a ocupação das praças foi um impulsionador para a luta em varias estruturas, das escolas, universidades, aos locais de trabalho. Tudo isso me lembrou muito a nossa jornada de lutas em junho de 2013 no Brasil. Ainda é cedo para afirmar os rumos do movimento, mas algumas coisas já podemos apontar, entre elas está que o Nuit Debout abriu fissuras no regime, e ampliou a instabilidade política, dando voz a vários sujeitos. Como seguir conectando essas vozes e construir uma alternativa é uma questão a se enfrentar. Hollande segue tentando aprovar a reforma na “Loi Travail”, não conseguindo maioria na Assembleia Nacional pretende usar de uma manobra para aprovar sem passar por lá. Os próximos dias serão decisivos nessa batalha, por isso Nuit Debout está a convocar o dia 14 como um dia mundial de mobilizações. Uma vitória contra a reforma proposta por Hollande é uma vitória de todos os anticapitalistas do mundo.

A Franca tem uma história de lutas muito forte, que influenciou o mundo: a Comuna de Paris, o Maio de 68. Acompanhar, aprender e nos conectar com a luta deles hoje é uma experiência incrível, e certamente decisiva para aqueles que querem construir um outro futuro, e por isso o Juntos! está aqui.

*Camila Souza é Diretora de Relações Internacionais da UNE pelo Juntos!, e está em Paris para conhecer de perto o movimento #NuitDebout.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017