Fusão dos grupos Kroton-Anhanguera e Estácio significa o que para os estudantes?

Tássia LopesBelinha Oliveira 04/jul/2016, 12h24

Com quase 1 milhão de matrículas em marcas como Anhanguera e Pitágoras, o grupo Kroton-Anhanguera tem um lucro líquido de R$ 505,9 Milhões. É o líder do mercado da educação. Em segundo lugar no ranking dos tubarões do ensino, está a Estácio. A fusão desses dois grupos significa mais precarização do ensino superior, e a concentração de boa parte da verba do FiES em um único grupo. O grupo Kroton atualmente já faz parte das 5 empresas que mais verbas do Governo Federal, este montante recebido unicamente com o FiES. Com essa possível fusão, o grupo se tornaria um aglutinador de verbas do governo federal e outros fundos de incentivo à educação, concentrando mais de 50% dos contratos.

Para além da aglutinação das verbas federais, a fusão do grupo Kroton com a Estácio é sinônimo de precarização dentro dos campus. O grupo Kroton é conhecido por adotar medidas duras em relação à administração dos campus: medidas como catracas que ficam automaticamente bloqueadas para um estudante que atrasar o pagamento de suas mensalidades e impedem que pessoas não matriculadas nas instituições tenham acesso aos campus, redução de gastos com o corpo docente e a estrutura das salas de aula, dentre outras. Com qualidade do tripé da educação (ensino, pesquisa e extensão) precária e a ausência de políticas de assistência e permanência estudantil, os estudantes são tratados apenas como percentual de lucro.

A educação superior precisa urgentemente ser regulamentada, além de garantir democracia e popularização do acesso. Hoje as universidades e faculdades particulares são “terra de ninguém”: grandes fusões como esta e aumento das mensalidades são políticas onde os empresários dão as cartas. Esse modelo de ensino é favorável para a manutenção de lucros milionários e não serve para a garantia de uma política educacional onde a comunidade acadêmica seja prioridade. Inclusive, esse modelo educacional de caráter privado é uma herança da ditadura militar no Brasil, onde seja qual fosse o governo, manteve-se a mesma lógica de favorecimento do mercado educacional.

Programas como o FiES e o ProUni são uma porta de entrada para muitos estudantes, que sem estes, não garantiriam seu acesso ao ensino superior. Assim, estes programas garantiram aumento de matrículas e de diplomas. Porém, essa política educacional do governo, sejam como na forma da lei e também pelo grau de comprometimento com os tubarões de ensino, tem mais enviado dinheiro público os empresários do que de fato popularizado à educação superior no país garantindo assistência e permanência.

A ambição dos grupos do mercado educacional está além do lucro em mensalidades altíssimas. Os grupos cada vez mais ambicionam as verbas dos programas do governo federal e nesse sentido a lei do FiES é cruel com a democratização do ensino: financia as mensalidades dos contratantes (estudantes) a juros baixos, paga as universidades via emissão de títulos da dívida pública que são recomprados pelo Governo com os juros da taxa Selic (que é mais elevado). Ao invés de acesso, assistência e permanência significa ser um ótimo negócio a os tubarões do ensino. Concentrando verbas, porcentagem de participação no mercado, e poder, o grupo Kroton se torna uma ameaça para os estudantes, pois não deixa sequer outras opções no mercado e traz mais precarização para a rede privada.

Apesar de questionamentos do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), OAB, e até de Deputados Federais, o grupo Kroton-Anhanguera segue se fundindo às maiores instituições privadas de ensino do país, alastrando por todas regiões do Brasil a precarização e a ambição em verbas do governo. Inclusive, o grupo Kroton-Anhanguera surgiu de uma fusão realizada há poucos anos atrás do Kroton com as universidades Anhanguera. Isso tudo com respaldo governamental. O atual ministro da educação, Mendonça Filho, fecha os olhos para essa realidade uma vez que defende a manutenção de uma política educacional pura e simplesmente mercadológica: esse projeto não nos representa.

É preciso denunciar a política enriquecedora dos tubarões do ensino, e os malefícios que ela traz aos estudantes e à juventude. Com ações críticas e políticas que nos atacam, se faz cada vez mais necessário lutarmos pela popularização das universidades privadas de fato, por mais vagas nas universidades públicas e pela campanha Fora Mendonça!

 

*Belinha Oliveira é estudante de história na Faculdade Estácio de Belo Horizonte e Tássia Lopes é estudante de biologia na PUCRS

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