Irresponsabilidade de governos está levando estudantes a ocuparem suas escolas

‫Fabiana Amorim 27/out/2016, 12h44

*Esse texto é uma resposta à coluna de Kim Kataguiri “Oportunismo político das esquerdas causou morte em escola invadida.” na Folha de S. Paulo.

Estamos assistindo se espalhar pelo país um fenômeno entre a juventude: a ocupação de escola como método de defender a educação pública. Inaugurada em São Paulo, em dezembro do ano passado, essa forma de fazer política já se demonstrou vitoriosa quando as batalhas são duras e os estudantes nunca são chamados a decidir sobre seu futuro.

Desde seu primeiro dia de governo, Michel Temer tem atuado para desmontar a educação pública. Primeiro com a Proposta de Emenda Constitucional 241 que coloca um teto nos gastos do governo, que na prática vai congelar em 20 anos o investimento nas áreas sociais – sendo saúde e educação as mais afetadas. E segundo com a Medida Provisória 746 de reformulação do Ensino Médio, que vai na contramão do que desejam os estudantes e educadores: integrando o ensino técnico ao médio sem se preocupar com a realidade da estrutura das escolas (que ficarão cada vez mais precárias com o congelamento nos recursos), retirando obrigatoriedade de matérias fundamentais (como artes, educação física, sociologia, filosofia e espanhol) e até mesmo a obrigatoriedade dos professores possuírem graduação para lecionar.

A narrativa que tenta fazer o MBL e o governador Beto Richa, culpabilizando o movimento das ocupações de escola pela morte do estudante nesta segunda-feira (24) dentro de uma ocupação em Curitiba é insensível, irresponsável e oportunista. A juventude convive com a violência em todos os espaços das cidades. Segundo a Anistia Internacional, das 56 mil pessoas assassinadas no Brasil em 2012, 30 mil são jovens de 15 a 24 anos. Ou seja, ao invés de se solidarizar com a família e a comunidade do jovem assassinado em Curitiba, MBL e Beto Richa se utilizam da tragédia para criminalizar a juventude que tem tomado não só as escolas e universidades, mas o futuro em suas próprias mãos.

Existem hoje cerca de mil ocupações de escolas, institutos federais e universidades pelo país. Os secundaristas, em especial, têm se mostrado dispostos a resistir às irresponsabilidades do governo federal com a educação e com toda uma geração que quer garantir seu direito de estudar com qualidade. O Ministro da Educação Mendonça Filho deve iniciar imediatamente um processo de diálogo com os estudantes, pois ameaça e a coerção não farão as escolas serem desocupadas. As desocupações só acontecerão quando tivermos a certeza de que não tocarão em nossas escolas para pagarem suas crises.