A inserção das pessoas transgêneras no mercado de trabalho

29/jan/2017, 19h19

por Luiza Eduarda dos Santos, militante Trans do Juntos LGBT

 

Conforme a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), cerca de 95% de nossa comunidade necessita recorrer à prostituição como forma de subsistência. Mas por que isto ocorre? Para nós, transgêneros, o texto provavelmente não traga muitas informações novas. Além disto, parte da comunidade LGBT, irá compreender, aos menos parcialmente, algumas das razões, por, infelizmente, compartilharmos dos mesmos preconceitos sofridos. Porém, os motivos que elencarei aqui devem servir de reflexão para aquelas pessoas que não são e/ou não possuem contato com pessoas da comunidade LGBT.

Vivemos em uma sociedade cisheteronormativa, ou seja, estruturada para pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi imposto ao nascerem e que sentem atração sexual por pessoas do sexo oposto. Assim, todas aquelas que ousarem sair destas “caixinhas”, mais cedo ou mais tarde, pagarão um preço muito alto por isto. É claro que não é possível se generalizar, mas será a esmagadora maioria. Apenas algumas poucas conseguirão superar as adversidades de modo a escapar da estatística apresentada na abertura do texto. E um número ainda menor conseguirá ter carteira de trabalho assinada. Porém, dificilmente escaparemos de abalos e traumas psicológicos.

Nossos problemas têm início no momento em que nos reconhecemos como pessoas cuja identidade de gênero não corresponde com aquela que determinaram como supostamente sendo a nossa ao nascermos. Sim, porque no momento em que a criança nasce determina-se com base na genitália se é “menina” ou “menino”. A partir de então cria-se a expectativa de que a criança irá se reconhecer como sendo deste sexo quando ela crescer. E isto é reforçado com algumas imposições e restrições. Se for “menina” terá de usar rosa, brincar de boneca e casinha, ser delicada…; se for “menino”, sua cor terá de ser azul, brincar de carrinho, ter algum um super-herói de sua preferência e será “educado” a ser machão. Os problemas começam quando a realidade não confirma à expectativa.

Tais problemas atingem de uma forma mais incisiva as esferas familiar e escolar com consequências devastadoras para o futuro destas pessoas. Tanto em uma esfera, quanto na outra, serão alvos de preconceitos, bullying e, muitas vezes, de violência e/ou abusos. O drama se completa com a expulsão do lar e a evasão escolar. Aliás, é na escola que as crianças transgêneras terão uma pequena amostra do mundo que às espreita lá fora pois dificilmente terão seu nome social respeitado, nem poderão usar o banheiro do gênero com o qual se identificam. Isto sem falar que não poderão se vestir, nem participar das atividades de educação física com o grupo com o qual se percebem.

Mas… e o que tudo isto tem a ver com a inserção das pessoas transgêneras no mercado de trabalho? Bem, em suma, são todos estes elementos convergentes que acabam por “induzi-las” à ir para as ruas, esquinas e a se submeterem aos cafetões em uma arriscada tentativa de sobrevivência. Tudo porque, sem formação escolar, nem apoio familiar, não lhes resta outra alternativa senão esta.

Como plus, temos o fato de que, salvo raras exceções, as empresas não estão preparadas para lidar com a diversidade sexual. Assim, administradores e recrutadores preferem não vincular a imagem da empresa contratando pessoas transgêneras. E, quando o fazem, contraditoriamente, costumam negar-lhes direitos básicos, como o uso do nome social no crachá, além do banheiro de acordo com o gênero que a pessoa se reconhece.

É preciso ficar claro, acima de tudo, que o mais importante, não é o órgão genital que se possui entre as pernas, mas o que se tem entre as orelhas, no caso, o cérebro. Faço tal afirmação não com o intuito de chocar as leitoras e os leitores, mas à guisa de constatação lógica mesmo.

A triste realidade é que, apenas muito recentemente, passou a se falar sobre a questão das pessoas transgêneras. De qualquer forma, para que a realidade mude é preciso que se conscientize a sociedade como um todo a respeito de nossos problemas, pois, cada um dos aparelhos ideológicos do Estado apontados anteriormente, são compostos por seres humanos. Para tanto, é necessário que se discutam as questões sobre gênero e sexualidade desde a mais tenra idade, pois, as crianças são as que estão mais abertas e receptivas à tais reflexões. E, para que isto ocorra, é fundamental defender e lutar pela laicidade do Estado, pois sem esta todos os direitos básicos correm sérios riscos.

Por tudo isto, 29 de janeiro é uma data especial para a comunidade transgênera, pois não se trata apenas do Dia Nacional da Visibilidade Trans. Apesar de ser apenas mais um dia de luta, é a principal data no que concerne nosso lugar ao Sol. Porém, isto não é suficiente, uma vez que também precisamos de uma maior inserção midiática – a qual, ressalta-se não nos servirá qualquer migalha e sim uma exposição respeitosa e que mostre que as pessoas transgêneras são tão seres humanos quanto quaisquer outras. Podemos ser mulheres trans, homens trans ou travestis, porém, somos feitas de carne e osso. Como vocês.