As Marchas das Mulheres contra Trump são o signo da nova onda feminista

22/jan/2017, 20h01

* Por Maíra T Mendes, do Juntas

Já era bem cedo em Washington no sábado, dia 21 de janeiro, quando começaram a chegar ônibus, carros e até aviões praticamente só de mulheres. Em cidades como Baltimore, tanta gente estava na fila do trem para a capital dos EUA, que uma marcha se formou já no caminho. A Marcha de Mulheres a Washington, que começou a ser convocada no dia da eleição e Donald Trump, esperava cerca de 250 mil pessoas. Este foi o número estimado no dia anterior, 20 de janeiro, no dia da posse do presidente eleito, em que diversos protestos ocorreram pelo país.

Na marcha do dia 20, só em Washington ocorreram cerca de 100 prisões, com o uso de violência policial. A Casa Branca se apressou a divulgar uma nota afirmando que o governo Trump seria um governo de “lei e ordem”, e que recentemente “setores da sociedade” procuravam desmoralizar a instituição policial, uma clara alusão ao movimento Black Lives Matter (BLM), que desde 2013 vem denunciando a violência policial letal que atinge os negros. Trump sabe exatamente os movimentos de massa que mais lhe ameaçam, e não à toa mandou um recado para BLM.

O gabinete de Trump não mencionou nenhuma palavra sobre uma das maiores mobilizações da história recente dos EUA, no dia seguinte à posse. “Nasty women” (mulheres desagradáveis), expressão com que Trump se referiu à sua oponente, se tornou um dos símbolos como muitas se identificaram nas Marchas, tanto na de Washington como nas paralelas à da capital – como a de Chicago que reuniu 125 mil e Boston, com 250 mil pessoas. Várias usavam “pussy hats”, chapéus que faziam referência aos pequenos lábios, quase todas carregavam cartazes repudiando o presidente eleito, muitas das palavras de ordem faziam referência ao processo de resistência que inicia agora. Se alguém tinha dúvida da centralidade e do ascenso da luta das mulheres em todo o mundo neste período, as marchas que ocorreram em diversas partes do planeta para demonstrar que Trump enfrentará muita resistência, e que é daquelas mais atingidas pela crise que a luta virá com mais força. Na capital do país, superando todos os prognósticos já bastante entusiastas, mais de 500 mil pessoas se reuniram na Marcha das Mulheres, quase o dobro do que no dia da posse.

Dentre as mulheres famosas que estiveram nas marchas estão Madonna, Angela Davis, Scarlet Johansson, Janelle Monaé, Charlize Teron, Katy Perry, Laura Prepon, Uzo Aduba, Cher, Miley Cyrus, Jane Fonda, Kristen Stewart, Alicia Keys, Emma Watson. Entretanto eram das anônimas que vinha a maior força da mobilização: das imigrantes sem documentos, das latinas (que sofreram o maior peso do estigma na campanha xenófoba que pretende construir um muro na fronteira com o México), das mulheres negras que perderam seus entes queridos pela violência racista, das muçulmanas acusadas de terroristas, das mulheres trans, lésbicas e bissexuais que exigem respeito e dignidade. Várias outras mulheres que não puderam se deslocar a uma das marchas estiveram envolvidas numa greve de mulheres convocada pela organização National Women’s Liberation, chamando atenção para a dupla/tripla jornada de trabalho, desigualdade salarial, e sexismo nas relações sociais.

Se Trump é um dos símbolos do 1% – um bilionário que fez fortuna abusando de seus privilégios de classe, bem como do fato de ser um homem branco cishetero dos EUA – o levante que se espalhou em mais de 600 cidades por todo o mundo das “Mulheres contra Trump” desenham que a resistência a seu nacionalismo xenófobo é a parteira de um novo movimento político com capacidade de mobilização multitudinária. As “Mulheres Contra Trump” representam um momento global de ascenso do feminismo, emprestando uma data como marco político da quarta onda do feminismo. Afinal de contas, cada um dos ataques desferidos por Trump atingem a todas nós, em todo mundo, com grande intensidade, exigindo de nós uma resposta à altura.

Mesmo envolvidas em embates sobre o desafio de unificar a diversidade das mulheres garantindo a interseccionalidade das diversas lutas – o que fez um setor abandonar a marcha por se sentir atacado pela pressão do protagonismo das mulheres não-brancas – as Marchas demonstraram que o governo Trump conviverá com muito questionamento, fundamentalmente a partir do método da mobilização. Assim foi no dia do anúncio de sua eleição – em que secundaristas saíram espontaneamente às ruas – e assim será a cada nova tentativa de atacar os direitos e os corpos das mulheres. Sem dúvida, isso aumenta ainda mais a polarização no país, já que os grupos “pró-vida” (contrários ao aborto) que apoiaram Trump. Isto desloca o centro da disputa política para as ruas, onde a pressão em torno das polêmicas propostas de Trump exerce grande intimidação sobre o Congresso eleito, ainda que com maioria republicana.

Como disse Angela Davis em seu memorável discurso na Marcha de Washington: “Nós representamos forças poderosas de mudança que estão determinadas a impedir as culturas moribundas do racismo e do hetero-patriarcado de levantar-se novamente. (…) Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo interseccional que convoca todas/os nós à resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, à misoginia e à exploração capitalista”.

Em Washington e em todo mundo, as mulheres se levantam. Apenas começamos!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017