De Santiago do Chile ao Rio de Janeiro, mudemos a história!

09/jan/2017, 08h17

“Está mi corazón en esta lucha.

Mi pueblo vencerá. Todos los pueblos

vencerán, uno a uno.

Estos dolores se exprimirán como pañuelos hasta

estrujar tantas lagrimas vertidas

en socavones del desierto, en tumbas,

en escalones del martirio humano.

Pero está cerca el tiempo victorioso

que sirva el odio para que no tiemblen

las manos del castigo

que la hora llegue a su horario en el instante puro,

y el pueblo llene las calles vacías

con sus frescas y firmes dimensiones.

Aquí está mi ternura para entonces.

La conocéis. No tengo otra bandera”

Pablo Neruda

Estamos iniciando a construção de um grande Acampamento (Inter)nacional das Juventudes em luta. Queremos aglutinar em abril, no Rio de Janeiro, aqueles e aquelas que são parte das lutas de nosso tempo. Mesmo em meio a tantos ataques do capital e seus gerenciadores, a juventude está em movimento. Por isso o Juntos! está convidando diversos coletivos, organizações e lutadores para estarem no Rio na páscoa, e mudarem conosco o rumo da história. Neste sentido, visitamos o Chile na segunda metade de dezembro, um país que há muito tempo é chave para esquerda latino americana. Reconhecido pela histórica resistência aos golpes militares na América com o governo popular de Allende, como a ponta de esperança, num momento em que no Brasil já vivíamos quase dez anos de terror e ilegalidade. E recentemente é reconhecido especialmente, pela importância histórica de seus estudantes na resistência ao neoliberalismo e seus desmontes na educação pública. Não atoa, a palavra de ordem que usamos quando as ocupações se iniciaram era “Isso aqui vai virar o Chile!”.

O país de mulheres fortes como Violeta Parra e Ana Tijoux, também vive um processo intenso de luta feminista. Assim como na Argentina, o movimento Ni Una Menos levou mais de 150 mil para as ruas de Santiago, com atos em todo o país no dia 19 de outubro, na esteira da grandiosa greve geral feminina argentina contra o feminicídio e a violência sexual contra as mulheres. Assistimos à peça “M”, impulsionada pela Juntas y a la Izquierda e interpretada por nossa companheira Maura Galvéz, “vocera” da Coordenação do Ni Una Menos no Chile. A peça é uma denúncia à violência, aos padrões de beleza, à desigualdade salarial e tantas outras opressões que vivemos, é também questionamento e memória daquelas que são apagadas da história simplesmente por serem mulheres. Convidamos as organizadoras da peça para se apresentarem no Acampamento, assim como a organização Juntas y a la Izquierda. Presenciamos também o escracho organizado pelo Ni Una Menos contra o Ministro da Economia, Luis Felipe Céspedes, que utilizou uma boneca inflável num evento com empresários para “estimular” a economia, num desrespeito absurdo contra as mulheres. Assim como derrubamos Eduardo Cunha como parte da nossa primavera feminista, as mulheres chilenas estão dispostas a derrubar o Ministro, como prova de que com as mulheres não se brinca!

Apesar de não estar vivendo grandes mobilizações como em 2006 e 2011, o movimento estudantil segue sendo um dos setores mais dinâmicos e certamente um dos mais importantes. Particularmente para nós do Juntos!, que construímos oposição nas entidades brasileiras UNE e UBES, foi muito importante beber da experiência do movimento estudantil chileno, onde novos grupos por fora da burocracia da velha esquerda stalinista estão à frente das principais entidades estudantis do país. Ficamos muito felizes em poder conversar e convidar as organizações UNE, Izquierda Autónoma e Revolución Democrática para participarem do Acampamento. Muito nos emocionou ler nas paredes da Universidade do Chile pixações que diziam que “o maior patrimônio do Chile é a luta permanente de seus estudantes”, e imaginar que aquele espaço foi parte do movimento que inspirou os estudantes do mundo inteiro a tomar em suas próprias mãos a defesa da educação pública. Esse patrimônio também é nosso.

Não há como não fazer paralelos com a realidade brasileira. Também no Chile, o regime político atravessa uma grande crise de representatividade, ainda que no Brasil esse processo já esteja ainda mais escancarado, após as delações da Lava-Jato que desnudou os corruptos e corruptores que atuam para se beneficiar do poder e do dinheiro público. Não atoa também no Chile, já apontam-se alternativas políticas por fora da velha direita herdeira da ditadura, mas também da velha esquerda – nesse caso representado pelo PC e pelo PS de Bachelet, que também tem seu governo atolado em esquemas de corrupção – seguindo a lógica de governar para uma minoria e não atacar as velhas leis de Pinochet, como a proibição do direito a greve. Esse interessante processo de construção de um terceiro campo político levou a Frente Ampla a conquistar no final de 2016 a prefeitura de Valpaírso, uma das cidades mais importantes do Chile, com o prefeito Jorge Sharp, ainda que o que mais surpreende, assim como no Brasil, são os altos níveis de abstenções no país inteiro. Nas últimas eleições, mais de 60% não foram votar.

Com a força da sua luta, os estudantes chilenos conquistaram pautar a reforma educacional como debate de toda a sociedade. Em 2018 comemoramos 100 anos da Reforma de Córdoba precisamos seguir atualizando nosso programa de enfrentamento à privatização e precarização da universidade pública, unindo movimentos estudantis latino americanos em torno dessa luta. A juventude do nosso continente possui seu ponto de contato a partir da intransigente defesa da educação pública, dos nossos direitos e por um outro futuro e nós do Juntos! queremos cada vez mais aprofundar essa unidade. Vamos tod@s ao Rio de Janeiro de 13 a 16 de abril, seguir revivendo o sonho que não morreu com a explosão do Palácio de La Moneda, mas reviveu com a ocupação da EE Diadema em São Paulo. Cambiemos la história.

 

Por Camila Souza Menezes, Diretoria Executiva de Relações Internacionais da UNE e Fabiana Amorim do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017