Feminicídio em Campinas: nossa luta é por #nemumaamenos

03/jan/2017, 13h54

Infelizmente vivemos em um tipo de sociedade que cria cotidianamente tragédias sem precedentes. Na noite de Natal, assistimos a morte do vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas, espancado por dois homens no chão de uma estação de metrô em São Paulo ao tentar impedir a agressão de uma travesti.

A cidade de Campinas também foi nessa virada de ano palco de mais uma tragédia. Minutos antes da meia- noite, durante a solta de fogos, um homem invadiu a casa de sua ex-esposa, atirando à queima roupa nela, em seu próprio filho e em quase todos os presentes na festa da família. Logo em seguida, cometeu suicídio. Foi uma chacina que vitimou 12 pessoas, 9 delas mulheres.

Na carta deixada por ele, uma descrição que revela o plano e caráter do ato: efetuar um crime premeditado, motivado pela briga judicial que travava pela guarda do filho, que estava sob custódia da mãe. As palavras escolhidas são reveladoras: “vadia” é utilizada 12 vezes para se referir à ex-esposa e demais mulheres da família, além dos termos “loucas”, “sistema feminista” e “lei vadia da penha”, referindo-se à lei criada há dez anos no Brasil e que visa a redução da taxa de homicídio e de mulheres vítimas de violência. Desde 2012, a mãe já havia procurado a Justiça e registrado inúmeros boletins de ocorrência por ameaças e agressão por parte do ex-marido, também denunciado nos últimos anos por abusar sexualmente do filho.

Esta tragédia foi antes de mais nada um feminicídio em massa. Foi cometida por ódio às mulheres. Isamara, Liliane, Alessandra, Antonia, Abadia, Ana Luiza, Larissa, Luzia e Carolina morreram justamente por serem mulheres. E a motivação de tal acontecimento transpassa uma explicação de ordem individual: o machismo as matou, assim como mata muitas mulheres todos os dias no Brasil, considerado o quinto país no ranking mundial em casos de feminicídio, segundo o Mapa de Violência de 2015.

Nós não suportamos mais ver mulheres sendo mortas pelo machismo. Exigimos que o caso seja devidamente apurado até o fim, por justiça às vítimas. Queremos que as políticas públicas se ampliem e que sejam realmente efetivas, para que casos como esses e tantos outros não aconteçam mais. A cidade de Campinas possui apenas uma Delegacia da Mulher que funciona apenas em horário comercial. Nossa Câmara de Vereadores, conhecida por escrever uma moção de repúdio contra a menção à feminista Simone de Beauvoir na prova do ENEM em 2015, é totalmente negligente com as necessidades que as mulheres possuem para encarar a realidade cruel que enfrentam todos os dias. É mais do que nunca urgente que combatamos a cultura machista da raíz e que em nossas escolas exista um espaço garantido para discutirmos as questões de gênero.

Felizmente, nossos tempos de luta e primavera feminista tem nos fortalecido cada vez mais para não nos mantermos caladas e agirmos para mudar essa situação. Assim, em consonância com o grande levante que se alastrou por diversos países da América Latina no ano passado pela vida das mulheres, estaremos nas ruas nesse próximo dia 5 de janeiro (quinta-feira), por todas as vítimas, e para dizer um basta à violência de gênero.

Chega de feminicídio. Nem uma a menos! Campinas: https://www.facebook.com/events/1786294554969272/?notif_t=plan_user_associated&notif_id=1483445390677390

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017