Quero bilhete único universitário todo dia

21/jan/2017, 15h23

Kellvin é estudante de Geografia e do DCE da PUC Rio, militante do J! RJ

Hoje, dia 20 de janeiro de 2017, fui trabalhar. Eu, estudante universitário negro, LGBT e bolsista, realizava a minha tarefa semanal de me deslocar da Vila Parque da Cidade, na Gávea, até Gardênia Azul e Curicica. Sou professor particular de Geografia e Inglês. Das aulas, recolho pouco mais de 300 reais mensais, que complementam a bolsa de iniciação cientifica. Assim, pago o aluguel, a luz e a internet. Desta forma (sobre)vivo.

Hoje, dia 20 de janeiro de 2017, não pude ir trabalhar. Me surpreendi ao tentar utilizar o meu Bilhete Único Universitário. “Dia invalido”, estava escrito, e acompanhado de uma cor vermelha um tanto constrangedora. Imediatamente, desci do ônibus, encarando a fila que me pressionava a atravessar a roleta. Também liguei para um aluno e cancelei a aula que havíamos marcado. Descobri que o atual prefeito do Rio de Janeiro cancelou o Bilhete Único Universitário para feriados, finais de semana e período de férias. Perdi parte da minha renda extra. E isso me preocupa mais do que a coerção que tenta, diariamente, me conduzir a um padrão de vida que não me contempla.

O Bilhete Único Universitário foi conquistado em 2014 como parte da luta para que educação e a cultura sejam prioridades do poder municipal, permitindo a ampliação da mobilidade da juventude às instituições de ensino e espaços de produção cultural e como auxilio a população de baixa renda. Na contra-mão disso, recentemente famílias da Zona Norte e Oeste perderam suas moradias por conta das construções do BRT e espaços para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Sempre acreditei que saúde, educação, transporte e moradia não poderiam se excluir. Agora, comigo, todas essas questões caem no mesmo buraco. Sem transporte não tenho renda extra. Sem renda extra, não tenho dinheiro para o aluguel. Sem moradia, me torno mais um desterreado e desterritorializado na metrópole. Vida de nômade que não tem onde parar por conta de uma politica publica de exclusão.

A questão trazida aqui não e incomum nas vidas do povo pobre. Os cortes nesse direito básico estão para alem da oportunidade de se deslocar pela cidade, mas de vive-la. Sem transporte publico acessível a cidade não pode ser democrática. Sem transporte publico acessível se reproduz a segregação social, na qual o poder de compra e um dos principais critérios. De todos os grupos, basta descobrir quais deles podem comprar passagens de três e oitenta.

Cortar benefícios do Bilhete Único Universitário e um retrocesso na qualidade da educação universitária, que não se limita às salas de aula. E um retrocesso na politica de participação e atuação na construção da cidade. Os estudantes que dependem desse direito para trabalhar encaram mais esse desafio para sobreviver. Mobilização e a solução, considerando que antes de as ruas serem ocupadas por ônibus, elas devem ser ocupadas por corpos. Quero Bilhete Único Universitário todo dia.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017