Xingu, um clamor que vem da floresta

18/jan/2017, 19h22

Por Tauan Satyro, militante do Juntos! RJ e membro do Fórum de Apoiadores dos Guarani e Kaiowá

É com esse samba-enredo que a Imperatriz Leopoldinense entrará na Marques de Sapucaí para defender o título do carnaval 2017 no Rio de Janeiro. No entanto, o desfile que terá como tema o Parque indígena do Xingu, tem sofrido forte repressão por parte de setores do agronegócio que se dizem ofendidos com um verso do samba que diz que “o Belo Monstro rouba a terra de seus filhos, destrói a mata e seca os rios”, uma crítica a construção da hidrelétrica de Belo Monte, e com uma ala do desfile denominada “Fazendeiros e seus agrotóxicos”, acusando a agremiação de ignorar a história do desenvolvimento e de atacar quem sustenta o país e possibilita que o carnaval aconteça.

Em uma das críticas feitas a escola de samba durante o programa “Sucesso do Campo”, exibido pela TV Goiás, afiliada da Rede Record, a apresentadora e jornalista Fabélia Oliveira após criticar os compositores do samba, fez um discurso de ódio e preconceito, defendendo que o indígena de verdade deve morrer de malária, tétano e no parto se quiser preservar sua cultura e se disse em defesa do trabalhador do campo. Já o senador Ronaldo Caiado(DEM – GO) declarou que irá propor no Senado uma CPI para investigar os patrocinadores da imperatriz e justificou seu posicionamento dizendo que “com tantos problemas no país, que sofre com traficantes, bicheiros e facções, causa perplexidade uma escola de samba atacar o agronegócio, orgulho do País, que é o único setor que gera tantos resultados positivos”. Bom salientar que a responsabilidade de 70% da comida colocada na mesa dos e das brasileiras sai da agricultura familiar e não do agronegócio desenfreado.

Vale lembrar também que Caiado que tem seu nome e o de sua família ligado a denúncias de uso de trabalho análogo ao escravo em suas fazendas, é representante da bancada ruralista no senado, também conhecida como bancada do boi, da bala e da bíblia, eleita para atender aos interesses do agronegócio e que tem atuado fortemente contra os direitos dos povos indígenas garantidos constitucionalmente. Sobre as declarações da apresentadora, é preciso chamar atenção para outro ponto. Uma crítica ao agronegócio jamais pode ser confundida com uma crítica ao trabalhador do campo, pois esse é apenas mais uma vítima do processo de expansão desse mercado, outra questão ignorada pela apresentadora é que se milhares de indígenas morreram de malária e outras doenças, não foi por isso fazer parte de sua cultura, mas pelo contato com os brancos, que invadiram e tomaram suas terras, levaram doenças e fizeram de tudo para que estes povos abrissem mão de suas crenças e de seus direitos.

O agronegócio é um mercado que movimenta cerca de 1 trilhão de reais anualmente, mas para atingir isso tem causado danos graves a saúde da população, aos trabalhadores(as) do campo e seus familiares e ao meio ambiente devido ao uso dos agrotóxicos, dos quais o Brasil é maior consumidor mundial. Além disso tem sido o grande responsável pelos ataques sofridos pelos povos originários, pelas mortes de diversas lideranças e pelo não cumprimento da Constituição Federal de 1988 que lhes garante o direito a demarcação de suas terras e preservação da cultura.

A Imperatriz Leopoldinense traz o grito daqueles que já abitavam estas terras quando os europeus por aqui chegaram, daqueles que não se curvaram e lutam até os dias de hoje por liberdade e pelo direito de viver. A Imperatriz traz o grito dos povos originários e é dever de todos e todas que se dizem revolucionários(as), anticapitalistas, na luta por um mundo mais justo e menos desigual ter o debate da questão indígena e do agronegócio em suas pautas de luta e JUNTOS! mostrarmos aos poderosos, aos senhores e senhoras do agronegócio que não aceitaremos represália a quem der voz para quem a mais de 1500 anos luta pelo direito de existir.

Salve o verde do Xingu, salve os povos originários!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017