Lugar de mulher é… na bateria de samba!

17/fev/2017, 11h56

* Franciela Carlotto e Kassiele Nascimento

A época de carnaval traz consigo reflexões. Não apenas sobre a importância da cultura popular para o nosso país, mas também sobre o papel da mulher nessa festa.

O assédio e a hipersexualização da mulher negra se acentuam por conta do imaginário racista da sociedade. Nós mulheres sofremos pelo assédio intensificado nessa época do ano: os toques no nosso corpo sem consentimento, as cantadas inconvenientes, a insistência para ficarmos com um cara que não queremos… Mas o machismo também se expressa de outras formas – como contra as mulheres que participam de baterias de escolas de samba e blocos de rua.

Tanto blocos quanto escolas tinham historicamente papéis delimitados para as mulheres: passista, rainha de bateria ou “destaque”. Já a bateria é composta majoritariamente por homens e, no máximo, por algumas poucas mulheres nos instrumentos leves. Entretanto, os tempos hoje são outros e cada vez mais mulheres estão na bateria para tocar surdo e outros instrumentos considerados pesados e “de homens”.

Pelo fato de as escolas de samba serem construídas, em sua maioria, através de trabalhos dentro das comunidades, a entrada de mulheres na bateria tem ainda mais importância. Significa o aumento da autonomia de jovens da periferia que têm muito menos acesso à espaços de cultura e de protagonismo feminino. Ter mulheres nessas baterias significa o fortalecimento do feminismo real para as 99%: a ideia de que as mulheres, principalmente as da periferia, também podem tocar! Trabalhadoras, desempregadas, negras, mães, lésbicas, trans, podem ser rainhas da quadra, destaque no bloco e também brilhar na bateria.

Empoderadas, cada vez mais mulheres se atrevem a cruzar a linha dos espaços que são delimitados pela sociedade patriarcal. Elas provam que podemos ser igualmente boas como qualquer homem, e até melhores. Que sigamos lutando e ocupando todos os espaços possíveis em todas as instâncias da sociedade. As mulheres serão linha de frente!

 

Franciela é estudante da UFRGS, militante da Juntas! e membro da Bateria Indignada de PoA, 

Kassiele é estudante da UFRGS, militante do Juntos! Negras e Negros e membro da Bateria Indignada de PoA

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