A IMPORTÂNCIA DO #8M – para além da luta das mulheres

13/mar/2017, 14h06

*Por Nathalie Drumond e Giulia Tadini

Semana passada foi anunciada a maior recessão da história do Brasil. Segundo dados do IBGE o PIB decaiu 7,2% em dois anos. O país segue com uma população de mais de 12 milhões de desempregados – se considerados aqueles e aquelas que ainda procuram emprego. Se somarmos a parcela da população que já desistiu de procurar alguma ocupação, o abismo é ainda maior. Um terço dos jovens em idade ativa estão desempregados. Para piorar, a OIT anunciou que em 2017 o desemprego deve ser ainda maior.

Dados da PNAD Contínua, do quarto trimestre de 2016, comprovaram que o desemprego atinge mais as mulheres, os mais jovens e a população negra. Do ponto de vista das mulheres, existem estudos que conceitualizam a feminalizaçao da pobreza, mostrando como o aumento da pobreza geral penaliza ainda mais as mulheres chefes de família.

Esse é um dos motivos do porque o movimento de mulheres estar vivendo uma nova onda feminista no contexto de crise econômica internacional. Estamos nos piores postos de trabalho, mais precarizados, mais instáveis. Angela Davis, Nancy Fraser, e outras intelectuais ativistas corretamente forjaram a ideia do “feminismo dos 99%”. Por isso, a luta contra a Reforma da Previdência é uma das principais pautas do movimento de mulheres.

Os índices econômicos foram tão catastróficos no último ano que o governo federal tem se esforçado para divulgar uma possível recuperação no ano de 2017. No entanto, a instabilidade política é tão grande que toda propaganda governamental não tem sido suficiente para recuperar alguma popularidade de Temer. Há uma contradição, um governo ilegítimo (e misógino), sem voto, que possui uma maioria parlamentar no Congresso, mas sem apoio popular. Os principais partidos da ordem precisam demonstrar apoio a Temer para que se aprove as Reformas Trabalhista e da Previdência, no entanto, podem se afundar com Temer diante da crise política, das delações da Odebrecht e da Lava-Jato – para isso precisam se diferenciar. E o impasse em Brasília se aprofunda.

Diante deste contexto, de crescente crise social, porque temos dificuldade de organizar e de dar sentido comum à indignação?

A LUTA DAS MULHERES: ORGANIZANDO A INDIGNAÇÃO

Há todo um contexto de imprevisibilidade e imponderabilidade no cenário nacional. Porém, por enquanto, podemos afirmar sem sombra de dúvidas que a insatisfação popular tem aumentado.

Neste sentido, um dos maiores desafios para aqueles que propõe uma alternativa de esquerda, que não cometa os mesmos erros e concessões dos governos anteriores, é buscar sair da passividade ou da inércia diante de contexto tão escandaloso.

Para além da monumental importância do 8M diante da afirmação da luta das mulheres por mais direitos, a data cumpriu outro papel decisivo: dar sentido comum no mundo à luta contra os governos anti-populares, como o de Macri, Temer e Trump.

Por isso, o #8M pode representar um início de movimento convergente no movimento social. Frente há tantos ataques, o que ocorreu no Brasil ontem representa um exemplo de como combater a dispersão. Tanto no Brasil, como no mundo, houve um forte sentimento de oposição aos governos.

No Brasil, o movimento feminista demonstrou que a primavera feminista não morreu. Foram 15 mil no Rio de Janeiro, 5 mil em Brasília, 30 mil em SP, 3 mil em Belém. Em Porto Alegre, ocorrem dois grandes atos, um pela manhã organizado pela Via Campesina, e outro no final da tarde, construído de forma unificada, que reuniu cerca de 5 mil pessoas. Também ocorreram diversos outros atos fortes, nas capitais e em cidades do interior. Além disso, a categoria dos professores conseguiu organizar assembleias nas principais capitais. Reforçando a data e a luta contra a Reforma da Previdência. O Juntas! preparou um Medium sobre os atos, confira: https://medium.com/@juntas/8m-bd4caee9e018#.e20kkeuy0

Em âmbito internacional, a América Latina teve atos de escala multitudinária. Mais de 40 países aderiram ao chamado da greve internacional das mulheres. E os Estados Unidos seguem tendo um papel fundamental no movimento feminista mundial, após 21 de janeiro, quando as mulheres lotaram contra a posse de Trump.

O #8M foi suficiente? Não, mas pode significar uma mudança de rumos neste mês de março. Neste sentido, o próximo dia 15 (dia nacional de paralisação contra a Reforma da Previdência) será muito importante. É fundamental que as mulheres que foram para as ruas no dia 8, permaneçam nelas, e engrossem as fileiras dos atos e paralisações no dia 15. Essa luta é de todas e todos nós!

NOSSA LUTA É INTERNACIONAL

Fazemos parte daquelas que acreditam na necessidade do chamado “Feminismo dos 99%”. Isso significa que construímos um tipo de feminismo que conecta a luta das mulheres aos processos de luta anticapitalista, com inspiração na consigna dos 99% contra o 1%, que concentra a riqueza global. É um feminismo que entende a necessidade de união entre os movimentos sociais, na luta pelo fim das desigualdades, e que combina as preocupações econômicas com o aspecto cultural da diversidade daqueles que propriamente compõe os 99% – mulheres trabalhadoras, negras, trans, imigrantes, refugiadas, desempregadas, etc. – combinando o problema do machismo ao do racismo, homofobia, transfobia, xenofobia.

Buscando contribuir com esta necessidade de dar sentido comum às lutas, contribuindo para a construção de uma alternativa de esquerda verdadeiramente capaz de polarizar o cenário nacional – sem ilusões com a casta política e em verdadeira oposição à sua agenda -, que o Juntas e o Juntos estão construindo o Acampamento (Inter)Nacional das Juventudes. O evento vai ocorrer no Rio de Janeiro durante a Páscoa (de 13 a 16 de abril de 2017). Convidamos todo o mundo para esse encontro: vamos dar o primeiro passo na construção de uma alternativa a Trump e Temer na qual a juventude, as mulheres, a negritude, as LGBTs e o povo trabalhador sejam protagonistas. Este Acampamento, no coração da Primavera Carioca, será para reafirmar a esperança e aquilo que a campanha de Bernie Sanders denominou como “Nossa Revolução!”.

SAIBA MAIS em: https://acampamento.juntos.org.br/