Mulheres na linha de frente da resistência: lições das ativistas curdas

03/mar/2017, 16h32

*Cindy Ishida é militante do Juntos! BH

 

Como a Palestina o Curdistão é um não-país, um povo com seus costumes e suas tradições, mas sem território. Localizado entre as fronteiras do se chama hoje de Síria, Turquia, Irã e Iraque, o povo curdo luta há décadas pelo direito de existir e de manter seus modos de vida no centro da guerra imperialista que assola o Oriente Médio na busca ávida pelo controle dos maiores poços de petróleo do mundo. A situação nos últimos anos tem se agravado pela presença do ISIS (também conhecido como Estado Islâmico), vertente extremista do islamismo, que ameaça a liberdade religiosa e os direitos da população feminina. No Curdistão não há apenas povo curdo, mas há também armênios, árabes e outros, além do mais há pessoas de diferentes matrizes religiosas como povos muçulmanos, cristãos e judeus.

Na situação de violência extrema, com seus maridos e familiares na guerra e seus filhos também, as mulheres curdas são linha de frente na defesa de seu povo e na luta por independência. A organização feminina é histórica na região e as imagens de mulheres armadas de granadas e fuzis impressionaram recentemente a mídia tradicional, mas são comuns ali há algum tempo. Desde 1994 as curdas tem representações parlamentares, com a eleição de Leyla Zana na Turquia. No movimento social a Organização Patriótica de Mulheres debate um programa comum de luta para a região desde meados de 2000, ganhando solidez em 2003 com a criação do Movimento Democrático das Mulheres Livres (DOKH). “Tínhamos três prefeitas em 1999, em seguida, em 2012, tivemos 14 prefeitas, mas agora desde 2014, temos prefeituras codirigidas em todo o Curdistão, ou seja, 105 prefeitas. Nós tivemos o mesmo sucesso no parlamento, em 2007, tínhamos 8 mulheres parlamentares, mas chegamos a 2015 com 40% das candidaturas eleitas pelo HDP (Partido Democrático dos Povos) são mulheres, assim temos 23 mulheres no nosso partido como parlamentares” segundo Ayla Akat, parlamentar na Turquia e da coordenação da KJA.

Além da atuação parlamentar há centenas de associações civis, mulheres de solidariedade, cooperativas econômicas, entre outras. Em cada bairro, distrito das províncias e territórios há uma coordenação. O KJA (Organização do Movimento de Libertação Curdo), que existe desde 2015 conta com 120 mulheres, um conselho executivo que consiste 46 pessoas, uma coordenação que tem 11 pessoas e uma porta-voz que muda a cada 6 meses. Foi fundado por entender que é necessária ampla defesa dos direitos dos povos no Oriente Médio que extrapole o movimento de resistência curdo e se esforça para forjar uma atuação comum, atuando na mídia ativista através da Jinha, agência de notícias das mulheres. Há esforço de atuação com os ativistas homens com espaços de discussão comuns, há intensa luta contra a poligamia que em alguns desses Estados é legalizada para os homens, na Turquia as mulheres são mal vistas se saírem sozinhas e são impedidas até mesmo de dirigir automóveis. A família, o trabalho a estrutura do Estado são tomadas pelos homens, como ocorre em boa parte do mundo, mas de forma aguda no Oriente Médio.

Na Síria e no Iraque a guerra intensifica a violência contra as mulheres que são estupradas, capturadas, sequestradas e vendidas e muitas vezes terminam mortas em ações do ISIS. Em Kobane e Rojava (território Sírio) as mulheres são muito organizadas e conscientes de que a sua luta é imprescindível para derrotar o extremismo e garantir direitos básicos para o seu povo. Em todo o Curdistão as mulheres não são vítimas, mas agentes atuantes da transformação e linha de frente armada da guerra.

A luta pela sobrevivência que essas mulheres travam é a luta contra o patriarcado que unifica as mulheres de todo mundo. A organização das mulheres, impulsionada pelo avanço da consciência do conjunto do povo em luta no Oriente Médio avança na medida que se organiza a resistência contra o imperialismo e o extremismo religioso. É fundamental para uma libertação no Oriente Médio que haja debate sobre, não qual religião será a oficial de um novo Estado, mas que haja garantia de liberdade para crer e liberdade individuais para as mulheres e todos os povos e tradições que ali coexistem. A auto-organização é aliada da revolução social. É necessário que se fortaleça a denúncia do desrespeito aos Direitos Humanos, prisão de curdos e jornalistas que documentam o conflito e pela retomada de negociações de paz.

As mulheres em luta no Oriente Médio terão representação no Acampamento Internacional das Juventudes em Luta (no feriado de Páscoa) com o nome de Melike Yasar (Curdistão Livre). Na quinta-feira (13 de abril) ela estará conosco a convite da juventude do Juntos! para compartilhar sua experiência de organização no Galpão Ação Cidadania, ás 22h.

Assim como a greve de mulheres foi o estopim da Revolução Russa (que esse ano completa 100 anos), a resistência curda inspira e exemplifica como a luta das mulheres muda o mundo! Já chega a 40 países os que convocam a Greve Internacional de Mulheres nesse 8 de Março, contra todos os Governos que atacam o povo trabalhador marcharemos até que todas sejamos livres! Nem uma a menos!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017