Nem uma a menos: Dandara presente!

06/mar/2017, 15h24

*Lucci Laporta é transfeminista e atua no Juntas! DF.

Cercada por homens, alguns ainda meninos. Alvo de pedradas, golpe com tábua de madeira, chineladas, muitos chutes. A travesti Dandara, de 42 anos, foi torturada até a morte em Fortaleza – CE. O crime foi gravado e o vídeo, exposto na internet. Trata-se de mais um caso de feminicídio motivado por transfobia no Brasil, país que mais mata travestis e mulheres trans em todo o mundo.

Esse brutal assassinato é como uma gota num oceano de sangue pouquíssimo conhecido, pois apesar dos esforços de organizações não governamentais, ainda é impossível ter uma ideia aproximada de quantos assassinatos a travestis e mulheres trans ocorrem no Brasil. Nós nos tratamos de uma população que majoritariamente vive em níveis precários de subsistência, na marginalidade imposta por uma sociedade que não nos quer por perto e, por isso, nossas mortes e as violências pelas quais passamos nem sempre são notificadas. Quando o são, integram as estatísticas de violência homofóbica (específica para homens gays), não nos mapas de violência contra a mulher, o que configura mais uma violência contra nossas identidades de gênero.

Dandara permanecerá viva em nossa luta!

A primeira atitude das que sentem na pele o peso da transfobia e dos que se solidarizam conosco é exigir a punição dos criminosos. Certo, que eles enfrentem a justiça, aquela que não existe para nós. A mesma que prende muitos, mas protege pouquíssimos. Que não nos iludamos com ela, no entanto.

A mudança na legislação penal, por si só, não tirará o Brasil da lista de países mais transfóbicos do mundo. Não deve ser encarada como único ou principal caminho. A vitória contra a transfobia virá de nossa luta ou não virá. É papel dos movimentos LGBT e feminista coletivizar nossas pautas específicas, adotando um programa que de fato seja capaz de mudar a realidade de milhares de mulheres. Mulheres impedidas de acessar seus direitos sociais, o mercado formal de trabalho, documentos que respeitem suas reais identidades e até mesmo o banheiro. Mulheres impedidas, inclusive, de construir suas famílias e seus afetos.

Do papel do transfeminismo no 8 de Março

O dia das mulheres se aproxima e promete mobilizações importantes de feministas em vários países. Além da luta contra a Reforma da Previdência, pelo “Fora Temer!”, pela descriminalização do aborto e demais pautas gerais do feminismo, devemos buscar a solidariedade de todas as outras mulheres trabalhadoras para que seja uma luta de todas:

1) a regulamentação da prostituição de forma a defender os direitos e a integridade das trabalhadoras do sexo, possibilitando-lhes superar a dependência de cafetinas e cafetões; auto-organizar-se como categoria profissional e; constituir suas próprias formas de organização do trabalho para atuar na profissão, como em cooperativas, por exemplo.

2) a despatologização das identidades trans e travesti, abrindo um necessário debate no âmbito das políticas públicas de Saúde para que o direito à cirurgia de redesignação sexual não dependa do arbitrário “protocolo transexualizador”, imposto pela medicina. Além disso, que a demanda por cirurgias seja de fato absorvida pelo SUS. Por ambulatórios trans para acesso à transição hormonal segura e atendimento psiquiátrico e psicológico. Por mais investimento na saúde pública e contra a privatização!

3) Contra os projetos que visam vetar nas escolas as discussões de gênero e suas correlatas (como de orientação sexual e identidade de gênero). Por uma escola livre, sem machismo e LGBTfobia.

4) Que a lei do feminicídio valha para todas as mulheres: cis e trans/travestis! A luta contra o feminicídio deve ser de todas e para todas!

5) Aprovação da Lei de Identidade de Gênero, para que o respeito a nossas identidades não dependa da decisão de um juiz.

6) Implementação de cotas para pessoas trans e travestis em concursos públicos e universidades!

Que das lágrimas e da indignação surja também a solidariedade, para que forjemos uma luta unitária por todas as mulheres e por nenhuma a menos. Vamos juntas!