Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: construir uma alternativa dos 99%.

14/abr/2017, 12h04

 Acampamento Internacional das Juventudes em Luta abre os trabalhos e emociona convidados do mundo todo, reunidos no Rio de Janeiro.


“Vocês são os líderes que nós precisamos!”

Foi uma noite daquelas para não esquecer. Lideranças de importantes movimentos de esquerda – como o The People For Bernie Sanders e o Black Lives Matter, ambos dos Estados Unidos – conheceram a juventude indignada do Juntos! e de tantos outros movimentos de luta da esquerda brasileira. A abertura do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta reuniu, na noite de quinta-feira, centenas de jovens no Galpão da Ação da Cidadania, no bairro da Saúde, na Zona Portuária do Rio. Mais de 1.800 jovens (de 17 países e 21 estados) estão inscritos no evento, que vai até o domingo.

A primeira mesa, chamada ‘Nem Trump, Nem Temer’, fez um amplo e profundo diagnóstico da conjuntura que move e comove as batalhas de ideias e ações no mundo todo. A opressão que Donald Trump promove no Oriente Médio, o desmanche que Temer e sua trupe realizam nos direitos dos brasileiros, a necessidade da construção da Greve Geral de 28 de abril, a luta das mulheres contra o machismo, a luta dos negros e negras contra o racismo, a luta dos LGBTs contra todas as opressões foram alguns dos principais temas da noite.

O primeiro anfitrião a dar as boas-vindas para os jovens foi o vereador do Rio, militante do Juntos!, David Miranda. Ele, jovem de 31 anos, muito emocionado, lembrou da fundação do Juntos! em 2011 e contou como chegou até a organização em 2013, na luta pela internet livre e pelo asilo de Edward Snowden. O vereador fez a distinção daqueles que fazem política com ódio, daqueles que fazem política com o coração e por justiça social – certamente, o caso do Juntos!

A segunda a falar foi Mari Gashaw, do Black Lives Matter – na tradução para o português, “Vidas Negras Importam”. A americana emocionou a galera ao dizer que estava muito excitada de perceber as similaridades entre os povos negros do Brasil e dos Estados Unidos. Ao fim da fala, pediu a ajuda da tradutora para puxar um grito entalado na garganta de tantos negras e negros brasileiros.

“Vidas Negras importam! Vidas Negras Importam!”

A partir daí, a mesa abriu espaço para saudações de outros grupos de juventude, mostrando que, mesmo com diferenças, é importante que a unidade se faça na luta.

O representante do MAIS, reforçando a luta dos negros e negras, disse que não se admitirá mais a morte de seus irmãos.

A juventude do Pará, representados através de Sara Arcanjela, também presente e engrandeceu o crescimento da organização da negritude e do seu protagonismo na luta contra o sistema.

Marcelo Oliveira, da CAARJ, a Casa do Advogado do Rio de Janeiro – um dos colaboradores da estrutura do acampamento, saldou o esforço de construir a iniciativa e criticou a posição da OAB em seu posicionamento sobre o golpe.

Do PSTU, a mensagem que chegou mais forte ao público foi que a esquerda deve evitar os caminhos mais fáceis. Refutou a ideia de Lula em 2018 e apoiou a greve geral do próximo dia 28.

Já a juventude do RUA lembrou de lutas recentes, que reforçaram a unidade da esquerda brasileira, como no caso da PEC 55, a Primavera Feminista, a redução da maioridade penal. Pediu para que todos lutemos para barrar as reformas trabalhista e previdenciária.

O Acampamento recebeu a presidente da UNE, Carina Vitral, que agradeceu o convite e convocou todos para “juntos e juntas” construírem a greve geral.

A UJS também teve seu espaço de saudação e comemorou a recente vitória da esquerda unida no diretório central dos estudantes da UNB, dirigido pela direita ha 5 anos, em Brasília.

O Partido Pátria Livre ressaltou que o Juntos! sempre esteve engajado na luta contra o governo ilegítimo de Michel Temer.

O último a fazer a saudação dos grupos de juventude foi Lafaete Pankararu, da Comissão de Articulação da Juventude Indígena. Ele se mostrou muito feliz de estar aqui e convidou a todos para o Acampamento Terra Livre, que vai acontecer neste mês em Brasília.

A cada fala, a galera do barulho, batia os tambores, fazia suas rimas e mandava sua mensagem!

“Quem são vocês? Somos o Juntos! Mais uma vez! Somos Juntos! Sooooou, eu sou do Juntos eu sou, na rua eu vou lutar, democracia real já!”

O debate retornou à mesa, que foi conduzida por Carol Villar, do Juntos do Pará. Três dias de ônibus depois, ela ainda teve muita energia para saudar colegas do Juntos! de todos os estados! Festa na torcida! Ela falou com orgulho que o Juntos! está enegrecendo. “Orgulho de ver tanta preta e tanto preto. Nós somos os 99% contra o 1% desta casta”. Sublinhou que foi esta luta que, aqui no Rio, prendeu Cabral e afunda Pezão na lama até o pescoço.

Depois chegou a vez de uma das falas mais esperadas da noite, Winnie Wong, do The People for Bernie Sanders, um movimento que quase conseguiu levar um socialista para a corrida presidencial americana no ano passado. Wong disse que vinha mais para saber como conectar as lutas do que ensinar qualquer coisa. No fim da fala, se disse envergonhada por ser americana porque, bem nesta quinta-feira, os Estados Unidos jogaram a maior bomba não-nuclear do mundo sobre o Afeganistão. “Jogamos uma bomba que custou U$300 milhões, que poderia servir para alimentar milhões de sem-teto em todo o mundo”.

Ana Cláudia Borguin, do Juntos! de São Paulo, veio representando também o Sindicato dos Metroviários de SP. Para ela, “mais do que vir falar sobre a classe trabalhadora, o movimento sindical tem é que aprender com os movimentos de rua dos últimos anos”. Lembrou da força do movimento secundarista e também da luta das mulheres no dia 8 de março, que conectou o feminismo às lutas estruturais, especialmente contra a Reforma da Previdência. Segundo ela, a luta do 8 de março influenciou decisivamente a força da manifestação do dia 15 de março, que paralisou os transportes da maior cidade do país com amplo apoio popular.

Serge Goulart, da Esquerda Marxista, grupo que recentemente ingressou no PSOL, foi o penúltimo a falar. Experiente ativista da esquerda brasileira, fez uma radiografia das lutas contra o sistema capitalista nos últimos anos, seja na Espanha, na Grécia, na Grã-Bretanha e mesmo nos Estados Unidos, com o movimento Occupy, que, segundo ele, foi responsável por abrir caminho para o crescimento de Bernie Sanders nos EUA. Goulart foi aplaudido por Winnie Wong quando lamentou que Sanders se mantenha no “maior partido imperialista do mundo”, o Partido Democrata americano. Para ele, Bernie deveria era liderar um partido socialista americano.

A última foi Luciana Genro, dirigente nacional do PSOL, candidata à presidência da República em 2014. Ela fez um profundo diagnóstico do caos político brasileiro. Lembrou que o PMDB foi o partido que deu sustentáculo a essa Nova República que “de nova só tem o nome”. Como vem fazendo ultimamente, comemorou os avanços da Lava Jato que “vem desnudando essa podridão”. Segundo ela, “a construção de uma esquerda coerente passa pela derrota do Lulismo” e “a greve geral é uma oportunidade imensa para unificarmos a força em torno da luta contra corrupção”. Por fim, utilizou a mesmíssima frase que Winnie Wong e disse que os jovens, sentados até tarde da noite à frente dela, “são os líderes que nós precisamos”.

Saímos todos convencidos disso mesmo: somos os líderes que nós precisamos para nós mesmos!