Evento feminista emociona Acampamento e aplaude feminismo dos 99%

16/abr/2017, 00h29

”Sou mulher independente, não aceito opressão, abaixa sua voz, abaixa sua mão…”

A música ‘100% feminista’ de Karol Conká e Mc Carol antecedeu uma das atividades mais importantes e representativas do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta, ´Mulheres revolucionando a Política’. Na mesa, oito mulheres, ainda que diferentes, com muito em comum: a luta incansável pela equidade de gênero. A atividade foi idealizada pelo coletivo nacional do Juntas!. O grupo é interseccional, abraça a luta de todas as mulheres em sua diversidade – e aí inclui as mulheres transexuais, que fique claro. O evento durou três inspiradoras horas e contou com as anfitriãs Giulia Tadini e Ana Laura. As convidadas foram as vereadoras do PSOL e do Juntos!, Sâmia Bonfim (São Paulo) e Fernanda Melchiona (Porto Alegre), Natali Frizarin, jovem secundarista negra e mãe, Bárbara Aires, assessora parlamentar e transativista, Zena, dirigente do Juntos! e do Juntas!, e ainda a nadadora olímpica Joanna Maranhão, orgulho do esporte brasileiro.

O primeiro destaque deste relato dedica-se a Bárbara Aires, mulher trans, pois foi dela, sem dúvida, a fala mais aplaudida do dia. Estudante de jornalismo e assessora parlamentar do mandato coletivo de David Miranda, ela trouxe reflexões perturbadoras sobre a questão trans. Bárbara foi aplaudida de pé pelo público. A luta das mulheres trans, homens transexuais e das travestis ainda é pouco compreendida pelo cidadão ‘comum’ e, consequentemente, essas pessoas ainda sofrem muito. Chegam até a ter sua humanidade negada. Não à toa, o Brasil lidera o índice de mortalidade de travestis e transexuais. Mais de 40 travestis e transexuais foram assassinados(as) só este ano. Bárbara contou sobre sua dura vida.

“Eu fui estuprada quando criança. Eu apanhava todos os dias do meu pai por ser afeminada, afeminado, por ser feminina. Eu ouvia todos os dias ‘vira homem, senta como homem’.

Ela, assim como tantos transgêneros, esteve fora do mercado formal de trabalho. Por muito tempo, foi profissional do sexo. Estima-se que quase 90% das transexuais estejam na prostituição. Estima-se que 80% das pessoas transgêneras evadem da escola. O motivo já se sabe qual: a falta da discussão sobre gênero nas escolas, o que sequencia o preconceito, a exclusão e a evasão escolar. A partir daí nasce uma outra problemática: por falta de opção, essa população ingressa na prostituição.

‘’Prostituição deve ser escolha e não falta de alternativa” enfatizou Bárbara.

Ela celebrou estar num espaço destinado ao debate de mulheres. Na maioria das vezes, ela é chamada para debater a questão LGBT. Ela deixou claro que transexuais podem falar muito além da LGBTfobia. Com lágrimas nos olhos (dela e de muitos que assistiam) Bárbara encerrou sua fala levantando uma importante questão: até que ponto não somos  transfóbicos?

“Onde está a transfobia de vocês? Até onde vaio limite de vocês com a pessoa trans?”.

As parlamentares, Sâmia e Fernanda, tambémdirigentes do movimento Juntas, pautaram a importância da organização e união entre as mulheres. Ambas são referências em suas cidades. Fernanda, entre todos os candidatos e candidatas de Porto Alegre, foi a mais votada no ano passado. Suas vitórias nas urnas evidenciaram que é tempo de quem sempre ocupou a base da pirâmide ocupar também a política institucional, afinal, se as mulheres não falarem por elas, quem falará? Apesar do parlamento não ser um lugar de convivência agradável, devido seu machismo e conservadorismo, é extremamente importante a presença de mulheres.

“Enquanto bilhões são saqueados, enquanto bilhões vão para o bolso dos corruptos, somente 15 centavos por mulher são investidos no combate à violência contra a mulher”.

Tanta fortaleza desmoronou-se por alguns instantes. As lágrimas também sentaram à mesa. A felicidade, a emoção, a utopia também fazem chorar. Zena se emocionou ao ressaltar a necessidade de cada vez mais nós, mulheres, ocuparmos as instituições, sobretudo, de poder e política.

A questão de classe também foi muito debatida. As mulheres trabalhadoras são as que mais serão afetadas pelas políticas retrógradas de Temer, como as reformas da Previdência e a Trabalhista que comprometerão a aposentadoria, o bem-estar e a vida das mulheres, principalmente as mais pobres e claro, as negras das favelas e subúrbios das cidades. A primavera feminista derrubou Cunha, e as mulheres que em muitas revoluções estiveram na linha de frente, também derrubarão Temer nos Brasil e Trump nos Estados Unidos. A greve geral brasileiro do dia 28 de abril será feminista. A revolução será feminista.

A nadadora e recém filiada ao PSOL Joanna Maranhão foi comedida em sua fala, reconhecendo seus privilégios enquanto uma mulher de classe média que teve mais facilidade para ascender socialmente e realizar o sonho de ser atleta. A nadadora disse que tem muito o que aprender com as mulheres que estavam à mesa e as que constroem movimentos feministas. Joanna pediu desculpas pelos erros cometidos até começar suas reflexões feministas. Foi acolhida por outras mulheres, que lembraram da importância de sua luta. Ela tem usado sua visibilidade para dar notoriedade ao debate feminista. Joanna parece não ter se dado conta do seu tamanho. Joanna é grande e foi homenageada pelo Mandato Coletivo David Miranda (vereador LGBT da cidade do Rio), recebendo a medalha Chiquinha Gonzaga – medalha conferida à personalidades femininas que reconhecidamente tenham se destacado em prol das causas democráticas, humanitárias, artísticas e culturais.

Esta parte da programação também contou com saudações de mulheres revolucionárias de todo o mundo. Subiram ao palco para prestigiar a mesa mulheres do Chile, Estados Unidos, Argentina, Peru, Brasil, Venezuela, entre outros.

”Se cuida, seu cuida, seu machista: América Latina vai ser toda feminista”

Ella Mahony, da revista Jacobin

Evelyn Gandhi, do Nuevo Perú

Shana Langley, do Black Lives Matter

O eixo principal do encerramento foi a fala sobre ‘ a nova onda do feminismo’, que refere-se a uma nova batalha que as mulheres têm que enfrentar: a luta dos 99% contra o 1% que carregamos nas costas. Falar sobre uma ‘nova onda’ é falar sobre uma nova construção do movimento feminista. É falar sobre a necessidade da derrocada do capitalismo e da classe dominante. É hora de reformular e dar um tom classista também à luta feminista.