Manifesto é lançado para lembrar o óbvio: VIDAS NEGRAS IMPORTAM!

14/abr/2017, 23h36

”Preta você sabe com é, a gente não vem a passeio.”

Foi com esta frase que uma das mais esperadas programações do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta começou. A atividade foi apresentada por Winnie Bueno, do canal ‘Preta Expressa’, militante do Juntos, do PSOL e mestranda em Direito pela Unisinos (Rio Grande do Sul) e contou com a participação de outras notáveis mulheres de áreas pouco ocupadas por negros e negras. Stephanie Ribeiro, arquiteta, urbanista e ativista digital. Joice Berth também arquiteta, e Marielle Franco, mulher negra, favelada, diretamente da Maré para a Câmara Municipal do Rio, sendo a vereadora mais votada da cidade.

O ‘Saia Justa Preta’, como Winnie se referiu à atividade, antecedeu um dos mais importantes momentos do acampamento: o lançamento do manifesto ”Vidas Negras Importam” contou com a leitura do texto e com a intervenção da juventude negra brasileira, além do movimento ”Black Lives Matter” que vem somando muito durante o acampamento. Infelizmente, o grupo americano encontra muitas semelhanças com o Brasil, sobretudo no sentido do genocídio que a juventude negra vem sofrendo. ‘Genocídio’ é uma palavra que a militância repete diversas vezes em diversos espaços, mas repetiremos incansavelmente enquanto nós, negros, continuarmos sendo inimigos do Estado, mesmo sem qualquer motivo. Enquanto nós, negros, formos vítimas de balas perdidas – ou não tão perdidas assim, já que sempre nos encontram nas favelas – repetiremos, incansavelmente: trata-se de um genocídio quando jovens negros são assassinados a cada 23 minutos no país.

“Essa coisa do vitimismo é muito interessante, porque pessoal fala como se tivesse ofendendo a gente. É vitimismo mesmo! A gente tá vítima numa sociedade que foi planejada pra excluir a gente” disse Joice Berth.

A troca foi muito rica. As convidadas trouxeram suas vivências, realidades e perspectivas. É evidente a interseccionalidade entre o machismo e racismo. Foi um grande privilégio para o público poder ouvir duas arquitetas negras, que pautaram a questão da segregação nas cidades e os papéis subalternos ocupados por negros, sobretudo negras. O papel de mãe, mulher forte, provedora, objeto o tempo todo destinado às mulheres negras tem que ser constantemente questionado porque é uma herança escravocrata. Arquitetas negras debatendo com uma mestranda em Direito e uma vereadora: momento que precisa ser repetido. Ver o pobre, o preto morto não pode mais ser cultural.

A vivência de uma mulher preta na academia também foi trazida à tona e mais uma vez uma semelhança entre as convidadas: a solidão. Sentir-se sozinha na Universidade é mais comum que se imagina, afinal, aquele lugar não foi construído, pensado e estruturado para que pretos estudassem. A diferença social, econômica e racial é, drasticamente, contundente nesse sentido.

Foi unânime o entendimento sobre o racismo. Ele, definitivamente, não é um problema dos negros, é um problema branco, afinal, quem colonizou e não criou políticas efetivas de reconstrução de uma história de igualdade foi o homem branco. O genocídio é real e ele não está apenas em mortes físicas, mas também na morte da memória e história. O acampamento, que está sendo sediado no Galpão Ação da Cidadania, uma construção arquitetônica histórica e deslumbrante , obra de um engenheiro negro, André Rebouças. Contudo, poucos sabiam deste fato. Somos apagados, invisibilizados, marginalizados, encarcerados e mortos. Assimilar que tudo isso acontece com pessoas iguais a você adoece psicologicamente.

Para Winnie Bueno, a esquerda foi reconhecida enquanto uma ferramenta de luta antirracista. A esquerda também precisa insistir na luta antirracista.

O momento de troca seguiu com perguntas que giraram em torno de pautas diárias, que inflamam os debates de negritude. Muita euforia e pupilas que brilhavam ao verem mulheres negras e fortes. O jovem negro precisa de referência.

Por fim, o lançamento do manifesto emocionou imensamente todos que ouviam. Dores! repleto de dores que serão, certamente, transformadas em potência.

“Nas e nas favelas

A negritude é que morre

Eu quero uma alternativa

Vidas negras importam!”

Outro momento muito tocante foi quando as ativistas do movimento americano Black Lives Matter subiram ao palco. Elas tiveram dificuldade de conter a emoção ao perceber que os povos negros norte-americanos e brasileiros estão conectados na mesma luta por suas vidas. No final, chegaram a chamar todo público de sua grande família negra brasileira.

Uma grande irmã negra, Mariane Duarte, finalizou a cerimônia com um poema muito tocante sobre o não conhecimento da paz.

“Paz é pra gente rica”

Como foi colocado por Stephanie, quando a juventude sair daqui, sairá diferente de como chegou. O debate foi esplêndido. Que as mulheres negras continuem ascendendo socialmente, quando um de nós avançamos, todos nós avançamos e pra dizer que as vidas negras importam. Black Lives Matter!