Mulheres Ocupando o Cinema: Entrevista com Fabiana Amorim (Mulher do Pai)

03/jul/2017, 14h16

Há poucos dias foi lançado nos cinemas brasileiros o filme “Mulher do Pai”, dirigido por Cristiane Oliveira e protagonizado por Maria Galant (Nalu). Com diversas indicações e prêmios a obra mostra que o lugar da mulher é no cinema, nas artes, nas ruas. Por isso, fizemos essa entrevista com Fabiana Amorim, que interpretou a personagem Elisa em “Mulher do Pai” e que constrói a Juntas no Rio de Janeiro:

J! – O filme foi gravado no interior do Rio Grande do Sul, como é a situação das mulheres nessa vila?

F.A.: O filme foi gravado numa vila perto da fronteira com o Uruguai, onde não tem nem trezentos habitantes e onde os homens trabalham, em sua maioria, como peões nas chácaras ali nos arredores. Já as mulheres vivem mais dentro de casa, a grande maioria teve o primeiro trabalho remunerado no filme. Todas elas trabalhavam dentro de casa, isso demonstra também que tendem a ficar em sua maioria ficam muito mais restritas aos afazeres do lar e pouco a própria circulação dentro da vila. Eu lembro que nós fomos as primeiras mulheres a beber no bar da vila, que é onde pisam apenas homens e acho que foi bastante simbólico que as mulheres do filme pela primeira vez ocuparam esse espaço.

Maria Galant (protagonista), Cristiane Oliveira (diretora) e Fabiana Amorim (coadjuvante)

J! – Como foi pra você como feminista estar retratando essa realidade?

F.A.: Foi um desafio muito grande retratar essa realidade porque a gente que vive em grandes centro urbanos está acostumado com outro ritmo de vida. Essas mulheres e meninas que vivem numa vila tão isolada, tão distante, elas estão acostumadas um mundo de opções muito menores. As opções de profissão pra essas meninas que estão na escola agora são muito menores e por isso a gente teve que fazer isso com muito cuidado, com um olhar muito sensível. Acho que o principal do filme é por ele ter um olhar sensível, de falar de questões que são profundas, sem ser óbvio, sem ser panfletário. Tendo muito cuidado, muita sensibilidade com a realidade daquela vila que também mostra as dores das mulheres, e de uma realidade difícil, onde as pessoas, principalmente a partir do que trazem os homens, são muito frios, muito duros. No Rio Grande todo mundo sabe o que significa um patriarca “gaúcho e macho”.

 

J! – Como foi a construção da Elisa, sua personagem, dentro desse universo?

F.A.: Para a construção da personagem a primeira coisa que a gente fez foi mergulhar nesse mundo, das meninas e dessa população rural. Tivemos que diminuir a velocidade da fala, entender um outro universo, conviver na escola, conviver na casa delas e pra mim o mais interessante de tudo, foi entender que não existe uma forma certa de ser mulher. A gente às vezes pensa num padrão de mulher livre que muitas vezes exclui uma realidade onde é mais difícil viver esse estereótipo feminista. Ainda assim, a Elisa traz um universo mais moderno e agitado pra vila, tratando da sua sexualidade com mais liberdade, tendo contato com a capital e com a internet. Confesso que foi inclusive engraçado pra mim.

 

J! – Qual é a principal mensagem do filme para você?

F.A.: Sem querer dar spoiler, mas acho que a mensagem principal do filme é que a gente pode mudar o nosso futuro. Nós, meninas, temos condições de poder definir o rumo da nossa vida, ainda que seja muito duro. Ainda bem que existe arte, porque ela consegue mostrar essa multiplicidade da realidade, que muitas vezes quando olhamos nua e crua não entendemos todas as milhares de coisas que vem por traz dela. Os silêncios dizem muito e o filme consegue retratar isso muito bem. A personagem principal, a Nalu, passa por um momento complicado da vida onde as contradições da ruim relação com o pai vem à tona, mas onde ela passa por um momento de descoberta e reflexão sobre o que ela quer pra vida dela. O fim, que eu não vou contar, é sutilmente um recado pras meninas de todo Brasil, seja o mais longínquo possível.

Maria Galant (Nalu) e Fabiana Amorim (Elisa) em Mulher do Pai

J! – Qual a importância das mulheres estarem Ocupando o Cinema no Brasil?

F.A.: Esse filme foi constituído por mulheres em quase todos os postos de comando. Não foi algo deliberado da diretora, mas foi algo que ajudou muito ao resultado final, que é um filme bastante sensível, delicado, que consegue tocar em questões que se fosse feito por homens não apareceriam da forma que aparece, como a possibilidade de incesto, a possibilidade de gravidez. Coisas que se fosse feito por homens, talvez teria sido feita de outra maneira. Mas acho que as mulheres no cinema são fundamentais, primeiro porque a gente ainda tem pouquíssima parcela dos filmes com protagonismo feminino. E quando a protagonista é mulher ainda sim é retratada sempre como a gostosona, num estereótipo sexual ou num estereótipo tipo de mãe cuidadora. E nós precisamos retratar as múltiplas realidades da mulheres e acho que pra isso é muito importante que as mulheres estejam à frente dos roteiros, a frentes das câmeras, atrás das câmeras, na produções de artes, de sonoplastia. Acho que o Mulher do Pai foi um grande recado em relação a isso, que as mulheres tão chegando com tudo no cinema, mas acho que fica pra nós também o desafio de assistir mais mulheres. O público também precisa se policiar, porque justamente os filmes de mulheres são muito menos valorizados do que os filmes de homens e nós precisamos dar espaço a essas mulheres que estão chegando fortes no cinema.

 

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