Não foi por 9g! Rafael foi condenado pela cor preta de sua pele

31/jul/2017, 20h34

Por Erick Andrade e Julia Sprioli

Rafael Braga é preto, pobre e favelado. Mora no Rio de Janeiro. Tem 25 anos, uma mãe e sete irmãos. Completou apenas a 5 série. Trabalhava como catador de materiais recicláveis e vendia quinquilharias nas feiras de chão do Rio. Essa é a realidade de uma grande maioria dos cariocas. No caos do estadual criado pelos governos do PMDB, primeiro com Cabral e agora com Pezão, quem não tem dinheiro não tem vez no Rio de Janeiro.

Rafael foi preso durante as manifestações de junho de 2013. Elas explodiram pelo já conhecido aumento da passagem anual que enforca cada vez mais o povo e a juventude. “Não é só sobre 20 centavos”, ainda gritamos.

Ao chegar na velha casa onde Rafael guardava o que recolhia durante o dia, encontrou uma garrafa de desinfetante e uma de água sanitária e foi levá-la até a casa da tia, que morava próximo dali. Nesse meio tempo, a confusão e a bárbara repressão do ato chegou até Rafael. Ele, pego com uma garrafa de Pinho Sol, foi levado pela polícia por “portar material explosivo”. Foi preso.

Rafael é o único preso das manifestações de 2013. O único! Não por coincidência, repito: Rafael é preto, pobre e favelado. Alguns anos depois, enquanto estava em regime semiaberto, tirou uma foto de frente a um “pixo” que dizia: “Você só olha da esquerda para a direita, o Estado te esmaga de cima para baixo”. Foi condenado a 10 dias na solitária.

Não bastasse o martírio, a negligência e o racismo estrutural do estado e da polícia, em 1 de dezembro Rafael foi liberado para cumprir regime aberto. Em 11 de Janeiro foi comprar pão na padaria próximo à casa de sua mãe e, no caminho, foi abordado pela polícia. Acusado de portar 0.6 gramas de maconha, 9 gramas de cocaína e um rojão, depois de apanhar muito, Rafael foi levado até a UPP da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro.

O depoimento dos dois policiais que o levaram se contradizem. As provas são as palavras deles contra as de Rafael e de suas testemunhas. Mas, de novo, vamos recordar: Rafael é preto, pobre e favelado.

Rafael Braga é vítima da maior arbitrariedade penal do Brasil: o encarceramento em massa de jovens negros e pobres. No país em que jovens negros não tem direitos garantidos, os de cima só dão duas opções: os caixões e as cadeias. Matam, no Brasil, um jovem negro a cada 23 minutos. Os que sobrevivem lotam as prisões de todo o país. Nós queremos direitos, justiça e reparação. Não aceitaremos mais que os de cima sigam rifando nossas vidas.

Amanhã (1) é o julgamento do pedido de habeas corpus de Rafael Braga no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Nós não vamos descansar. Rafael precisa ser liberto. Ninguém, absolutamente ninguém, será livre enquanto o povo negro não for. É tarefa da juventude estar lado a lado de Rafael e dos rafaeis que pagam com a pele o preço do racismo.

LIBERTEM RAFAEL BRAGA JÁ!