O espírito do anticapitalismo ronda a Europa

11/jul/2017, 18h08

*Cindy Ishida e Israel Dutra

Os povos em marcha para derrubar os muros e unificar as lutas

Hamburgo se despediu da reunião do Grupo dos 20 (G20) com uma manifestação chamada “Solidariedade Sem Fronteiras invés do G-20”, que juntou 76 mil pessoas, segundo a organização. O ato pedia políticas globais mais justas ao invés do fórum de governança global, que pretende aprovar políticas econômicas que imponham suas vontades aos demais países do mundo. Ativistas pelos direitos dos refugiados (com forte presença da comunidade curda), ambientalistas e anticapitalistas confluíram exigindo um projeto de globalização alternativo, que coloque as vidas em primeiro lugar e que se derrubem os muros que separam as nações desenvolvidas daquelas mais pobres no mundo.

Os protestos foram fortes desde a sexta-feira (7). Manifestantes ocuparam as ruas de Hamburgo, na Alemanha, contra a reunião do G20 que ocorreu entre os dias 7 e 8 de julho. Nas semanas anteriores já vinham sendo registrados incêndios em lojas de carros de luxo e linhas de trens bloqueadas de forma descentralizada.

O que é o G20?

O Grupo dos 20 (G20) foi criado em 1999 depois das crises durante a década de 1990. É um grupo que reúne representantes dos 19 países com as economias mais importantes do mundo mais a União Européia, na forma de seus ministros de finanças e Banco Central Europeu. Juntos representam quase 90% da economia mundial. Esse grupo se reúne uma vez ao ano para criar acordos que façam o povo pagar pela crise, para estabilizar os regimes e construir saídas que favoreçam a lucratividade de suas economias, fazendo a manutenção da desigualdade que sustenta o sistema capitalista.

Nessa rodada de 2017, muitos debates mostraram que existem profundas diferenças entre eles, há conflitos sobre qual caminho seguir. Uma ala representando os governantes que querem uma saída de mais liberalismo (com menos restrições de mercado, menos tarifas e mais acordos bilaterais de comércio) e uma outra mais protecionista (incentivo às empresas e mão-de-obra nacional, fechamento de fronteiras para os estrangeiros, protecionismo fiscal e alfandegário). O primeiro grupo é representado pelos presidentes Macron (França) e Merkel (Alemanha); o segundo grupo tem sua defesa com Trump (EUA), que ensaia diálogos com Putin (Rússia) e Erdogan (Turquia).

O encontro entre Trump e Putin foi muito esperado. Enquanto o movimento LGBT tem se horrorizado com o massacre que os russos vêm promovendo na Chechênia, ele estreita relações com o também odiado pelas massas pobres, mulheres, negros e imigrantes – o ricaço Donald Trump. Enquanto os dois governantes mais odiados do mundo, ambos concordam em uma visão mais nacionalista da política externa, pouca simpatia pela União Européia e uma diminuição da atividade militar da Coréia do Norte. Entretanto, existem divergências táticas sobre a questão do Oriente Médio (onde os EUA são aliados da Arábia Saudita e a Russia é aliada da Síria, de Bashar al-Assad), Trump ainda pressiona Putin sobre a questão ucraniana onde há uma política de desestabilização, desinteressante aos EUA, e até uma anexação de território recente (a questão da Criméia).

Trump deixa o encontro isolado, enquanto os demais países buscam acordos de comércio e o cumprimento do Acordo Climático firmado em Paris. O estadunidense vai na contramão. A solução encontrada passou por incluir um parágrafo a reconhecer a posição dos EUA e outro a reafirmar o compromisso dos restantes 19 países reunidos com o acordo de Paris, classificado como “irreversível”. São 19 contra Trump. A hegemonia estadunidense está em xeque.

Michel Temer ameaçou não ir ao encontro, mas voltou atrás para não transparecer fragilidade do Governo, cuja popularidade beira os 4% e se enfrenta com 14 milhões de desempregados furiosos. Ele fechou alianças comerciais e pretende atrair novos investidores para o Brasil, já que o capital financeiro tem batido em retirada com a pilha de denúncias de corrupção que cresce a cada dia.

Igualmente desacreditado e também sofrendo vários golpes dos movimentos de mulheres e trabalhadores é Mauricio Macri, presidente da Argentina – a inflação dispara, a economia demora a se recuperar e o desemprego crescente joga amplas parcelas da população na miséria. A nossa “Lava-jato” também respingou nele que tem sido investigado após delação da Odebrecht. Apesar de maldito em seu país, Macri tem sido o queridinho das cúpulas internacionais. Eleito com um discurso liberal, o presidente tem buscado soluções protecionistas, favorecendo empresas nacionais em licitações e injetando dinheiro público na economia. Foi eleito o próximo presidente do G20.

A crise dos refugiados mal foi um tema debatido dentro da reunião. Contudo do lado de fora se unia a reivindicação de direitos para a população imigrante e refugiada. O G20 decidiu não mais se reunir na Europa, sendo as próximas reuniões na Argentina, no ano que vem, no Japão em 2019, e na Arábia Saudita em 2020.

O protesto ali foi moinho para a água de muitas fontes: os indignados espanhóis ocuparam as praças, a primavera floresceu em revoluções no Oriente próximo, a juventude de pé madrugou nas ruas de Paris, os refugiados adentraram a Europa em busca do direito de existir e permanecer vivo. Hamburgo foi uma confluência entre a juventude européia desempregada, os refugiados perseguidos pelas guerras imperialistas e os governos protecionistas, povos que correm o risco de desaparecer caso a exploração do planeta Terra continue o seu ritmo de destruição em nome do lucro de poucos.

A virada do século foi marcada pelo chamado altermundialismo: a batalha de Seattle em 1999, contra a rodada do milênio da OMC (organização Mundial do Comércio); pelos Fórum Sociais Mundiais em resistência ao Grupo dos 8 (G8), com o mote de “Um outro mundo é possível”; ascenso do movimento ambientalista. Ali se discutiam os efeitos negativos da globalização, interpretando seus custos como sendo o pisoteamento dos valores humanos, o dúbio rumo da proteção ambiental e climática, da justiça econômica, dos direitos trabalhistas, dos povos tradicionais, da paz e liberdades civis. Tudo é negociado se der lucro. E os indicadores econômicos mostram – até nos países ricos o capitalismo é um grande fracasso para quem vive de trabalhar! A conclusão é que não há possibilidade de conciliar os interesses dos mais ricos com os da maioria da população em nenhum país.

Novos protagonistas entram em movimento, boa parte do mundo que ainda não tirava conclusões sobre os efeitos devastadores do capitalismo hoje sentem as correntes que os prendem. Construir uma ponte entre o altermundialismo da virada do século e as questões de hoje significa como construir um programa socialista que reúna respostas para os povos do mundo. A mundialização alternativa tem de ser uma saída internacionalista para que o trabalhador desempregado da Europa entenda que a corporação que o demitiu é a mesma que faz guerra na Síria e empurra refugiados para o seu país. As denúncias de corrupção nos países latinos evidenciam que a saída nacionalista não favorece o povo pobre – as empresas nacionais corruptas só se satisfazem enquanto o dinheiro público (que sai do bolso do trabalhador) jorra. Só é possível garantir que as ilhas do Pacífico não desapareçam se as empresas estadunidenses, russas e chinesas parem de explorar o carvão mineral e o petróleo, matam a mãe Terra para encher a própria barriga.

É preciso construir pontes entre essas lutas e o passado recente. Uma alternativa mundial dos povos contra a globalização dos ricos é urgente – agora mais do que nunca é uma questão de vida ou morte. Ou derrotamos eles ou milhões dos nossos morrerão da extrema exploração dos trabalhadores do mundo. Muitas dessas respostas foram gestadas nas ruas de Hamburgo e por isso a burguesia se contorceu: eles mesmos não conseguem chegar a um consenso para a sua alternativa, falta a consciência dos povos de que a nossa alternativa é a unificação dos trabalhadores sem os muros que eles construíram para nos separar. A repressão não os intimidou, e o que não mata fortalece.

O espírito do anticapitalismo ronda a Europa e a resistência sem fronteiras é um movimento de trabalhadores de todo o mundo contra o 1% mais rico. É preciso formulação específica sobre cada uma dessas questões para se tornar possível unificar as demandas e construir democracia real. O capitalismo não cai de podre, a articulação sem fronteiras das lutas tem de seguir indo ao encontro das ruas. As demandas dos povos pobres tem de se fortalecer juntas para dar o nocaute.

*Cindy Ishida do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos e Israel Dutra da Direção Nacional do PSOL, ambos militantes do Movimento Esquerda Socialista.