A crise na UFRGS: RU sob ataque

14/ago/2017, 15h26

Em todo Brasil, as universidades federais apresentam uma situação crítica diante dos cortes de verbas e o contingenciamento orçamentário promovido pelo governo federal. A UFRGS não está fora desse jogo. Recentemente, o reitor Rui Oppermann afirmou à imprensa que o orçamento está no limite e não sabe como manterá as políticas de assistência estudantil a partir de setembro. O reitor também afirmou que o pagamento das trabalhadoras terceirizadas corre risco e é possível que salários de professores sejam parcelados em breve.

A crise que assola as universidades federais está resultando uma série de mudanças para pior na PRAE

Alguns dias depois das declarações do reitor, a Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) anunciou uma série de mudanças que fazem retroceder as políticas de auxílio e permanência na universidade. As principais mudanças acontecem no restaurante universitário. A partir do 2º semestre de 2017, um novo sistema será implementado nos RUs. Na primeira fase da reestruturação, as refeições não serão mais produzidas nos restaurantes 1, 3 e 4. A comida será preparada e entregue para ser servida por uma empresa contratada pela universidade.

Trata-se de mais uma terceirização de serviços, mais uma passo em direção à privatização da Universidade. Esta matéria do Repórter Brasil mostra como a terceirização tende a ser pior para a qualidade do serviço e multiplicar problemas trabalhistas. As refeições serão preparadas sem a supervisão in loco das nutricionistas que hoje trabalham no RU, por exemplo.

A maior parte dos terceirizados que hoje trabalham nos RUs será demitida. Já os terceirizados que ficam – seja no RU ou exercendo outras atividades – passarão a pagar entre R$11 a R$13 nas refeições. Se não bastasse o governo e o Congresso corruptos atacando frontalmente os trabalhadores terceirizados, a UFRGS também atua diretamente para piorar as condições de trabalho.

Em diversas ocasiões, empresas contratadas pela UFRGS não cumpriram suas obrigações e deixaram a universidade à própria sorte. Tanto em 2015 quanto em 2016, por exemplo, as funcionárias da Multiágil ficaram sem receber mesmo depois da UFRGS já ter repassado o dinheiro para a empresa. Agora, o RU estará à própria sorte, pois já sabemos que a Universidade não tem condições de fazer com que as empresas cumpram os contratos que assumem.

As mudanças já estão sendo implementadas durante as férias embora não exista qualquer notícia sobre isso no jornal, site ou redes sociais da UFRGS.

A PRAE afirma que essas mudanças estão sendo planejadas desde 2015 sem qualquer debate com os maiores interessados no assunto: as e os estudantes da UFRGS. Nem mesmo no Conselho Universitário elas foram informadas. Mesmo com as mudanças em andamento, é difícil encontrar informações sobre as contas que envolvem o restaurante universitário. Tanto o edital quanto o contrato com essa nova empresa parecem inacessíveis. A falta de transparência e democracia é marca da UFRGS. A reportagem do jornalista Cristiano Alvarenga indica a UFRGS em último lugar no “Ranking da Transparência das Universidades Federais 2017”.

Bolsas seguem sem reajuste

As bolsas PRAE, que seguem sem reajuste desde 2010, terão sua carga horária alterada de 20 para 16 horas. Dessa forma, a reitoria diminuiu a carga horária para eximir-se da responsabilidade de atualizar o valor das bolsas. É impossível sustentar-se e permanecer estudando com 400 reais ao passo que aumentam o aluguel, a passagem e os alimentos.

Com os cortes, será cada vez mais difícil garantir a permanência dos 800 beneficiários da PRAE, que dependem do auxílio da UFRGS para concluir seus estudos.

PRAE: um resumo das mudanças

As mudanças a seguir foram apresentadas pela pró-reitora de assuntos estudantis, Suzi Alves Camey, no Fórum de Representantes Discentes realizado no dia 2 de agosto. Segundo a pró-reitora, as mudanças passam a valer já no 2º semestre de 2017 – salvo mudança nas bolsas, que ficarão para 2018.

  • Novo sistema de acesso e pagamento do RU: Os estudantes deverão comprar tickets (no mínimo 6 e no máximo 50) com boleto gerado no Portal do Aluno.
  • Novo valor: Trabalhadores terceirizados e servidores da Universidade passarão a pagar entre 11 e 13 reais pela refeição.
  • Comida pronta: Nos RUs 1, 3 e 4 será servida comida preparada e entregue por uma empresa privada.
  • Demissões: Serão demitidos terceirizados que hoje trabalham nos RUs.
  • Bolsas: A partir de 2018, a carga-horária será reduzida para 16h semanais.

A educação pública está sofrendo ataques no país inteiro. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) é a primeira universidade pública a indicar que não conseguirá manter o segundo semestre de 2017. Terá que fechar suas portas e não conseguirá atender os milhares de estudantes que foram submetidos ao processo seletivo de ingresso da universidade. E a PEC 55, que estabelece o congelamento dos gastos públicos, ainda sequer entrou em vigor. Nosso futuro está sendo desmontado sem que sejamos sequer consultados e tudo devido a uma crise que nós não produzimos!