Carta aberta aos estudantes sobre a última gestão do CAASO

12/set/2017, 19h49

*Juntos! São Carlos

Por que o Juntos constrói o CAASO?
O Movimento Juntos foi fundado em 2011 por jovens brasileiros, dentre eles estudantes da USP, que decidiram tomar nas mãos as rédeas da história e organizar-se em lutas por direitos sociais e por um sistema político-econômico-social mais justo. Desde a nossa existência em São Carlos, reconhecemos o CAASO como uma ferramenta histórica e preciosa para a mobilização dos jovens do campus e da cidade, motivo pelo qual nos dedicamos a construir a entidade desde 2012, nas suas diferentes gestões. Aprendemos muito durante esse tempo, e nos orgulhamos de termos sido parte de processos importantes de luta dentro e fora da universidade desde então, sempre colocando o CAASO a serviço destes. Como o debate faz parte desse fortalecimento e visto que muitas mudanças ocorreram nos últimos anos, apresentamos a todos as/os estudantes, entidades associadas e grupos do CAASO e especialmente à Gestão (R)exista (2016-2017) essa mensagem.

O ano de 2017
O cenário político-econômico do Brasil ferveu na primeira metade de 2017: prisões, delações, golpes, ajustes, desemprego e revolta popular se consolidaram no vocabulário brasileiro. Este não foi um ano de imobilismo da população e da juventude, e dias explosivos de resistência ecoaram por todo o Brasil. O mesmo aconteceu com a USP, sendo o campus de São Carlos um dos principais focos dessa ebulição. Dentre os acontecimentos no ano, alguns destaques: a ocupação da prefeitura do campus, realizada pelos estudantes por melhores condições no Aloja e reconhecimento da Autogestão do mesmo; duas greves gerais contra as reformas do governo Temer e do legislativo; a investida de Zago contra 9 estudantes por conta da vitoriosa ocupação de abril; a Marcha para Brasília, que reuniu 150 mil pessoas em protesto contra Temer; e a extraordinária conquista de cotas raciais no vestibular da USP, cuja ausência demonstrava o atraso que a reitoria da USP impunha a todos nós no acesso à universidade. Em condições normais, um desses eventos seria suficiente para tornar o semestre inesquecível. Mas o mar está agitado e a USP São Carlos não está para amadores.

O papel e a atuação do CAASO: como foi, e como deveria ter sido?
A Gestão (R)exista foi construída em conjunto por militantes do Juntos, militantes do Levante Popular da Juventude e estudantes que não se organizam em coletivos, mas se dedicam à entidade. A prioridade do Juntos no campus de São Carlos sempre foi de construir o movimento estudantil, e apostar as suas fichas na mobilização para que fossem alcançadas vitórias. Por isso, em época de formação de chapas, avaliamos que construir em conjunto com outro coletivo, o Levante, seria proveitoso por aumentar a abrangência da gestão e a quantidade de braços e cabeças de que o CAASO precisa. Trabalhamos duro na formação da chapa e na construção da campanha, bem como na gestão em si. Cada uma/um de nós se dedicando no limite que as dificuldades que a vida acadêmica nos impõe, mas sempre com esforço e desejo sincero de defender o direito de auto organização dos estudantes e da luta por uma universidade e sociedade mais igualitárias. O semestre foi desgastante, mas de profundas vitórias.
Entretanto, pudemos perceber que na prática o alardeado discurso de “unidade da esquerda” não se verifica, quando não há confiança política, respeito, nem disposição de construir um movimento estudantil que tenha a defesa dos nossos direitos como estudantes como prioridade absoluta.
Desde o começo da gestão, o boicote e o cerceamento da atuação do Juntos dentro da gestão foi a regra, começando com a demora para que houvesse permissão de postar na página do CAASO, mesmo quando tínhamos nos comprometido com tarefas de comunicação. Isso continuou de maneiras até explícitas, como quando foi proposto em uma reunião que nossa companheira que compõe a diretoria estivesse na mesa da assembleia inicial da ocupação, ao que membros da gestão expressaram “preocupação com ela estar na mesa”. Além de boicote, o teor machista dessa interdição também nos parece evidente. Sempre fomos muito compromissados com a construção da entidade, e respeitávamos muito nossas/os companheiras/os de gestão, mas cada vez mais ficou claro que não existia reciprocidade. Tudo isso só acelerou com a ocupação do alojamento, em que nossas críticas construtivas foram terminantemente rejeitadas, e com as eleições do CONUNE, nas quais, pelo fato do Juntos compor um campo de oposição à direção majoritária da UNE, direção essa que o Levante integra, a dinâmica de sectarismo e desrespeito se tornou praticamente insuportável.
Mas a situação de sufocamento não se deu apenas com o Juntos como coletivo, mas com o conjunto do movim[ento estudantil – e este foi o principal problema da gestão. Em momentos cruciais da política universitária, local e nacional, a diretoria do CAASO se absteve de se posicionar e construir a resistência, efetivamente trabalhando para a passividade. Na ocupação do alojamento, por exemplo, que se deu pela reivindicação de moradia estudantil e acesso à universidade para pessoas de baixa renda – pauta que, durante a formação de chapa, parecia consenso entre todas/os – o conjunto da diretoria do CAASO foi muito hesitante quanto ao apoio e a defesa da iniciativa, talvez por preguiça, talvez por manter uma concepção de movimento que desaprova ações diretas como essa. Ainda por cima, faziam questão de se referir a moradoras/es do alojamento em geral, e alguns em particular, por adjetivos pejorativos para o restante dos independentes. Nós do Juntos intervimos dentro da diretoria, para que se superasse essa hostilidade entre a entidade representativa do campus e o processo de luta mais dinâmico que ocorria dentro da faculdade, mas a gestão decidiu por se fechar completamente ao diálogo com o movimento. A vitória da ocupação foi alcançada, apesar da negligência do CAASO.
Ao longo de todo o ano, a preferência da gestão foi de se orientar em torno de questões burocráticas referentes à administração do Colégio. Quando houve atividades voltadas ao movimento, eram apenas as que favoreciam a posição política do grupo majoritário dentro da gestão (no caso, o Levante Popular da Juventude). Tudo isso, somado à desconsideração com as lutas mais importantes do campus e da USP nos últimos tempos, nos levam a avaliar que o CAASO falhou em representar os estudantes. Muitas/os estudantes esperavam iniciativa da entidade frente à dramática situação nacional, ou mesmo a questões locais como o corte de bolsas de permanência e pesquisa, mas o Centro Acadêmico não se prestou a cumprir um dos seus principais deveres, o de disseminar informação e construir o debate entre os estudantes. Não deram importância para as manifestações que convocaram, as assembleias foram risíveis – chegaram inclusive a se opor à convocação de uma assembleia no meio de uma plenária de ocupação com mais de 100 pessoas. O CAASO, em 2017, foi um acessório decorativo.
Não acreditamos que seja possível seguir construindo um mesmo projeto de CAASO com um grupo político que, além de não impulsionar as lutas estudantis mais urgentes e necessárias, não soube construir de forma unitária e honesta conosco. Essa conclusão não parte apenas de uma ideia, mas do balanço das duas últimas gestões que compusemos com o Levante Popular da Juventude. Existe uma diferença irreconciliável entre a nossa concepção de entidade, cuja responsabilidade primária é com os estudantes e com o seu movimento, e a majoritária na entidade hoje, que prefere se ausentar de fazer os debates complexos, e construir um Centro Acadêmico burocratizado e distante.

Um outro CAASO é possível: chamado fraterno à reconstrução
Anunciamos, portanto, que o Juntos não compõe mais a atual gestão do CAASO. Seguimos comprometidos, como sempre, na luta das e dos estudantes, mas por tudo que expomos acima, não acreditamos que exista alguma razão de seguir nossa luta por dentro da atual diretoria.
Além de outros movimentos parceiros, que viemos construindo relações fraternas e forjadas nas lutas reais, acreditamos que quem pode reconstruir nosso Centro Acadêmico é VOCÊ! Precisamos resgatar a história do CAASO e fazer que ele volte a ser nosso maior instrumento de luta, de difusão cultural, de promoção de uma convivência fraterna e de formação política para as e os estudantes. Cada estudante do campus pode contribuir com o CAASO, e a força do CAASO é proporcional à nossa união e disposição de retomar a tradição de lutas do nosso Centro Acadêmico. É óbvio que isso inclui gerir com excelência as questões financeira, legal, burocrática, a dívida e o colégio. Mas o CAASO não é um grupo qualquer, é sobretudo um espaço político! A única maneira de fazer isso, como demonstra a própria história do CAASO, é com uma diretoria que não se abstém de levar a frente as demandas das/os estudantes, de fazer debates sobre questões que, à primeira vista, podem ser difíceis, mas que têm saída se forem feitos de maneira democrática e pela base. Uma gestão fechada a quatro paredes não pode avançar na representatividade dos estudantes, ou na luta pelos nossos direitos.
Queremos um movimento estudantil conectado com as demandas dos estudantes do campus, bem como com a indignação de toda a sociedade que tem visto nossos direitos sociais serem enterrados, dentre eles a universidade pública, gratuita e de qualidade que muitas e muitos lutaram para garantir.
Anunciamos, também, que estamos compondo, junto com os companheiros da UJC e muitas/os estudantes independentes, a chapa Retomada nas próximas eleições para o CAASO. A partir deste manifesto, te convidamos para participar dos nossos encontros e atividades. O CAASO precisa de você! Vamos Juntos!