O povo de santo resiste!

18/set/2017, 11h08

Por Alex Araújo, militante do Juntos! Feira de Santana e Praticante do Candomblé

Nos últimos dias temos assistido um crescimento de ataques e destruição a terreiros de religiões de matrizes africanas e ao povo de santo. Do Rio de Janeiro ao Nordeste, comandados por agressores que se intitulam “Traficantes Evangélicos”, eles são os líderes de comunidades que exercem domínio territorial onde moram.

No Brasil, as religiões de matrizes africanas (candomblé, umbanda, quimbanda, etc.) foram introduzidas através de um duro processo de colonização e escravismo, onde o povo negro sofreu diversas violências e foi alvo direto da dominação cristã jesuítica. Foram arrancados de sua terra, tornados escravos e proibidos de expressar sua cultura e religiosidade. Mesmo assim, conseguiram manter vivas as tradições e ritos oriundos de sua terra, passando por processos de sincretismo religioso. Já se passaram 129 anos da abolição da escravidão, mas o povo negro continua morrendo e sendo o alvo principal de perseguição do fundamentalismo cristão.

Conforme se extrai do texto da Constituição de 88 ,a liberdade religiosa comporta três núcleos objetivos e invioláveis como formas de expressão da pessoa natural: a liberdade de consciência, a liberdade de crença e a liberdade do exercício de cultos religiosos. Na prática, sabemos que a perseguição ao “povo de santo” (praticantes dessas religiões) nunca cessou! No censo de 2010, mais de 600 mil pessoas se intitularam pertencentes ao candomblé e à umbanda. Segundo a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, no ano de 2014, um total de 114 denúncias de intolerância religiosa foram realizadas pelas religioões de matriz africana, sendo os mais agredidos entre todas as religiões. Muitos grupos são expulsos de comunidades, são obrigados a destruírem seus próprios espaços e quando não os fazem chegam a ser assassinados, como aconteceu com um pai de santo em Fortaleza nessa semana.

Se por um lado a violência e intolerância tem crescido, a mobilização por mais respeito tem sido uma constante! Casos tem ganhado maior repercussão, mesmo com a ineficiência do Estado em proteger e dar amparo às vítimas e também na falida e ineficiente política de “guerra às drogas”, que dá sustentação ao domínio do tráfico sobre regiões pobres do país, o que cria o poder exercido sobre as maiores vítimas: o povo negro!

Novamente estamos lutando para exercer um direito que é nosso e que foi conquistado com o sangue de muitos irmãos e irmãs! É necessário fazer dos terreiros e das comunidades “quilombos de resistência” no enfrentamento do genocídio de nosso povo! Enfrentar aqueles que antes chegavam pelos mares e hoje chegam pelas avenidas!