A paz que eu não quero

31/out/2017, 20h40

  • Por: Gabriela Campodonico*

Suponhamos que agora a Guarda Municipal possa se armar: e aí? Será que realmente é essa reviravolta que mudará o quadro de violência na cidade? Você poderia responder dizendo que “pelo menos estão fazendo alguma coisa para mudar a situação”, mas, será que estão mesmo?

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil 71 são negras, e os negros possuem chances maiores que 23,5% de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças. Além disso, alguns dados sobre mortes decorrentes de intervenção policial na categoria “intervenções legais e operações de guerra” apontam que o Rio de Janeiro é um dos estados onde mais se registraram homicídios desse tipo em 2015. Então, a partir dessas informações, podemos concluir que assim como em outras medidas, armar a Guarda não é questão de segurança, mas sim mais uma maneira legal de extermínio da população negra.

Antes que você venha me dizer que é vitimismo, quero que você responda a três questões: “alguém já te acusou de roubo, mesmo que indiretamente?”, “ao passar por um policial seu coração acelera?” ou “quantas vezes já te jogaram na parede/chão e te revistaram sem motivo algum, apenas pela sua aparência?”. Ao final dessas perguntas, se suas respostas foram SIM pra pelo menos duas, saiba que você faz parte do padrão construído para definir quem é perigosx dentro da sociedade.

Existe uma razão histórica e um interesse político de manutenção do poder coparticipantes na construção dessa aparência dada à violência. Nós negrxs somos maioria dentre a população brasileira, por mais que tentem nos reduzir a minoria, estamos em todos os lugares e nossa presença incomoda. Entretanto, nossa representatividade nos espaços de decisões políticas, econômicas ou de influência é ínfima, levando em consideração que compomos quase que uma totalidade populacional. Esse fator ocorre devido à vontade de persistência no poder daqueles que sempre estiveram (homens brancos de terno) e umas das formas de exercer esse controle é contando uma história.

A figura do negro durante a história brasileira tomou várias formas, mas, nunca deixou sua essência de um ser periférico, perigoso, exótico. O problema de haver esse único ponto de vista é a tendência que ele leva à desumanização do outro. Ou seja, há anos ouvimos uma história sobre crimes, violência, morte, favela, dados estatísticos, etc, porém, nesse meio de informações poucas vezes nos questionamos do porquê essa retratação sempre acontecer na imagem de alguém negrx ou porquê de o núcleo negrx da novela da Globo sempre ser o mais próximo do perfil precário economicamente.

Falar sobre armamento da Guarda Municipal não é uma discussão rasa e desconexa, ela envolve todas essas questões políticas e históricas que precisam urgentemente de atenção e medidas de reparação. Uma arma na mão de alguém pode até garantir algum tipo de segurança, mas, pra quem? Porque, muito pelo contrário, mais armas nas ruas é fazer aumentar de forma exponencial o genocídio da população negra periférica e só o fato de propor algo do tipo já mostra o quanto ignoram a vida dx negrx na sociedade. Essa determinação não vem do povo, que por maioria rejeita a imposição dessa medida como já vimos pela resposta dos moradores de Niterói ao plebiscito. Com isso, basta nos perguntarmos se realmente é de mais armas de fogo que precisamos para manter uma cidade segura ou se é de o mínimo de estrutura (saúde, educação, moradia, saneamento básico, etc) para que aquelx “menor” ou “bandidinhx” nem chegue às ruas? Onde o nosso dinheiro quanto população economicamente ativa na sociedade deveria ser aplicado? Violência combate violência?

 

*Gabriela é militante do Juntos! RJ e do DCE da Universidade Federal Fluminense