Ataque Racista à tenda Vovô Trindade e Cigano Ygor – Até quando?

23/out/2017, 13h59

Por Isabela Gonçalves e Gustavo Garcia de Andrade*

De norte a sul do país vemos que está havendo um forte crescimento de ataques ao povo de santo e destruição de terreiros e templos das religiões de matriz africana.

A umbanda, o candomblé, a quimbanda, entre outras, além de simplesmente crenças individuais, são expressões religiosas surgidas do processo da diáspora negra forçada pelos colonizadores europeus, que tentaram forçar a religiosidade cristã para todos os povos escravizados sequestrados da África a fim de lhes privar não somente da liberdade, mas de qualquer traço de humanidade e cultura. Mesmo com esse duro processo de evangelização forçada, através da resistência e do sincretismo o povo negro foi se apropriando de diversas narrativas e símbolos cristãos a partir das perspectivas oferecidas pelas matrizes religiosas e espirituais transmitidas pelos seus antepassados, produzindo assim diversas religiões e expressões que perduram até hoje.

Por conta dessa carga histórica profundamente ligada à raça e ao processo de escravidão branca sobre os povos negros escravizados, não podemos entender qualquer ataque que seja feito aos terreiros e templos como simplesmente uma manifestação de “intolerância religiosa”. É racismo. Toda expressão da negritude é marginalizada pela sociedade; aqui no Brasil vemos atualmente o exemplo do funk, que os deputados do Congresso – em sua imensa maioria, brancos – querem criminalizar pois “incitam a violência” e fazem apologia às drogas, enquanto os maiores responsáveis pela violência no país e os maiores traficantes estão ali mesmo, na Câmara e no Senado Federal. O samba também foi criminalizado durante um grande período da nossa história recente, assim como o rap e qualquer outra expressão cultural centrada nas narrativas e vivências do povo negro das periferias. Agora, muitos grupos religiosos estão sendo expulsos de suas comunidades, são obrigados a destuir seus terreiros por estarem sofrendo ameaças de morte, quando não são de fato assassinados. E esse violento processo de ataques mostra sua cara mais uma vez aqui na cidade de Campinas.

Na madrugada da última quarta-feira (18/10) por volta das 5h da manhã, a Tenda de Umbanda Vovô Trindade de Aruanda e Cigano Ygor (TUTAY), no Jardim Nova Europa, foi incendiada. O incêndio foi provocado através de um tijolo arremessado que atingiu uma vela sobre o altar de madeira, fazendo o fogo se alastrar pelo templo.

Já é o sexto ataque do tipo que acontece na cidade. E isso porque se criou um ambiente em que o poder público de Campinas, encabeçado pelo prefeito Jonas Donizette (PSB) não somente é conivente como estimula esse ambiente de violência racial. A Guarda Municipal campineira é conhecida por criminalizar a vivência da juventude negra perseguindo e desmantelando rodas de rap no centro e nas periferias daqui. Quando o jovem negro Reinaldo Silva foi morto pela Polícia Militar em Setembro deste ano com um tiro nas costas, nada foi feito para denunciar a violência e arbitrariedade da PM cometida contra um cidadão campineiro, cuja vida deveria valer como a de qualquer outro. Porque para quem manda na cidade, não vale. Aqui também se efetiva o projeto dos poderosos no país todo: uma estrutura de segurança e policiamento que não zela a vida e a proteção, mas prioriza a criminalização e eliminação da população negra e pobre. Daí ataques como os que aconteceram à tenda Vovô Trindade acontecem sem que nada seja feito, e passam como mais um evento normal na cidade. Mas não é normal.

Nossas vidas importam, e o sangue de muitas irmãs e muitos irmãos já correu pelos terrenos e avenidas para que o direito de praticar a própria religião não seja violado. E agora precisamos unir nossas forças para que ele seja garantido para os responsáveis, praticantes e a comunidade que frequenta a Tenda Vovô Trindade e Cigano Ygor. Precisamos também que a nossa cidade discuta esse assunto amplamente para que os representantes e políticos formulem políticas públicas que dêem conta dessa questão. Esta sexta-feira, 27 de Outubro às 18h ocorrerá no Salão Vermelho da Prefeitura de Campinas uma assembleia sobre os direitos humanos. Entre os temas, terá lugar a discussão sobre intolerância religiosa. Será um pontapé importante, portanto chamamos a todas e todos que se mobilizam por essa questão que compareçam nesse dia para engrossar o debate. Entretanto, achamos que é importante também que sejam construídos espaços específicos para essa pauta, a fim de que ela não fique reduzida em meio a diversos outros debates importantes e por isso fazemos um apelo para que a prefeitura de Campinas e quaisquer mandatos de vereador/a interessados articulem uma audiência pública sobre a intolerância religiosa e o racismo na cidade, que seja divulgada amplamente e conte com convidadas/os que tenham acúmulo e experiência sobre o assunto.

Contribuam também na vaquinha online (http://bit.ly/VaquinhaTendaTrindade) para que os responsáveis pela tenda consigam devolver o imóvel ao proprietário.

*Isabela é praticante da umbanda e estudante do Ensino Médio da E. E. Dom Barreto. Gustavo é coordenador do DCE da Unicamp