Após a eleição, lutar e avançar – Balanço e perspectivas para 2018 na Unicamp

28/nov/2017, 18h30

Nas eleições para o DCE da Unicamp deste ano, nós do Juntos construímos com companheiras/os da Oposição de Esquerda da UNE e lutadoras/es independentes da universidade a chapa “Nosso Tempo, Nossa Luta” e, como dizia nosso lema, construímos uma chapa para “tecer a manhã” na Unicamp.

A serviço do desafio de ser parte da construção de um campo político que enfrente os projetos privatistas colocados pela reitoria de Knobel e pelo governo Alckmin, buscamos construir um programa e uma campanha que dessem respostas concretas aos problemas que já estavam sendo sentidos pelos estudantes na universidade, como a precarização dos cursos, a insuficiência das políticas de permanência e a necessidade de ampliação da democracia na universidade, além da construção de uma Unicamp voltada para a sociedade e presente nas periferias, que levasse o conhecimento e a cultura para fora dos muros dos campi. Também precisávamos aliar essas pautas ao necessário enfrentamento ao governo de Temer, que com suas reformas ousa mexer em nossos direitos e no nosso futuro enquanto, junto de seus aliados, se corrompe a serviço dos empresários e banqueiros do país.

O resultado final apontou a vitória da chapa Apenas Alunos por 17 votos. A partir disso, é importante entender o que representa o campo político que dirigirá o Diretório Central de Estudantes da Unicamp no ano que vem, e no que a sua vitória poderá interferir em nossas lutas.

O coletivo Apenas Alunos surgiu de uma coalizão entre o Unicamp Livre – grupo conhecido por organizar uma atividade com o Kim Kataguiri no campus e se mobilizar a favor do Escola Sem Partido na Câmara de Campinas – e estudantes independentes após a greve do ano passado, que tinham como unidade a oposição aos métodos e às pautas da potente mobilização que nos garantiu a vitória das cotas raciais e o vestibular indígena neste ano. Em 2017, pautaram a defesa das punições e perseguições políticas ativadas pela reitoria após o movimento de greve e ocupação, e se mostraram simpáticos aos convênios privados e medidas como o aumento do bandejão e a cobrança de mensalidades “para quem pode pagar”. O diálogo que nutrem com a reitoria teve sua expressão máxima na primeira sessão do Conselho Universitário deste semestre, onde propuseram a desvinculação das eleições para a Representação Discente do movimento estudantil, que passaram a ser organizadas pela reitoria através de uma plataforma online.

Na disputa para o DCE, contaram também com a adesão do movimento Todas As Vozes, expressão da UJS (juventude do PCdoB) na universidade, que ficou conhecido pela gestão do DCE de 2015, sobretudo após agredirem um militante do Juntos! em um Conselho de Representantes de Unidade, além de terem entregado o prédio da cantina do DCE para a reitoria, antes uma fonte de renda do movimento estudantil. No plano nacional, são os que fazem da UNE e da UBES, entidades estudantis que dirigem, órgãos antes de tudo voltados à sua própria projeção e crescimento enquanto setor político, favorecendo os acordos nos gabinetes com os que hoje cortam nossos direitos em vez de apostar na luta dos estudantes como método de garantir vitórias. Exemplo disso foi a Marcha de Brasília, em 24 de Maio deste ano, na qual a UNE preferiu entregar um abaixo-assinado por Diretas para o Rodrigo Maia – presidente da Câmara Federal, do DEM – a organizar uma caravana nacional das universidades para o momento de maior radicalidade de enfrentamento contra o governo Temer pelo qual passamos.

O programa que unifica os setores que irão compor a gestão Apenas Alunos indica um caminho que vai de acordo com os projetos que estão colocados pela reitoria para a universidade, sendo coniventes com o desmonte de serviços essenciais ao mesmo tempo que estimulam a entrada e o crescimento da iniciativa privada. Precisamos apontar um caminho oposto, de defesa da universidade pública e de aumento da estrutura de ensino e permanência e da democracia da Unicamp. Para isso é importante entender alguns elementos que explicam o resultado eleitoral.

Após a potente greve do ano passado, a reitoria Tadeu, junta aos diretores das unidades, abriu inúmeros processos contra estudantes, corroborando para o desmonte dos Centros Acadêmicos que construíam as lutas nos cursos, institutos e na universidade como um todo. Nós próprios que compusemos a gestão do DCE sofremos o impacto disso, com alguns integrantes sendo suspensos e perseguidos por terem lutado por cotas e contra os cortes que traçaram o caminho de desmonte que estamos vivendo hoje. Esses elementos precisam estar colocados para podermos fazer uma análise honesta que não caia no mesmo senso comum que impulsionou o crescimento do Apenas Alunos.

O DCE também tem responsabilidade nesse derrota. A última gestão, da qual fizemos parte, não conseguiu reverter o cenário de ressaca após a greve, sendo insuficiente em processos importantes de luta como a conquista das cotas, as greves e mobilizações nacionais e a batalha contra o aumento do bandejão de 2 para 4 reais. Até compromissos financeiros básicos deixaram de ser cumpridos, por falta de socialização das responsabilidades centrais da gestão e porque grande parte da chapa não esteve presente na construção do DCE, esvaziando os espaços políticos necessários para uma vida ativa da entidade. Essa situação criou um afastamento do nosso campo político com setores da base dos estudantes que, não tendo visto a gestão atuando, buscaram apostar numa alternativa à paralisia.

Em menor grau, é também importante compreender o significado da campanha da Cantarei o Grito, que também concorria às eleições, para o desfecho do processo. Ao lançar uma chapa orientada para a autoconstrução nos lugares em que nosso campo tem mais enraizamento, a Faísca/MRT abriu mão de disputar praticamente todos os institutos com presença da Apenas Alunos, optando por participar do processo simplesmente para construir o próprio coletivo nas unidades em que tínhamos maior potencial eleitoral. Essa escolha política tem responsabilidade no apertado resultado final, e isso precisa ser levado em conta para refletirmos com seriedade as consequências dos métodos e da política que orientam as disputas que fazemos. A vitória do Apenas Alunos não é só uma derrota para a gestão de 2017, mas desfere um verdadeiro golpe contra o movimento estudantil que defende a universidade pública contra a privatização e os retrocessos impostos pelos de cima.

Nosso tempo, nossa luta

Essa avaliação deve servir para nos orientar sobre os caminhos que devemos seguir no futuro. Os desafios que estão colocados não são pequenos: a crise econômica, política e social pela qual estamos passando no país não desenha possibilidades de melhora. Como dissemos nas eleições, o governo Alckmin planeja impor uma PL para congelar os gastos com Educação no estado, e isso aponta para as reitorias uma orientação de intensificação dos ajustes e da privatização. A gestão Knobel-Teresa, ao demitir 240 funcionários da FUNCAMP e tentar dobrar o preço do bandejão, indica que se colocará a serviço dessa estratégia na Unicamp em 2018. Isso tudo reafirma a necessidade urgente de conformar um campo político de resistência aos ataques e retrocessos colocados pelos poderosos, pautando a necessidade de outra política econômica e por mais direitos. Queremos construir esse campo com todas e todos que construíram e apostaram na chapa Nosso Tempo Nossa Luta, além de qualquer lutadora ou lutador que se alie à defesa dessas pautas na universidade.

Para concretizar isso precisamos, como dizia Marighella, ir “mais e mais pela base”. Temos de nos jogar para reestruturar e movimentar os Centros Acadêmicos e fortalecer as relações com os coletivos e movimentos sociais da universidade, apontando os balanços necessários e provando disposição para estar lado a lado em todas as lutas, colocando as diferenças políticas de forma aberta e sincera e a serviço de apontar caminhos para o futuro das mobilizações. A partir disso, nosso desafio será fazer uma combinação, dentro e fora dos institutos, entre as batalhas que devemos fazer contra os ajustes e reformas e as lutas por melhorias na qualidade de ensino, avanços nas políticas de permanência (como a moradia, as bolsas e a creche estudantil), mais contratações e estrutura nos cursos, contra qualquer corte, demissão ou aumento de convênios privados. A vitória histórica das cotas e a derrota do aumento do bandejão indicam a potência que temos quando agimos coletivamente a serviço de avanços na universidade. Nós do Juntos queremos nos colocar a serviço dessas lutas no próximo período, com coragem para superar os limites deste ano e disposição para dar conta desses desafios, pois entendemos que 2018 será um ano de muita mobilização na Unicamp e precisamos nos preparar para estar à altura disso. Desde já anunciamos que seremos uma dura oposição à gestão do DCE que assume posse agora, que não aponta ter compromisso com a nossa mobilização e terá como principal orientação dialogar com quem quer desmontar a universidade.

O caminho que iremos seguir agora depende de escolhas inteligentes e comprometidas com as pautas históricas do movimento estudantil. Vamos por mais.