Chega de feminicídio e violência: o que a sociedade tem a ver com tiroteios nas escolas?

07/nov/2017, 14h44

Por Isabelle Ottoni, do Juntos! – RJ

Mais um caso de tiroteio em escolas no Brasil. Ontem (6), na região do Entorno do Distrito Federal, Raphaella Novinski, de 16 anos, foi morta a tiros dentro de uma escola estadual em Alexânia. Há cerca de um mês, outro caso parecido aconteceu em Goiânia, quando um adolescente disparou uma arma na sala de aula e matou duas pessoas. No Brasil, o último caso ocorrera há menos de um mês, em Janaúba (MG), quando um ex-funcionário invadiu uma sala de aula de educação infantil e ateou fogo, matando nove crianças e a professora. Nos Estados Unidos, situações como essas são recorrentes e apontam para uma epidemia de massacres cometidos dentro das dependências das escolas.

Casos deste tipo precisam ser analisados profundamente. É preciso se pensar em bullying, acesso a armas de fogo e as motivações do ódio. Os dois casos, apesar de serem motivados por razões diferentes, têm muito a nos contar.

O ponto em comum para grande parte dos massacres em escolas ao redor do mundo é o bullying; levantamento feito pelo psiquiatra Timothy Brewerton com dados dos 66 ataques em escolas dos Estados Unidos que ocorreram entre 1966 a 2011 indica que 87% dos atiradores sofriam bullying e foram motivados por desejo de vingança. “[A escola] deveria garantir a segurança de centenas de crianças e jovens que ficam sob sua tutela”, aponta a antropóloga Gilda de Castro Rodrigues, em artigo sobre a relação entre bullying e massacres em instituições de ensino.

Raphaella foi assassinada. O que a polícia está chamando de crime passional tem esse outro nome: feminicídio. Fontes relatam que o jovem disparou onze tiros no rosto da menina. O motivo: Raphaella negou namorar com ele.

O adolescente que matou 2 jovens e deixou mais várias vítimas em Goiania foi motivado por bullying. Planejava o ato há mais de dois meses, se inspirando na tragédia de Columbine e Realengo. A tragédia de Columbine ganhou destaque mundial e inspirou atos similares em todo o mundo, em um fenômeno que especialistas chamam de Efeito Columbine: nos oito anos seguintes , 67% dos casos registrados nos EUA atribuíram inspiração no Massacre de Columbine.

“Pesquisas mostram que se tornar famoso é um dos objetivos mais importantes para essa geração”, diz Adam Lankford, professor de justiça criminal na Universidade do Alabama. “Não há dúvida de que existe uma associação entre a cobertura da mídia recebida por esses atiradores e a probabilidade de eles agirem”, diz ele.

Mas como esses jovens tiveram acesso a essas armas?

Para Donald Trump o problema não é de armas, mas sim de saúde mental. Em entrevista, disse “É um pouco cedo, mas está claro que nos encontramos diante de um problema de saúde mental de alto nível. Temos muitos problemas de saúde mental no nosso país”.

Não é possível individualizar os problemas. A principal doença provém do sistema capitalista. Uma pequena parcela da população detém o capital, portanto, o poder, e a grande maioria continua a vender sua força de trabalho. Não existe tempo para o lazer. E esse mesmo sistema capitalista atua no poder bélico, uma das maiores indústrias do mundo. Em um mundo cada vez mais adoecido e com cada vez mais facilidade no acesso as armas, o que esperar?

Segundo Gilda, a negligência da comunidade escolar ao lidar com bullying e a falta de difusão de informações sobre saúde mental podem ser culpados pelos casos que culminam em massacres. “Para que não haja outros massacres em escolas, é indispensável que os alunos sejam receptivos ao diferente e os professores atentos à intimidação de colegas”

Precisamos debater e superar a ideia de que tiroteios em escolas e o feminicídio são cometidos por pessoas doentes.

Diferente do que diz Donald Trump, não estamos vivendo uma “epidemia de problemas de saúde mental”. É preciso apontar a culpa da cultura social do armamentismo, que reforça ainda mais a ideia da vingança. A institucionalidade tem sua parcela de responsabilidade por ainda não ter mecanismos em todas as escolas de acolhimento a quem sofre o bullying e responsabilização e acompanhamento de quem o pratica.

O machismo, também forte nesses casos, não é cometido por homens doentes: é resultado de uma socialização de dominância do homem sobre a mulher. É resultado de uma cultura de posse, violência e distorção do que seria masculinidade.

Chega de feminicídio! Chega de violência!