Cássia Eller: Representação, irreverência e luta

17/dez/2017, 12h58

Por Bárbara Henriques, do Juntas! RJ

Nesse domingo Cássia Eller teria feito 55 anos. Ao final deste mês fazemos 16 anos que ela, que foi a mulher da voz visceral e carregada, a mulher bissexual casada com outra mulher, a mulher que não dava a mínima para o que mulheres deveriam ou não ser.

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A crítica d’O Globo ao seu primeiro álbum, lançado em 1990, já trazia a manchete “Cássia Eller faz ‘début’ sem usar ‘maquiagem’”. Ao longo da vida, Cássia continuou não usando “maquiagem”, mantendo o cabelo curto ou raspado, agindo de forma agressiva e expansiva nos palcos, mostrando os peitos e coçando a virilha, se recusando a ser o que não era. Dando continuidade à tradição da desconstrução de gênero e heteronormatividade na música, iniciada por Ney Matogrosso, Elis Regina, Rita Lee, Cazuza e outros, ela abriu caminho para artistas contemporâneos como Mart’nália, Maria Gadu e Liniker.

Cássia Eller foi uma das primeiras figuras públicas a falar abertamente de seu relacionamento com uma pessoa de mesmo gênero, sua parceira Maria Eugênia. O que ela representou para mulheres lésbicas e bissexuais é difícil de expressar. Ser mulher é ser socializada para amar homens, para cuidar, priorizar e se relacionar com homens. Uma mulher cuja vida amorosa se revolvia ao redor de outra mulher, e que falava disso com toda naturalidade, era algo revolucionário. Apesar de nunca ter se reivindicado como militante LGBT, Cássia contribuía para a luta a sua maneira — nas palavras dela: “Acho que participo vivendo minha vida abertamente, sem esconder nada”. Assim, mesmo sem querer, Cássia virou ícone LGBT e referência para incontáveis mulheres lésbicas e bissexuais.

O relacionamento de Cássia e Maria Eugênia durou 14 anos, até a morte da primeira. Juntas criaram Chico, filho de Cássia de outro relacionamento, por sete anos e Cássia queria que, na ocasião de sua morte, sua parceira continuasse criando seu filho (cujo pai havia morrido antes de seu nascimento). Pouco antes de morrer, Cássia expressou preocupação de que isso não ocorresse, pela união entre pessoas do mesmo gênero não ser legalizada na época e não haver nenhum documento oficial que comprovasse seu relacionamento com Maria Eugênia. Suas preocupações se mostraram justificadas quando, após a sua morte, seu pai disputou a guarda do neto com Maria Eugênia. Se por um lado havia os desejos expressos e documentados de Cássia, por outro a lei brasileira definia que a guarda de um órfão iria prioritariamente para os avós maternos, e assim se instalou uma batalha judicial. No fim, contrariando expectativas, Maria Eugênia ganhou a guarda de Chico. Foi a primeira vez que a tutela de um filho foi entregue a parceira da mãe e o caso se tornou um marco dos direitos LGBTs.

Assim, entre o aniversário de seu nascimento e de sua morte, comemoramos o legado de Cássia Eller, uma mulher que acreditava em “conviver sem abrir mão do que você acredita”. Sua luta sempre foi por ser quem era, uma constante recusa das amarras da sociedade, das imposições de gênero e da heteronormatividade. Seguimos nessa luta, mais tristes pela sua perda, mas mais fortes pela sua contribuição.

Pelo direito de ser. Pelo direito de amar.