Feminismo: A palavra do ano

Por Bárbara Henriques

Em 2008, a palavra do ano do dicionário americano Merriam-Webster foi “bailout”, o resgate dos bancos e corporações americanos pós-crise. Em 2010 foi “austeridade”, as de 2012 foram “socialismo” e “capitalismo”, em 2016 foi “surreal”. Não é difícil constatar a ligação entre as palavras do ano e alguns dos debates centrais acontecendo na sociedade. Por isso, não surpreende que a palavra deste ano foi Feminismo.

A palavra do ano é decidida baseada nas pesquisas no site do Merriam-Webster, principalmente no aumento ano-a-ano no número de pesquisas de uma dada palavra e nos picos de pesquisas ao longo do ano. A palavra Feminismo teve vários picos de pesquisa significativos esse ano, com a Marcha das Mulheres no 8 de março, o lançamento de filmes e séries centrados em mulheres (Mulher-Maravilha, The Handmaid’s Tale, etc) e a hashtag #MeToo (#EuTambém), fenômeno iniciado com denúncias de abuso e assédio de grandes nomes da mídia (Harvey Weinstein, Kevin Bacon, etc) que levou mulheres a fazerem suas próprias denúncias de seus casos pessoais, demonstrando a prevalência do assédio e abuso sexual na sociedade. Esse aumento de interesse na palavra Feminismo é um reflexo do fortalecimento do movimento feminista, processo que na América Latina já ocorre há mais tempo com o #NiUnaAMenos e a Primavera Feminista. Mas esse fenômeno também está relacionado à ressignificação da palavra e à crescente massificação e politização do Feminismo como movimento.

Apesar do crescimento da aceitação de ideias feministas já estar ocorrendo há alguns anos, a reivindicação, na população geral, da palavra ou do movimento ainda é algo relativamente novo. Em um estudo de 2013 (Huffpost/YouGov), 82% dos americanos afirmaram que acreditavam que deveria haver igualdade política, econômica e social entre homens e mulheres, porém somente 20% se identificavam como feministas. Já numa pesquisa de 2016 (WashingtonPost), quase metade dos entrevistados se identificavam como feministas, incluindo 64% das mulheres entre 18 e 34 anos.

Assim, há alguns anos, era comum mulheres dizerem que eram a favor da igualdade entre gêneros, mas não se consideravam feministas, porque “não odiavam homens” ou “não queimavam sutiãs”, ou achavam o movimento muito “radical” e “agressivo”. Essa visão distorcida do Feminismo foi resultado de anos de demonização do movimento pelo patriarcado. Um movimento das mulheres pelas mulheres foi por muito tempo definido no imaginário da população como um movimento de ódio aos homens. Hoje, finalmente, as mulheres estão tomando de volta a palavra Feminismo.

Essa ressignificação gera um ciclo positivo, no qual há um aumento da popularidade do feminismo, que aumenta sua visibilidade, o que aumenta o número de mulheres descobrindo o que realmente é o Feminismo e ajuda a reverter a demonização do movimento. Assim, mais mulheres se reivindicam como feministas e por aí vai. A mídia tem um papel significativo nesse processo, com representações positivas do Feminismo finalmente chegando ao mainstream, de Hollywood à Globo. Isso dá um maior alcance às ideias feministas, o que permite que o Feminismo vá além da vanguarda e seja um movimento cada vez mais de massas. Porém, apesar desses efeitos positivos, é inegável a comodificação e manipulação de pautas sociais pela mídia e por grandes corporações. Por isso, não podemos delegar nossa luta a essas instituições, já que elas nunca vão se rebelar contra o sistema capitalista heteropatriarcal que propaga essa e outras opressões.

É preciso entender que o Feminismo não é só um movimento cultural ou individualista, isolado das estruturas de poder da sociedade. Felizmente, a ressignificação e reivindicação da palavra Feminismo passa também pelo descobrimento e reivindicação do Feminismo como movimento político. O primeiro verbete da palavra feminismo no Merriam-Webster é “teoria que defende a igualdade social, econômica e política entre os sexos”. O segundo é “movimento organizado em prol dos direitos e interesses das mulheres.” A expansão do entendimento de Feminismo de “teoria da igualdade” para “movimento organizado” é essencial para a nossa luta e é o que vem acontecendo.

Assim, mais e mais, vemos mulheres não só reconhecendo os ideais do Feminismo como algo positivo, mas também se reconhecendo como parte de um movimento político. Cada vez mais, as mulheres percebem que os avanços não simplesmente acontecem mas são conquistados, pela luta, pela gente. E — como podemos ver pela palavra do ano, pelas hashtags, pelo número de mulheres na rua — essa luta só cresce.

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