O direito de se orgulhar é de quem ousa lutar e resistir

22/dez/2017, 10h44

*por Edgar Rocha, do Juntos Bahia

Na contramão de toda a luta LGBT na história, foi aprovado na Assembleia Legislativa da Bahia, na terça-feira (19), o dia do orgulho heterossexual. A proposta, de autoria do deputado estadual e pastor Sargento Isidório (Avante), tramitava desde 2015 na Casa e só depende da sanção do governador Rui Costa (PT).

A cada 25 horas, um membro da comunidade LGBT é morto no Brasil, este ocupa o primeiro lugar no ranking dos países em que mais se matam LGBT’s no mundo. Segundo dados do GGB, o estado baiano é o segundo estado que mais tem registo de assassinatos de pessoas deste grupo. Cerca de cinco vítimas por mês, ficando atrás apenas de São Paulo. Andamos nas ruas com medo de sofrermos agressão e por isso quase nunca trocamos afetos públicos. Para pessoas T’s (Travestis, Transsexuais e Transgêneros) isso é ainda mais brutal, pois à luz do dia são escondidas dos olhares da cidade e à noite estão sujeitas às piores violências, mesmo muitas sendo héteros, fazem parte de um gênero que não é aceito socialmente e vêem sua sexualidade enxergada fora dos padrões da heterossexualidade CIStêmica que é tomada como base pelos deputados autores desse projeto. Muitos LGBT’s não conseguem concluir o ensino médio, por que são perseguidos, sofrem as piores agressões, são literalmente expulsos do ambiente escolar e raríssimas transexuais e travestis chegam ao nível superior. Os empregos oferecidos são extremamente precários e os poucos membros que ingressam no mercado de trabalho ocupam postos em empresas terceirizadas e Call Centers. Às pessoas T’s nem essas alternativas são oferecidas.

Quantos heterossexuais fora do universo LGBT sofrem por não conseguir emprego somente por sua sexualidade? Quantos heterossexuais fora do universo LGBT são agredidos nas ruas somente por demonstrarem afeto por parceiras e parceiros? Quantos heterossexuais são mortos somente por serem heterossexuais? Enquanto vivemos um aumento de desemprego que atinge a todos, a comunidade LGBT é atingida duplamente, porque além da crise sobre a classe trabalhadora, convivem diariamente com a opressão sobre as suas formas de viver, amar e serem.

Mas, afinal, porque nós temos um dia do Orgulho LGBT? Além da necessidade de reafirmarmos quem somos, lutamos pelo direito de amar e contra as violências que sofremos exatamente por sermos o que não querem que sejamos. No dia 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBT, aconteceu em 1969 o Levante de Stonewall, um levante da comunidade contra uma série de invasões da polícia de Nova York aos bares que eram frequentados por lésbicas, homossexuais, bissexuais, travestis e transsexuais que acabavam sendo presos e sofrendo represálias por parte das autoridades. Depois desses acontecimentos, foram organizados vários protestos em favor dos direitos dos LGBT’s em várias cidades do Estados Unidos e se espalhou pelo mundo, marcando toda a indignação de uma população historicamente reprimida. Mas e nesta data escolhida pelos deputados baianos como dia do orgulho hétero, qual foi o levante heterossexual que marca o dia? Não há! Porque ser hétero não é símbolo de orgulho, nem de resistência política, afinal faz parte da ordem do sistema.

É preciso pensar em politicas públicas para a população LGBT e em avanços como a aprovação está semana pelo Conselho Nacional de Psicologia de uma resolução com regra para atendimento a transexuais e travestis e que orienta os psicólogos de todo o país a não tratar a transsexualidade como uma doença ou anomalia e também da efetivação da primeira casa na capital baiana de acolhimento à população LGBT, vítimas de violência e em situação de rua. Mas é preciso avançar muito! Criminalizar a LGBTfobia e combater as brechas que o mesmo Conselho deixa para tratarem as nossas vivências e existências como doenças, mas pensar políticas LGBTs que cheguem na periferia, que avancem no acesso a emprego e estudos e que acabe os índices de violência que nos cercam.

SER LGBT É RESPIRAR RESISTÊNCIA E LUTAR PELO DIREITO DE EXISTIR, AMAR E SE ORGULHAR!

Foto: Mandato David Miranda