Você conhece Cyntoia Brown?

04/dez/2017, 10h09

Na última sema o caso da jovem Cyntoa Brown chegou às manchetes do mundo quando Kim Kardashian, Rihanna e outras celebridades lançaram a hashtag #FreeCyntoiaBrown (#LibertemCyntoiaBrown).

Cyntoia teve um infância difícil, tendo vivido nas ruas, mais tarde foi traficada sexualmente pelo homem com quem vivia. Aos dezesseis anos de idade a menina foi vendida para um homem de 43 anos de idade, a quem deveria servir sexualmente. Segundo os advogados de Cyntoia, assustada e acreditando estar sobre perigo de vida, usou uma arma de seu estuprador contra o mesmo e o assassinou. No entanto, ignorando todo o histórico da vítima, o estado do Tenesse nos Estado Unidos a julgou como adulta por homicídio motivado por dinheiro e prostituição. Agora Cyntoia, com 29 anos, deve passar o resto de sua vida na prisão. O caso tem gerado debates muito importantes e que também se aplicam ao contexto brasileiro.

Nos Estados Unidos, uma em seis mulheres já foi vítima de um estupro ou de uma tentativa de estupro. Os números não diferem muito da realidade do Brasil, onde se registra um estupro a cada onze minutos. Em ambos os países, a maioria das vítimas é menor de idade e ‘não branca’, como Cyntoia. O caso traz a necessidade do debate da cultura de estupro entranhada na sociedade, que chega a seu extremo quando falamos do tráfico de mulheres e meninas.

Além de sermos constantemente submetidas à violência sexual, nós mulheres somos também culpadas pela violência que nós mesmas sofremos. Sempre escutamos sobre a mulher que gosta de apanhar porque não se separa do marido abusivo, sem nenhuma consideração da condição financeira ou emocional da mesma ou da menina que foi estuprada porque estava usando roupas curtas, como se isso fosse uma justificativa. Da mesma forma, Cyntoia Brown foi considerada culpada de fugir de uma das situações mais cruéis a qual um ser humano pode subordinado, a de escravidão sexual. Não podemos continuar culpabilizando as vítimas.

Outro debate importante colocado pela atenção dada recentemente a prisão de Cyntoia Brown é o encarceramento da juventude. Nos Estados Unidos 47.000 jovens foram privados de liberdade em 2015, 67% desse foram jovens ‘de cor’. No Brasil, onde a população carcerária aumenta com muita velocidade, 80% de 2004 a 2014, a maioria também é de jovens, no nosso caso negros. Aqui, a prisão de mulheres também tem crescido vertiginosamente, 567% de 2000 a 2014, sendo 68% dessas mulheres negras. Precisamos debater o encarceramento da juventude como uma forma de excluir ainda mais as populações historicamente marginalizadas, que não tem nenhum resultado na diminuição da violência – muito mais relacionada aos altíssimos níveis de desigualdade social e racial em ambos os países. Além disso Cyntoia foi uma menina de 16 anos julgada como adulta e chama atenção para o que pode vir a acontecer no Brasil caso a redução da maioridade penal seja aprovada.

Cyntoia Brown é uma menina negra sendo culpabilizada e criminalizada por sofrer uma das piores violências que a sociedade criou. Precisamos lutar pela liberdade de Cyntoia Brown, a cultura do estupro, a culpabilização das vítimas e o encarceramento em massa da juventude negra!