29/01: Dia Nacional da Visibilidade Trans

29/jan/2018, 12h07

Nós não somos invisíveis. Somos vistas cotidianamente, a olho nu, a pele nua, a desejo cru. Somos aquelas que vocês veem nas esquinas à noite, nos seus filmes pornográficos, nos seus desejos mais recônditos e/ou no seu ódio ao que lhe parece diferente. Vocês também nos veem nas novelas e filmes, em geral cumprindo um papel de gente tosca, engraçada e estereotipada. Vez ou outra vocês nos veem em noticiários sensacionalistas regados a conservadorismo, ou porque reclamamos nosso pagamento após o serviço realizado, ou porque mataram mais uma/um de nós.

O que vocês não veem é que, enquanto 90% de mulheres trans e travestis trabalham com prostituição, a grande maioria gostaria de obter renda de outra forma. O que se negam a ver é que ocorre verdadeiro trans-genocídio neste país que concentra 40% dos transfeminicídios* em todo o mundo. A grande maioria cis não se comove, tampouco, ao saber que nossa expectativa de vida é inferior à metade da deles. Pois é, a grande maioria de nós morre até os 35 anos no Brasil. Porque esgotamos nossas forças e desistimos ou porque nos tiram a oportunidade de seguir em frente.

Talvez tenham se esquecido, mas vocês viram a Dandara morrer sob pauladas, pedradas e chacotas antes de ter corpo levado por um carrinho de mão e alvejado por uma pistola em Fortaleza. O vídeo de seu assassinato foi divulgado como espetáculo nas redes. Vocês souberam do ambulante Luiz Carlos Ruas, espancado até a morte na estação de metrô Pedro II, na capital paulista, por ter tentando defender uma de nós. Vocês talvez não se lembrem de Laura Vermont, agredida e assassinada pela PM paulistana após pedir socorro por ter sido agredida por transfóbicos sem farda. E da Verônica Bolina, brutalmente espancada por policiais que expuseram fotos de seu corpo desfigurado e semi-nu na internet? Não devem saber, mas há cerca de três meses um júri popular absolveu o professor Luís Augusto Nunes, mesmo após reconhecer ser ele o autor do assassinato da travesti Makelly Castro, no Piauí. E assim, dia após dia, passamos ignoradas.

Vocês não nos têm como colegas de trabalho, faculdade ou escola. Não nos veem nos lugares de “gente de bem”. Mas hoje é dia de lembrarmos vocês de nossa existência, da opressão brutal e cotidiana a qual somos submetidas. Opressão que se alimenta do descaso, da ignorância, da falta de solidariedade. Hoje é dia de lembrar ao movimento LGBT que o “T” não é de “The Week” e que o antônimo de LGBT não é hétero, porque a maioria de nós tem essa orientação sexual. De que casais homoafetivos podem sim gerar filhos da forma mais convencional possível, desde que nessa relação uma pessoa seja trans e a outra cis. Porque nós também podemos ser gays com boceta ou lésbicas com pau. É dia de lembrar ao movimento feminista que ter boceta não é sinônimo de “ser mulher”; de que nem a sociabilidade, nem a mera autopercepção, definem sozinhas a identidade de gênero do sujeito; de que o feminismo deve lutar por todas aquelas subjugadas pelo patriarcado em suas diversas expressões; de que as transfeministas estão aí lutando e produzindo conhecimento e que devem ser lidas e ouvidas.

Hoje é dia de exigir dignidade e respeito. De lutarmos para sermos visíveis fora das sarjetas. De exigir que parem de nos negar emprego somente por termos uma identidade transgênero. De exigir que direitos sociais como Saúde e Educação sejam de fato de acesso universal, não somente às pessoas cis.

Nós somos transgêneros e travestis, vocês já sabem de nossa existência. Pois abram-se para conhecer sob quais condições se dá esse nosso existir. Vocês, vocês são pessoas cisgênero. Não são mais ou menos “normais”, “biológicos”, “naturais” ou “heterossexuais” do que nós podemos ser. Vocês também têm identidade de gênero, ela só não é um fator de brutal exclusão social. Que estejamos juntas e juntos na luta pela diversidade de formas de sermos travestis, mulheres, pessoas não-binárias ou homens. E que, resguardadas e valorizadas todas as diferenças, sejamos iguais em direitos.

*transfeminicídio é a alcunha para assassinatos de mulheres motivados por sua identidade transgênero.

Por Lucci Laporta, transfeminista organizada no Juntas! DF.