FORA PPK! NÃO AO INDULTO A FUJIMORI! – Entrevista com jovens lutadores do Peru

12/jan/2018, 19h42

O Peru, país andino que tem protagonizado importantes batalhas no período recente, tem visto mais uma vez o povo tomando as ruas contra as medidas e manobras da casta política. Entrevistamos 3 jovens: Carol Ucha, brasileira e moradora de Lima, Justo, da cidade histórica de Cuzco e Vanina Montalvo, peruana que vive no Brasil, para entendermos o que se passa neste país palco de protestos e ocupações estudantis.

1.Por que as pessoas foram para as ruas em pleno natal? O que está acontecendo no Peru?

Vanina: Foi concedido um indulto humanitário ao ex-presidente Fujimori, acusado de corrupção, assassinato e diversos atentados contra os direitos humanos. Para mim, ele seria o maior vilão da história política do meu país e agora foi liberado e está solto como se fosse um cidadão qualquer. Isso representa muita coisa, e diz muito sobre o sistema judiciário do Peru.

Carol: Em plena véspera de natal, o presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, deu indulto humanitário ao ex-ditador Alberto Fujimori. Então no dia 24 mais de 3 mil pessoas foram às ruas no centro de Lima e outras milhares em diversas regiões do país. No dia 25 o número de manifestações e pessoas nas ruas mais que duplicou, tamanha a indignação da população.

Justo: Na noite do dia 24 de dezembro se confirmou o indulto a Fujimori, uma coisa que há tempos tentavam fazer. O pedido de vacância foi outra tentativa do fujimorismo para chegar ao poder executivo, a vacância era uma moeda de duas caras – seja qual fosse, igual ao indulto iria logo após o resultado da vacância. O presidente dava uma mensagem à nação: amanhã começa uma nova etapa de reconciliação. Essa mensagem era claro que não era para a população peruana, mas ao fujimorismo. Se estava confirmando um pacto de impunidade e o indulto era o início dessa reconciliação entre direita do PPK e o fujimorismo para confrontar as declarações e provas de corrupção da Odebretch.

2. Por que o indulto dado ao ex-presidente Alberto Fujimori indignou tanto a população?

Vanina: As pessoas estão tão indignadas que foram se manifestar nas ruas em plena noite de natal e elas têm toda razão. Fujimori destruiu o país nos anos noventa, fazendo um autogolpe, manipulando muitas pessoas, comprando deputados e gente poderosa, além de liderar e ordenar numerosos crímes e genocídios da população com a desculpa do combate ao terrorismo. Nossa história está manchada de sangue com o seu nome e o indulto simboliza o esquecimento desses fatos, nega a importância dessas mortes e deixa as vítimas injustiçadas.

Carol: Alberto Fujimori foi presidente no Peru na década de 1990 e implantou um regime ditatorial no país. Ele é acusado por crimes contra a humanidade, por comandar massacres, como na Universidade de La Cantuta, onde mandou sequestrar e matar estudantes e professores que eram contra seu regime. Ele também é acusado de enriquecimento ilícito e corrupção. Este senhor cometeu graves crimes contra a população peruana e mundial, não deveria estar solto.Segundo o presidente PPK, o indulto foi porque laudos médicos dizem que Fujimori está mal de saúde. Mas e todas as pessoas que ainda choram as saudades dos seus mortos? A saúde mental dessas pessoas não parece importar. É absurdo o indulto! É um insulto com o povo peruano que tanto sofreu nas mãos do assassino. Fujimori foi preso e condenado por 25 anos. Não importa se está velho, não importa se está doente, o povo quer justiça.Para piorar, o indulto foi concedido porque o presidente fez um pacto com os fujimoristas… PPK está sendo acusado de corrupção, e deu o indulto em troca de parte da bancada ligada a Fujimori não votar seu impeachment. Os poderosos fazem acordos e não ligam para a população.

Justo: A boa noite do dia 24 foi a noite mais triste e injusta para as vítimas de violência, para os familiares dos desaparecidos, para as mulheres esterelizadas… Para todos e todas foi um insulto à memória, à dignidade, à história! Não pode ser que se está indultando ao presidente mais corrupto da história do Peru, que está na cadeia por crimes de lesa humanindade e que por 25 anos o Peru gritou nas ruas FUJIMORISMO NUNCA MAIS. O indulto foi um insulto às nossas lutas.

3. Aqui no Brasil também vemos as decisões sobre rumo do país serem feitas pelo andar de cima, com negociatas para salvar corruptos. O que devemos fazer frente a este regime apodrecido, sem que quem tome este espaço sejam alternativas ainda mais reacionárias como é o fujimorismo?

Carol: Os peruanos estão dando o recado e o exemplo aos brasileiros. No dia 20/12 milhares foram às ruas contra os corruptos, pedir “QUE SE VAYAN TODOS LOS CORRUPTOS”. As ruas estão dando as respostas, não se sentem representadas por políticos que estão envolvidos em corrupção. E os brasileiros devem fazer os mesmos, sair às ruas e mostrar à casta política corrupta que não vai mais aceitar que eles sigam no poder e impunes.

E, o mais importante, a esquerda peruana é muito mais avançada e consequente que a brasileira. Os principais partidos de esquerda se somam às marchas contra a corrupção. Não só porque não tem rabo preso e não estão envolvidos em esquemas ilícitos, mas também porque sabem que não marchar contra os corruptos é se afastar do povo e das massas.

Justo: Efetivamente, creio que o primeiro é reconhecer que há um sistema que permite a continuação, o encobrimento da corrupção, dos pactos dos de cima, dos corruptos, que dão as costas aos interesses públicos e beneficia os interesses privados. Em nosso caso peruano é a Constituição fujimorista, que gira ao redor das regras do jogo dessa Constituição e não permite a participação de outras alternativas, nem permite a recuperação nem o avanço de nossos direitos humanos e sociais.

Diante desse pacto de impunidade, somente se poderá fazer diante da unidade de diferentes setores que estiveram em permanente luta: as mulheres, os jovens, os trabalhadores, as comunidades, os cidadãos e cidadãs que não participam da política, mas de indignam. Temos que dar o trabalho de sermos muito criativos na forma de organização mediante comitês de luta, frentes, onde se garanta a participação das pessoas que exigem representação cidadã, diferente do mesmo de sempre. Para garantir um sentido mais amplo, um processo constituinte desde baixo, a partir das ruas, para que saiam todos os corruptos e este sistema de corrupção, para nunca mais termos os mesmos.

4. Por que você acha necessário derrubar o presidente do Peru? Como fazer isso pelas mãos do povo?

Carol: A consigna que mais é cantada com força nas marchas atualmente é “FUERA FUERA PPK” e não é toa. Pedro Pablo traiu e mentiu para os peruanos durante o período eleitoral do ano passado. Uma das suas principais promessas era que não daria o indulto a Fujimori. E descumpriu o que disse apenas para se manter no cargo. A população tem todo o direito de tirá-lo da presidência e, do jeito que as coisas andam, tem todas condições de fazer isso. Ministros, secretários e companheiros de PPK estão saindo do seu governo por não concordar com o que ele está fazendo. Para mim, é questão de tempo a sua queda.

Além disso, PPK está envolvido em fortes esquemas de corrupção. Deve sair da presidência também por isso.

Justo: Se trata de dignidade, de justiça. Não podemos ter um presidente que prefere seus interesses e não se importe com as pessoas. Ele pensa que segue sendo o dono de uma empresa, um presidente que traiu o Peru indultando um assassino e corrupto, que fez um pacto de impunidade com o fujimorismo para cobrir-se entre eles diante das investigações da Odebretch. Já não é o presidente do Peru, as ruas gritam FORA PPK! Somente nos organizando, fazendo a unidade e saindo às ruas o tempo que seja necessário até que o PPK se vá junto com todos os corruptos. 5. Vemos um protagonismo importante das mulheres nas manifestações antifujimoristas, já que este governo foi extremamente violento para as mulheres. Como você vê isso

Vanina: O protagonismo que você menciona não é à toa. Além de todos os crimes que já mencionei, Fujimori foi responsável por uma esterilização massiva de mulheres de zonas rurais. Às ordens dele, 200 mil mulheres indígenas foram esterilizadas de forma forçada. A maioria delas viviam em zonas rurais do Peru e foram coagidas e ameaçadas para serem levadas a clínicas onde mantiveram elas em cativeiro fazendo com que assinem um documento onde “concordavam” com a intervenção cirúrgica de laqueadura. Vários relatos de sobreviventes dessa massacre descrevem a tortura e violência com que foram realizados os procedimentos. Acredito que é muito importante esse posicionamento por parte das mulheres nas manifestações. É necessário mostrar o tamanho das atrocidades cometidas por Fujimori e que não podemos permitir que se repitam. O crime das esterilizações é muito sensível a nós mulheres porque atenta com o maior direito que a gente defende, o direito do próprio corpo.

Carol: Para quem não Sabe, Fujimori foi responsável por mandar esterilizar mulheres campesinas à força. Quando saímos às ruas cantamos “somos las hijas de Las campesinas que no pudiste esterilizar” e isso é muito forte. O ex-ditador acabou com sonhos de muitas mulheres e lutar contra seu indulto é lutar pela liberdade de escolha das mulheres, é lutar contra o machismo, é representar àquelas mulheres que sofreram com sua política.

O Peru é um país muito conservador, é muito difícil ser mulher por aqui, mas o movimento feminista vem dando sinais de que ou as coisas mudam, ou vão mudá-las à força. Um exemplo vem sendo as marchas do #NiUnaMenos, que desde o ano passado enchem as ruas do país contra o feminicídio, p patriarcado e o machismo.

Justo: Este co-governo de PPK e fujimorismo preferiu fazer um pacto com os setores conservadores. Todas as iniciativas para garantir os direitos das mulheres foram desfeitos pela maioria fujimorista, até opor-se que o currículo educacional tenha o tema da igualdade de gênero. A luta das mulheres nas ruas tem sido consequente em todo esse tempo. Os dados de feminicídios, de violência cada dia aumentam mais, o Estado peruano está em dívida com as mulheres e com as vítimas de esterilização.

6. Além das mulheres, há outro setor que tem tomado para si e protagonizado a luta contra direita, não só no Peru mas em diversos países ao redor do mundo, que é a juventude. Como se movimentam os jovens no Peru?

Carol: Desde 2011 vemos em vários países milhares de jovens indo às ruas contra a retirada de direitos. Em 2013 a juventude foi às ruas no Brasil nas jornadas de junho. Em 2014/2015 os jovens peruanos foram às ruas contra a Ley Pulpín, que beneficiava empregadores e retirava direitos de jovens trabalhadores. E na atual conjuntura, a juventude do Peru é a que mais sai às ruas contra a corrupção e contra o indulto concedido a Alberto Fujimori. Em todos os lugares do mundo a juventude demonstra não ter medo da luta, porque sabem que se acomodar é perder seus direitos básicos. Hoje a juventude peruana se organiza em grêmios e federações e é muito combativa, nas marchas que ocorreram no último dia 25, a quantidade de jovens nas ruas era algo incrível que mostra que o radicalismo da juventude é fundamental para mudar as coisas.

Justo: Os jovens e as mulheres tiveram um rol muito importante no ano de 2017, são os que estão tendo a iniciativa de sair às ruas contra o indulto e outras demandas. Se pode renovar as formas de manifestação, colocando um pouco mais de alegre rebeldia ao ativismo. Porém ainda há muita indiferença por conta das mídias, muita desinformação. O ativismo nas redes sociais é nosso forte. Esta é a oportunidade para que a juventude tenha um rol de continuidade, se dê conta que a organização e a indignação são necessárias para fazer frente ao nosso presente.

7. Como fortalecemos a luta contra o indulto e os corruptos desde aqui do Brasil , onde já temos diversos políticos presos pela Operação Lava Jato, mas onde ainda vemos um Congresso e parte de um judiciário que atua para salvar aqueles que se beneficiaram das instituições públicas para seu próprio enriquecimento?

Carol: Como disse antes, a melhor forma de responder ao indulto e ao sistema corrupto é sair às ruas. A solidariedade internacional é fundamental para pressionar o presidente PPK. O indulto deve ser revogado.

Além disso, é papel da esquerda Brasileira seguir a luta dentro e fora do parlamento contra o congresso e judiciário que atuam contra a população. Só uma pressão popular, só a revolta popular mudará a atual situação do Brasil e do Peru. E é fundamental que a esquerda esteja bem posicionada!

Justo: Saindo às ruas, fortalecendo essa ideia que as ruas são nossas, para exigir que ninguém fique impune, que todos os corruptos estejam na cadeia, para recuperar as instituições que em vez de garantir os direitos das pessoas, garantem a continuidade da corrupção. Convoquemos a ampla unidade a nível regional, nacional, internacional para organizarmos e construir uma alternativa que venha do povo.

8. O que você espera para 2018 nos rumos da política peruana?

Carol: Ano que vem teremos eleições municipais e distritais. Espero que o Fujimorismo não tenha força, que a esquerda cresça. Mas, antes disso, eu espero para 2018 que a população arranque vitórias nas ruas! É preciso revogar o indulto de Fujimori! Que tenha novas eleições gerais, para mudar o congresso corrupto e o presidente que não representam mais ninguém. Por uma nova constituição, com uma assembleia constituinte. Essas são bandeiras fundamentais para mudar a política do Peru! Iremos às ruas com essas bandeiras e não descansaremos.

Justo: No dia 11 de janeiro tivemos outra marcha nacional contra o indulto e a impunidade. Todas as regiões do Peru foram para as ruas. Na região de Cuzco se conformou um comitê de luta que pode convocar diferentes setores, em especial a cidadania. Creio que aqui vai o trabalho, que todos os espaços de luta devem ser cidadão e paritários, assim podemos garantir a participação cidadã, para que o pedido que se vá o PPK e uma nova Constituição seja real. É a hora do povo, das pessoas, das mulheres, das comunidades, dos jovens! 2018 está começado assim e deve continuar nesse rumo: nunca mais impunidade nem indulto aos corruptos.

Mesmo com as festividades de ano novo e as férias, a indignação do povo peruano segue tomando força. Os peruanos têm memória e não se esquecem dos massacres e dos roubos cometidos por Fujimori. Na noite do dia 11 de janeiro, mais uma vez, as ruas do país foram tomadas contra o indulto, e o recado dado era que as pessoas seguirão marchando até a volta do ex-ditador à prisão e até a queda de PPK. Somado a isso, estudantes estão ocupando suas universidades na luta por mais direitos, campesinos estão fazendo grandes mobilizações e os professores ameaçam voltar à greve que há poucos meses atrás impôs uma forte derrota ao governo PPK. Acompanhar a luta dos peruanos é fundamental, e o Juntos presta toda solidariedade aos estudantes que ocupam e a todo povo que vai às ruas. Lutamos Juntos com os peruanos e peruanas por um outro regime político, onde faça valer nossa voz e nossos direitos!