Outro modelo de segurança pública é urgente

Em pouco mais de dois anos o Ceará acabou se tornando palco de uma série de chacinas, entre elas a chacina de Messejana em novembro de 2015 onde 11 pessoas foram mortas tendo policiais como os principais suspeitos e a do Centro de Semiliberdade Mártir Francisca, em Sapiranga (Fortaleza) onde vinte homens armados invadiram o centro e mataram quatro adolescentes. Neste fim de semana acabou acontecendo a maior já registrada, onde 14 pessoas foram executadas supostamente motivadas por brigas entre facções criminosas. Ainda como consequência desta escalada da violência, nesta segunda-feira (29/01) foi registrado o assassinato de 8 pessoas na penintenciária de Itapajé, interior do estado.

A política de segurança pública implementada pelo governo Camilo Santana (PT) mostra toda sua deficiência frente e os dados quantitativos de violência registrados no estado, onde o CE aparece com a terceira mais alta taxa de homicídios do Brasil, com 46,75 homicídios por 100 mil habitantes, segundo o relatório do Atlas da violencia de 2017. Com uma tendência para um agravamento do quadro, já que o mês de janeiro de 2018 já registrou mais mortes no estado do que o mesmo período em 2017.

O governo Camilo Santana (PT) se elegeu reforçando a ideia da repressão como resposta ao aumento da taxa de homicídios. Reforçou nos últimos quatro anos a política do ódio culturalmente estruturado no Brasil, com um investimento de 1,17 bilhões de reais para o aparato de segurança pública em 2017. Tais investimentos em políticas públicas para esta área não surtem o efeito desejado, pelo contrário, o aumento policial no Ceará é proporcional ao aumento da violência.

O aparato policial reforçado nos pontos turísticos da capital e nos centros comerciais das principais cidades do interior, como em Sobral, contrasta com a repressão policial utilizada contra a juventude e a população nos bairros periféricos. Não são incomuns os relatos de abusos da polícia nos bairros mais pobres, onde a polícia deveria ser uma instituição que protege a população acaba se tornando parte do problema, tendo como principal alvo a juventude pobre e negra.

Para piorar a situação, o governo estadual cearense tenta transferir a responsabilidade da situação cearense para o Ministerio da Justiça que por sua vez lava as mãos diante do massacre que a população mais pobre do nosso estado sofre. E este é um dado importante, uma quantidade ínfima dos homicídios no Ceará é solucionado, justamente porque quem mais sofre com esta realidade é a população negra e da periferia. Os próprios policiais envolvidos na chacina de Messejana não tem ainda a data de julgamento marcada, mesmo dois anos e meio após o crime.

Nesta situação torna-se importante que os movimentos em defesa dos direitos humanos some forças às famílias no grito por justiça, ao mesmo tempo que reforçam a importância de uma discussão séria sobre a segurança pública, que deve abandonar seu modelo repressor e racista e de fato cumpra a função de proteger a população. Os investimentos em inteligência e no combate ao crime organizado vinculado à política é urgente, bem como os programas que acolham nossa juventude mais vulnerável ao crime. Apenas com políticas que pensem o bem-estar da população explorada e oprimida em detrimento do populismo é que poderemos avançar para uma solução da crise de segurança pública no Ceará.

 

Por Giselle Marçal – Professora de História e Militante do Juntos Negras e Negros; João Berkson – Professor de Física e Militante do Juntos

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