Chuva e descaso no Rio de Janeiro

18/fev/2018, 14h11

Quatro mortes, mais de 350 famílias desabrigadas, bairros inteiros alagados, incontáveis pessoas sem eletricidade e o prefeito segue “acompanhando a situação” da Europa e Pezão segue omisso. O descaso dos governantes do Rio em relação às chuvas não vem de hoje: em 2004 a então prefeita Marta Suplicy acompanhou as enchentes direto de Paris, enquanto Cabral e Paes sempre culparam gestões anteriores, apesar do pouco que os mesmos fizeram nos seus respectivos 8 anos de governo.

Enquanto os governantes se escondem, a população se mobiliza. Vizinhos ajudam uns aos outras na reconstrução de suas casas, comunidades organizam campanhas de doação, amigos se juntam para pressionar a Light e o poder público. A população avança apesar das dificuldades e obstáculos, porque luta por si, porque sabe o que precisa ser feito e está disposta. Enquanto o governo segue imóvel e negligente, tendo se abstido por décadas de realizar as medidas preventivas necessárias para proteger a população dos temporais. Isso ocorre porque essas ações não se encaixam na lógica eleitoreira e financeira que rege o Rio de Janeiro.

Por exemplo, uma cidade como o Rio sujeita a chuvas violentas não deveria ter postes elétricos e fiação expostos. O Rio deveria ter toda a rede elétrica e de telefonia subterrânea, e inclusive ja temos uma lei que estipula isso. A Lei Estadual 5340/2008 estabelece um prazo de dez anos para que as concessionárias de todo o estado transformem a instalação aérea em instalação subterrânea. Esse prazo vence dia primeiro de dezembro deste ano e as obras ainda nem começaram. Se essa mudança ja tivesse sido feita, não teríamos pessoas que ficaram mais de 60 horas sem eletricidade. Porém, esse tipo de grande obra de infraestrutura raramente é feito, por ser custosa e gerar grandes transtornos.

É o mesmo caso das obras que poderiam minimizar as enchentes como reservatórios subterrâneos e túneis extravasadores. Essas últimas ainda tem a desvantagem de serem totalmente subterrâneas, o que significa que o resultado não é visível e dificilmente pode ser capitalizado eleitoralmente. Nas poucas vezes onde uma obra desse tipo é feita, em geral ela acaba servindo mais aos interesses privados do que ao público. É o caso dos “piscinões” da Praça da Bandeira, que foram realizados por empresas envolvidas na Lava-Jato (OAS e Mendes Junior), custaram 100 milhões de reais a mais do que o orçado e deixaram de construir um reservatório estratégico. Assim, os piscinões ficaram com apenas 42,3% da capacidade prevista e a Praça da Bandeira segue inundando.

Porém, estes reservatórios ainda são controversos e muitos acreditam que eles (sozinhos) não resolvem a questão das enchentes, porque não chegam à causa principal: a impermeabilização do solo do Rio de Janeiro. Na natureza, o solo e a vegetação podem absorver ou reter a maior parte da chuva; já na cidade há poucas árvores para reter a água e esta não consegue penetrar no solo. Assim, sem um sistema apropriado de drenagem, só resta à água ficar retida na superfície e alagar as ruas. É o que ocorre com o Rio, com sua predominância de áreas asfaltadas e concretadas, falta de áreas verdes, rios poluídos e até cobertos e encostas ocupadas, este acaba sofrendo cronicamente com as enchentes. Para combater essa situação, algumas cidade na China começaram a trabalhar com o conceito de “cidade esponja”, uma tentativa de tentar devolver às cidades sua capacidade de absorver água e evitar alagamentos. Esse projeto passa por várias medidas: implantação de cobertura vegetal nos edifícios e cobertura permeável nas ruas, criação de mais áreas verdes e arborização da cidade, dragagem e revitalização de rios, implementação de sistema de coleta de lixo (para evitar que os rios se poluam novamente), reassentamento de habitantes de áreas inundáveis e de encostas, etc.

Então, por que não fazemos isso no Rio? Já estamos desenvolvendo as tecnologias de pavimento permeável e teto verde (na UFRJ mesmo há pesquisas focadas nisso), porém com os cortes na pesquisa e o sucateamento da universidades públicas, as perspectivas não são boas. Já as outras ações seriam possíveis no Rio, mas são medidas de longo prazo que juntas requerem uma quantidade significativa de dinheiro e não servem a nenhuma demanda do setor privado. Inclusive, a Secretaria de Conservação do Rio de Janeiro já realiza algumas dessas ações mas não chega a escala necessária. Pudera, esta vem tendo seu orçamento cortado e nos últimos 9 anos apenas 2,3 bilhões dos 4,8 bilhões orçados para a prevenção de enchentes foram executados, o equivalente a menos da metade.

Os responsáveis sempre vão dizer que não houve dinheiro. Mas por que há verba para fazer isenções de mais de 200 bilhões de reais nos últimos dez anos mas não para evitar os bilhões perdidos em enchentes com a destruição de propriedade e paralização de serviços? Por que há verba para construir uma linha de metrô que foi exigida pelo mercado imobiliário que queria se expandir pra Barra e que serve 30 mil pessoas diariamente, mas não para proteger os milhões de pessoas no Rio de Janeiro que sofrem com enchentes? Por que há verba para construir uma Vila Olímpica e estádios que se encontram abandonados, mas não para reassentar aqueles que vivem em áreas de risco?

O Rio de Janeiro foi governado nos últimos anos por uma lógica que submetia os interesses públicos aos interesses privados, onde as grandes empresas minavam o Estado, seja pelas isenções, ou desviando verba das grandes obras ou se beneficiando indiretamente destas. Infelizmente, o Rio de Janeiro não é governado para o povo, e até que isso mude as tragédias das chuvas não cessarão, pois a lógica de pilhagem do Estado e a lógica eleitoreira são incompatíveis com as medidas necessárias de prevenção às enchentes.

A realidade é que o cidadão comum já fez mais nos últimos dias do que Crivella ou Pezão, criando redes de troca e solidariedade. Mas precisamos ir além do assistencialismo e da remediação. Só conseguiremos romper com a lógica sórdida que governa o Rio quando o povo tomar o poder e remover aqueles que não nos representam.