Eles só queriam mudar o mundo, nós também!

26/fev/2018, 22h17

Escola de Quadros 2018

2018 é um ano difícil, mas o que 1968 tem a nos dizer?

“Eles só queriam mudar o mundo…nós também!”. Foi com essa frase que a manhã do último dia da Escola de Quadros do Juntos! começou. A experiência que marcou toda uma geração de lutadores questionou não só as instituições, mas também as relações sociais, a moral, o consumismo e o conservadorismo. No Brasil, Junho de 2013 criou uma ideia comum de combate aos privilégios e reacendeu a certeza de que é urgente mudar o mundo, queríamos mais: mais educação, uma nova política de transporte público, mais direitos! Cinco anos depois, em 2018, a pergunta de ouro é se nós sabemos o que fazer com isso.

O tema é amplo e o debate acirrado. A abertura se dividiu em três exemplos históricos ao redor de 1968: a via chilena, o movimento pelos direitos civis nos EUA e o maio francês.

A via chilena

Theo Lobato, estudante de direito da UFRJ, disse: “O Chile e seu exemplo histórico demonstram o papel da esquerda revolucionária, qual sua tática e estratégia. E de que maneira se relacionam?”.

Com a experiência chilena de governo, que defendia o socialismo por via pacífica, debatemos os limites de uma política que prevê fazer a revolução em aliança com adversários. Ao invés de apostar na radicalização. Apesar disso, a força da auto organização popular mostrou que o povo pode governar a si mesmo, desde a distribuição de alimentos até a gestão das fábricas e o fortalecimento das assembléias populares.

#ALLPOWERTOTHEPEOPLE

Para Felipe Simoni, militante da negritude do Juntos!, o processo de suburbanização dos Estados Unidos teve como centro o incentivo ao modo de vida americano, individualista e consumista, que foi direcionado somente a uma pequena parcela da população trabalhadora. O povo negro foi excluído desse processo e submetido ao gueto, tanto geográfico, quanto político e econômico.

Da segregação racial e da falta de perspectivas para as negras e negros na forma de vida consumista do subúrbio americano, a insurreição de luta das comunidades afro americanas por direitos civis culminaram, na década de 1960, com o avanço da violência policial, no surgimento do Partido dos Panteras Negras, construído como um movimento de autodefesa da negritude mas que, a partir da influência das experiências de 1968, tomou o papel de disputar o poder para derrubar o sistema nos EUA e no mundo.

A experiência dos Panteras Negras mostrou que a estratégia revolucionária e a coletividade não só podem mudar a vida a do povo negro, mas o mundo.

Eles só queriam mudar o mundo

De um lado o avanço do imperialismo norte americano, do outro o definhamento da revolução socialista na Rússia pela burocracia Stalinista. Em meio à ebulição de guerras e revoluções no mundo, em maio de 1968 na França, os estudantes foram linha de frente do levante juvenil e operário que colocou em xeque o modelo de produção mecanicista imposto pelo sistema capitalista. Foi na ocupação da Universidade Sorbonne – em Paris – que a conjuntura ganhou outra qualidade, os jovens estampavam em frente à ocupação os dizeres “Com os estudantes, contra a ordem”.

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” (Bertolt Brecht); A militante do juntos do Rio de Janeiro, Fabiana Amorim, aponta que um dos motivos dos jovens estudantes serem a vanguarda desse processo vem do lugar ocupado por eles na lógica capitalista, a eles foi negado um espaço na tal “nova rota de consumo” tão incentivada à época. A juventude foi a linha de frente, também porque as Universidades haviam recentemente se expandido muito e justamente quem ocupava essas novas cadeiras não podia exercer a intelectualidade que produziam ou ter acesso a uma vida menos limitada, pré-estabelecida.

A repressão logo veio, mas com ela também um sentimento de solidariedade dos trabalhadores para com a juventude. A insatisfação era geral e o reconhecimento de unidade da juventude com os operários e vice-versa fez com que tudo ganhasse outras proporções. A partir dali a França entrava num período de enorme ebulição social e rebeldia com o regime! Dali as marcas de uma geração que contestava um modo de vida se tornavam mais aparentes e novos métodos de luta, cada vez mais radicalizados, tomaram forma pelas mãos dos ‘despossuídos’. O exemplo francês foi se espalhando para todos os cantos do mundo, marcando ainda mais o ano de 1968 como um ano onde o regime capitalista global se abalou pela força de auto-organização e contestação popular.

NÓS TAMBÉM!

Essa mesa foi a última do domingo (25/02) da Escola de Quadros do Juntos! em 2018, espaço que aconteceu desde a quinta-feira (22/02). Nossa Escola reuniu representações dos trabalhos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Distrito Federal, Rio Grande do Norte e Pará.

Como parte da conclusão, entendemos que se os problemas são gerais e há um sistema e seu regime que nos oprimem, precisamos nos organizar como sujeito coletivo para questionarmos o sistema e suas diversas faces. É tempo de construir poder juvenil! Devemos ser realistas e exigirmos o impossível!

FIQUE LIGADO!

Neste ano completam-se 50 anos desses exemplos históricos que nos inspiram e, mesmo com/através de todas suas contradições, nos ensinam tanto. Também completam 5 anos de junho de 2013, exemplo brasileiro recente onde a população – e sobretudo a juventude – foram à casa dos milhões para as ruas reivindicar o fim dos privilégios de poucos e lutar por mais direitos, dentre eles o direito à cidade que se sintetizou na luta por um transporte de fato público e de qualidade, além da valorização da educação e contra o desmonte da saúde. Queríamos mais!

Por isso fiquem atentos, o Juntos! produzirá um programa-movimento que se atualizará a partir de nossa atuação no concreto do cotidiano sem nunca perder de vista tudo aquilo que a história dos lutadores ao longo do tempo nos indica. Também produziremos materiais audiovisuais para dinamizar nossa compreensão desses processos e celebrar cada vitória.

Se vamos juntos a indignação toma o poder!