Em defesa da universidade pública: resposta à entrevista do novo reitor da USP

*Gabriela Schmidt, estudante de Ciências Sociais da USP e do Juntos SP

A universidade pública cumpre com uma extraordinária missão para o presente e o futuro das sociedades, é um investimento e também um direito da população. Mas, a despeito do seu papel social estratégico, nos últimos anos, as universidade públicas têm sofrido com o sucateamento e a precarização. Isso ocorre com muita intensidade e velocidade no contexto da crise que atravessamos, porque, para preservar os largos privilégios e lucro das elites, cortam-se gastos com os serviços públicos. Essa é uma verdade latente.

Porém, o discurso público de tais interesses é o de que os gastos do Estado com a educação não cabem na nova planilha, ou seja, é preciso “economizar”, cabendo a cada um de nós “se virar” ou “merecer”. É com lições morais e domésticas como essas que os governos arrancam direitos e desmontam a educação pública.

Um caso é a Universidade de São Paulo que, desde 2014, passa por uma crise orçamentária, cujo principal impacto é a solução dada pelas reitorais para a crise, ou seja, mais amargo que a própria crise é o remédio. Pois, ao invés de reivindicar mais investimento público – estagnado a mais de 20 anos -, põem em prática uma política de austeridade, ao gosto dos governos tucanos. Nos últimos 3 anos, o antigo reitor, Marco Antônio Zago, aprofundou o plano de desmonte da universidade com Planos de Demissão Voluntária e os Parâmetros de Sustentabilidade (a PEC do fim da USP), que determinam cortes e congelamento das contratações.

Agora, neste 1º de Fevereiro, a UOL divulgou entrevista com o atual reitor da USP, Vahan Agopyan – que, não por acaso, era o vice-reitor na gestão Zago -, nela, quando questionado sobre a política de permanência para os estudantes cotistas e a tentativa de desvinculação do Hospital Universitário, Vahan responde que a “USP não é entidade assistencialista” e insiste em rivalizar o apoio à permanência estudantil e o hospital escola com o que seria a verdadeira função da universidade, ensino e pesquisa: “Somos péssimos administradores para manter residências estudantis, para fazer restaurantes ou para administrar auxílios de bolsas. Não é nossa especialidade. Nós não somos muito eficientes nisso”. Dessa forma, fica evidente que Vahan dará continuidade ao projeto de Zago, que, apenas por ser menos grosseiro, chama assistencialismo o que o outro chamava “penduricalho”.

O que faz é usar uma caricatura do “assistencialismo” para defender que a universidade não tenha comprometimento com quaisquer questões sociais (bolsas, moradia, creche, restaurantes, etc), nem sobre os seus próprios alunos. Na verdade, a reitoria, que se viu obrigada a capitular para a política de cotas raciais, devido a força das mobilizações e da realidade, não está disposta a dar nenhum passo fora do seu projeto privatista e elitista.

Na entrevista, Vahan diz também que é a prefeitura e o governo do estado que devem assumir a responsabilidade por problemas dessa categoria, não a USP. Mas Vahan, eleito pelo governador Alckmin e ex-coordenador na Secretaria de Desenvolvimento no governo Serra, não pretende defender soluções de importância social, exigindo responsabilidade dos governos. Ao contrário, é parte daqueles que defendem a política de desresponsabilização do poder público sobre demandas sociais e a promoção de privatizações.

É por isso que Vahan pede ao Estado que assuma as suas tarefas de ordem social, como saúde e educação – “ou os responsáveis pela saúde assumem essa responsabilidade ou não vamos resolver o problema” -, mas é contrário ao aumento dos investimentos públicos nas universidades e ao aumento do repasse do ICMS às estaduais paulistas. Assim, os interesses de casta das universidade vão ao encontro dos interesses do governo do estado, não por acaso, mas devido à falta de democracia nas estruturas de poder.

A absurda entrevista do reitor da USP no UOL é ilustrativa das intenções de governos e reitorias para as universidades públicas no país. Por isso, é preciso organizar uma importante resistência contra a trágica “solução” para a crise na educação e uma luta em torno de um projeto de universidade que seja totalmente pública, democrática, popular e de qualidade. Sendo assim, duas tarefas se colocam ao movimento social e estudantil imediatamente: Não a desvinculação do Hospital Universitário, contratações já! Em defesa permanência estudantil para toda demanda!

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