Paraíso do Tuiuti: o grito da liberdade na Sapucaí

12/fev/2018, 19h27

No bairro São Cristóvão, um dos primeiros da zona norte do Rio de Janeiro, para quem vem do centro da cidade, está localizada a escola de samba Paraíso do Tuiuti. Fundada em 1952, a escola é vizinha da famosa feira de tradições nordestinas. Desacostumada aos holofotes, a Tuiuti é o assunto mais comentado nas redes sociais desde a madrugada da segunda-feira de carnaval, quando levou a luta de classes para desfilar na Sapucaí.

Com o enredo fundamentado num questionamento retórico, “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, a escola de São Cristóvão fez do seu desfile uma homenagem ao povo negro e uma denúncia à situação da classe trabalhadora brasileira.

Podemos dizer que no título do enredo já está a primeira crítica da escola. Na ocasião do despacho da Lei Áurea, o jornalista negro José do Patrocínio, beijou a mão de Princesa Isabel exclamando: “Meu deus, meu deus, está extinta a escravidão”. Agora, 130 anos depois, a Tuiuti coloca um ponto de interrogação nessa frase para questionar se a atitude da princesa realmente libertou o povo negro.

A comissão de frente representou “O grito da liberdade” com negros escravizados sendo açoitados por um capitão-do-mato diante da senzala. Na evolução, os escravizados recebem a ajuda de pretos velhos, entidades das religiões de matriz africana, que se apresentam em corpo de velhos africanos escravizados que viveram nas senzalas.

Assista a comissão de frente da Tuiuti:

O abre-alas “Quilombo Tuiuti” homenageou as tribos guerreiras da África indicando que a partir dali a luta contra o racismo tomava a avenida.

Foto: Fábio Tito/G1

A Paraíso do Tuiuti fez do seu samba um hino da resistência em 2018. Mirou e acertou em cheio aqueles que governam o país e aplicam medidas para precarizar ainda mais a vida dos trabalhadores.

Uma ala homenageou os trabalhadores informais com fantasias de ambulantes e outra os “guerreiros da CLT”, com operários carregando uma carteira de trabalho gigante. (FOTO: MAURO PIMENTEL AFP)

FOTO: MAURO PIMENTEL/ANTONIO LACERDA)

O último carro alegórico foi o “Neo Tumbeiro”. Ou seja, o novo navio tumbeiro, nome dado aos navios que faziam o tráfico de negros da África para o Brasil para serem escravizados. A origem do nome vem de “tumba” porque a metade dos escravos morriam devido às péssimas condições da viagem.

No topo do “Neo Tumbeiro” estava o “Vampiro Neoliberalista”. Ninguém teve dúvida: o vampiro, cercado de dólares e vestido com a faixa presidencial, era Michel Temer. Na traseira do carro, uma carteira de trabalho gigante criticando a reforma trabalhista, aprovada por Temer com o apoio do Congresso em 2017. A reforma trabalhista é considerada estratégica para o programa econômico de Temer e vem para piorar as condições de trabalho aumentando ainda mais a exploração dos trabalhadores e os lucros dos grandes capitalistas.

Este é o segundo ano da Tuiuti na elite do carnaval carioca. Talvez a primeira preocupação da escola seja se manter no grupo especial. Mas, independente das notas que receber, a Tuiuti pode seguir com a tranquilidade de ter cumprido seu papel nesse carnaval. Colocou o samba no centro da luta de classes, ergueu a bandeira da resistência que tremula pelo fim da escravidão.

*escrito por Fabiana Amorim e Júlio Câmara

Leia a letra do samba-enredo:

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

Composição: Cláudio Russo / Anibal / Jurandir / Moacyr Luz / Zezé