1968 e 2018 se unem por Edson Luís e Marielle

25/mar/2018, 10h46

Publicado originalmente no jornal O Globo impresso de 25(domingo) de março de 2018.

Passeata dos Cem Mil contra a Ditadura Militar. Da esquerda para a direita: Nelson Motta (camisa de gola rôle preta e casaco branco), Edu Lobo, ítala Nandi, Chico Buarque de Holanda, desconhecido, Renato Borghi, José Celso Martinez Correa, Caetano Veloso, Nana Caymmi, Gilberto Gil e Paulo Autran – Arquivo O Globo

Edson Luís teria 68 anos se estivesse vivo. O menino que veio de Belém com o sonho de ser engenheiro não teve tempo de concluir nem mesmo o supletivo, que ele cursava no Instituto Cooperativo de Ensino, ao lado do restaurante Calabouço, no Centro. Lá, almoçou e jantou nos seis meses em que viveu na cidade. Palco de reuniões e protestos, o local atraía seis mil estudantes secundaristas por dia, que ali se alimentavam por alguns trocados. Nas duas últimas semanas de sua vida, o menino de 18 anos, tão franzino que parecia mais jovem, trocou a casa da tia Edna, em Vila Valqueire, por um colchão no chão do Calabouço, onde fazia serviços como faxina, colar cartazes e distribuir jornais, tarefas que cumpria mais para ter o que comer do que para derrubar os militares.

 

DUas gerações na cinelândia

Na foto: Marlon, do Juntos, e Isabella, militantes que ocuparam escolas em 2016, foram a ato por Marielle na Cinelândia. Lá, também estiveram Elinor Brito e Luiz Tenório, que carregaram caixão de Edson Luís há 50 anos – Gustavo Miranda / Agência O Globo.

Na quarta-feira, dia 28 de março, estudantes secundaristas vão promover uma marcha pelos 50 anos do assassinato de Edson Luís de Lima Souto, baleado no coração por um dos 26 policiais que reprimiram um protesto dos estudantes para que o governo concluísse o refeitório, entregue sem piso e com entulho acumulado. Eles pretendem parar a Avenida Rio Branco numa caminhada da Candelária ao Palácio Pedro Ernesto — hoje ocupado pela Câmara de Vereadores, mas onde à época funcionava a Assembleia Legislativa —, na Cinelândia. Foi lá que o corpo de Edson foi velado por 21 horas. Será o mesmo trajeto da manifestação do último dia 20 em homenagem à vereadora Marielle Franco e ao motorista Anderson Gomes, executados no dia 14. Distantes cinco décadas no tempo, as mortes do estudante e da vereadora se aproximam por terem sido crimes políticos que ergueram multidões muito além das fronteiras do Rio. Velados no mesmo local, Edson Luís virou um símbolo da luta contra a ditadura; Marielle, agora, simboliza as ideias que defendia como parlamentar: direitos iguais para mulheres, negros e gays e o fim tanto da violência policial nas favelas quanto da intervenção federal na segurança pública.

“Por Edson Luís, por Marielle, por Anderson”, diz o panfleto que convoca para o ato de quarta-feira. A comoção com as mortes da vereadora e seu motorista levou de volta às ruas a geração que sonhava mudar o Brasil em 1968. Agora, eles estão ao lado de jovens nascidos no século XXI. Assim como o tiro que matou Edson Luís fez o movimento estudantil se fortalecer e aglutinar forças da sociedade — segundo jornais do dia seguinte ao assassinato, foi a primeira vez em que os 55 deputados da Assembleia Legislativa ficaram do mesmo lado, todos contra a Polícia Militar —, a execução de Marielle também está mexendo com as estruturas do movimento estudantil que ela apoiava. A revolta mudou, mas continua. Se aquela geração era movida pelos ideais da Revolução Cubana e pela ojeriza aos Estados Unidos — o que faz pouco ou nenhum sentido para quem nasceu neste século —, militantes de hoje pedem o fim da Polícia Militar, o combate ao racismo, à homofobia e à misoginia. Em 1968 queriam revolução; agora, a palavra de ordem é ocupação.

Aos 17 anos, Marlon Soares, morador da Maré, percebe uma coisa em comum entre as duas gerações: a busca por uma sociedade mais justa e a luta pela educação pública, gratuita e de qualidade. Mas nem sempre foi assim. Ele não tinha qualquer envolvimento político quando sua escola — o Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro, em Higienópolis — foi ocupada pelos colegas, em 2016. Foi quando ele despertou para as pequenas agressões que sofria no dia a dia:

Quando Edson Luís foi assassinado, poucos sabiam o seu nome. No início, ele foi chamado de Nelson Luís, e o nome chegou a ser pixado no Palácio Pedro Ernesto – Arquivo O Globo / Agência O Globo.

— Foi em uma roda de debates sobre negritude, durante as ocupações, que eu me reconheci como negro e como pessoa que sofre com o racismo. Entendi naquele momento o motivo para eu ser parado cinco vezes no mesmo dia pela polícia no caminho de ida e volta da escola, e o que isso significava. E, só assim, despertei para a política — afirma Marlon, órfão de pai e mãe e que ajuda os avós na criação dos dois irmãos mais novos.

 

A vez dos coletivos

Sobre o corpo de Edson Luís, no saguão da Assembleia Legislativa, colegas do Calabouço colocaram seu caderno escolar aberto na última aula: geografia – Arquivo O Globo.

Marlon integra o coletivo Juntos!. É uma diferença clara em relação aos estudantes de 1968: os de hoje preferem participar de coletivos dos quais se sentem parte do que dos encontros e congressos da União Nacional dos Estudantes e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. As ocupações do fim de 2016, quando mais de mil escolas em todo o Brasil foram fechadas pelos próprios alunos contra a PEC 241 (que congela gastos públicos por 20 anos) e a reforma do ensino médio, foram feitas completamente à margem das duas entidades. Para Marlon, “a partir da era Lula, elas priorizaram relações institucionais com o governo e, a partir disso, os estudantes não se sentiram mais representados. Criamos um campo de oposição e queremos que a UNE volte a ser uma entidade combativa como em 68”. Após as ocupações, as duas entidades tentam até hoje se reaproximar dos estudantes, mas não raro a presença delas é rechaçada em atos e debates.

Enquanto sonha com a graduação em medicina, Isabella Dias Ferreira, de 18 anos, reflete sobre sua existência como mulher negra. Reconhecer-se como ela é lhe dá forças para reivindicar o que sonha. Ela não tem envolvimento com nenhuma organização ou partido político. Ocupou seu colégio, o Pedro II de Realengo, em 2016. Isabella diz que a morte de Marielle vai entrar para a história assim como o assassinato de Edson Luís.

— Quem votou nela se sente atingido. Quem é mulher negra como eu sente que também morreu um pouco — afirma a estudante. — As ocupações de 2016 provocaram uma reação das escolas. Na minha, por exemplo, ficaram muito mais rígidos com uniforme, querem medir até o tamanho da meia. Muitos alunos chegaram a abandonar a escola no ano passado, principalmente os mais velhos, porque não era mais o que eles buscavam. O que a gente quer é o que a lei de diretrizes da base educacional propõe: a educação como preparo para o exercício da cidadania.

Eles fizeram história

Todos esperavam o caixão com o corpo do menino. Eram pelo menos vinte mil pessoas diante do prédio da Assembleia Legislativa do Rio — onde atualmente funciona a Câmara dos Vereadores. Duas tias do estudante, Edna e Virgília, assistiam a tudo comovidas no saguão do parlamento fluminense, onde o corpo franzino repousava sobre uma mesa de madeira. Em cima dele, um caderno escolar aberto na última aula de geografia. Seis jovens ergueram o caixão coberto pela bandeira nacional e, às 16h16m, desceram a escadaria do prédio. Foi neste momento que um dos sete fotógrafos da revista “Fatos e Fotos” destacados para a cobertura fez o registro histórico. O então estudante de medicina Luiz Roberto Tenório surge em destaque à frente do caixão. Também aparecem companheiros dele, como Elinor Brito, à época presidente da Frente Única dos Estudantes do Calabouço, e o também estudante de medicina Milton Nahom.

Tenório, de 76 anos, e Brito, de 77, se reencontraram depois de muitos anos a convite do GLOBO, que gravou uma conversa entre eles e os secundaristas Isabella Ferreira e Marlon Soares. Tenório era ligado ao movimento estudantil da UEG (atual Uerj) e já estava vinculado à Dissidência, grupo ao qual também pertencia o jovem líder Vladimir Palmeira. Os dois nunca deram um tiro — Brito chegou a andar armado —, mas foram presos no começo dos anos 1970 e levados para o DOI-Codi, pior centro de tortura da ditadura do Rio. Conheceram o pau de arara, tomaram choques elétricos. Brito, que àquela altura estava no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, só foi liberado após 42 dias sendo espancado: era um dos 70 presos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado em dezembro de 1970. Ele, que nunca foi gordo, deixou o DOI-Codi com 30 quilos a menos.

Novas questões movem o mundo

Tenório conta que, durante um espancamento, os algozes chamaram um médico militar para reanimá-lo. O mesmo foi feito com outro detido que também era torturado. Chegando lá, o médico deu autorização para que as sessões continuassem. Mesmo à beira da inconsciência, Tenório o reconheceu: era seu colega de faculdade Ricardo Agnese Fayad, com quem estudou por seis anos. Tenório conseguiu cassar no Cremerj, em 1994, o direito de Fayad exercer a medicina. No mês passado, ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal por participar de torturas.

Tenório e Brito foram à passeata por Marielle e Anderson no dia 20. O primeiro disse que “acordou renovado, com a consciência de que não pode parar, não pode pendurar as chuteiras”. Brito afirma que “a guerra do Vietnã acabou, a guerra da Coreia acabou, hoje são outras questões que movem o mundo”.

— Segue a luta. A intolerância era contra os comunistas. Hoje, é contra os pobres.

1. Nelson Carneiro

Advogado baiano e deputado da Guanabara, defensor da causa do divórcio, aprovado em 1977. Morreu em 1996.

2. Elinor Brito

Líder do Calabouço, foi torturado durante 42 dias até ser trocado pelo embaixador suíço Giovanni Bucher.

3. Arthur Poerner

Jornalista e escritor, autor do livro “O poder jovem”, um dos primeiros a ser censurado. Era repórter do “Correio da Manhã” e foi o brasileiro mais jovem a perder seus direitos políticos.

4. Fábio torres

Engenheiro, escondeu em seu sítio, em saquarema, militantes como Elinor Brito. Morreu há cerca de dez anos.

5. Vladimir palmeira

Um dos principais líderes estudantis dos anos 60, presidiu a UNE e teve atuação destacada nos protestos de 68. Saiu da prisão para o exílio e só voltou dez anos depois. 

6. Carlos Alberto Muniz

Dirigente do MR-8, passou seis anos vivendo na clandestinidade. Andava armado e sob disfarce. Foi vice-prefeito e secretário de Meio Ambiente na gestão do prefeito Eduardo Paes e, atualmente, é secretário-geral do PMDB fluminense.

7. Milton Nahom

Estudante de medicina, fez cirurgia plástica de companheiros seus
que viviam na clandestinidade e se exilaram fora do país. Hoje é um requisitado cirurgião plástico. 

8. Marcos medeiros

Presidente de centro acadêmico, namorou a atriz Maria Lucia Dahl. Era amigo de Glauber Rocha e dirigiu com ele o documentário “História do Brasil”. Morreu em 1997 depois de uma longa internação no Pinel.

O dia do enterro

Cortejo passa em frente a um cinema no caminho do cemitério. Em cartaz, “Coração de luto” – .

Todos os jornais da cidade deram destaque ao enterro de Edson Luís. A repercussão de sua morte foi enorme. O “Jornal do Brasil” publicou o passo a passo do funéreo em sua edição do dia 30 de março de 1968, acessível a todos na Hemeroteca Digital (projeto da Biblioteca Nacional) assim como todos os periódicos do século XX. Baseados nesse relato, publicamos como foi a cerimônia que parou a cidade.

13h55: O corpo está sendo velado no saguão da Assembleia Legislativa, no Palácio Pedro Ernesto, desde as 19h do dia anterior. Coordenados por Elinor Brito, presidente da Frente Única dos Estudantes do Calabouço, líderes do movimento estudantil traçam o roteiro do cortejo fúnebre: Passeio Público, Avenida Beira-Mar, Praia do Flamengo, uma parada de protesto em frente à ex-sede da UNE. Depois, Largo do Machado, Rua Marquês de Abrantes, Praia de Botafogo, Rua da Passagem e Rua General Polidoro até o Cemitério São João Batista. Neste momento, cinco mil pessoas se concentravam na porta da Assembleia.

14h: Dentro do saguão da Assembleia, os estudantes arrecadam dinheiro entre eles próprios para custear o enterro. Para juntar as doações, usam uma bandeira do Brasil que, mais tarde, irá cobrir o caixão.

14h10: O caixão está rodeado por 18 coroas de flores. Há também palmas brancas, lírios, cravos e rosas vermelhas. Dois cinegrafistas alemães entram na Assembleia e filmam o rosto de Edson Luís. Seus dois olhos estão levemente entreabertos.

14h45: A Cinelândia não para de receber pessoas. Sete mil já estão no local, aguardando o momento de sair do parlamento fluminense em direção ao São João Batista. Sobre uma placa de “Trânsito proibido”, manifestantes hasteam uma bandeira do Brasil com uma faixa preta na diagonal.

14h49: A multidão aumenta tão rapidamente que a escadaria da Biblioteca Nacional, do outro lado da Avenida Rio Branco, está lotada.

15h17: O diretor do Departamento de Trânsito, Comandante Celso Franco, entra na Assembleia para definir o roteiro do cortejo com os estudantes. O plano deles é aceito, com uma modificação: ele pede para eles subirem a Rua Mena Barreto em vez de entrarem na Rua da Passagem. Todos concordam. Antes de sair, o diretor determina que três motociclistas-batedores do departamento acompanhem o trajeto. Quando eles chegam, são expulsos pelos estudantes.

15h35: Parentes de Edson Luís chegam ao Palácio Pedro Ernesto. Vieram duas tias, Edna Souto Pau Ferro e Virgília Souto, um tio, Júlio Souto, a uma prima, Maria Madalena Souto, filha de Edna. Os quatro, como Edson Luís, vieram de Belém. Dona Edna contou que “ele morou comigo durante seis meses depois que veio para o Rio”. Segunda ela, ele morava no Calabouço há apenas duas semanas.

15h56: Quando o padre Vicente Adamo terminou de rezar sobre o corpo do menino, os cerca de 100 estudantes que estavam no saguão da Assembleia começaram a cantar, espontaneamente, o hino nacional.

16h03: O caixão é fechado. Do lado de fora do parlamento, 20 mil pessoas o aguardam ansiosamente.

16h13: Coberto pela Bandeira Nacional, o caixão é erguido por seis jovens, entre eles Elinor Brito. Eles começam a caminhar em direção à porta da Assembleia.

16h16: Edson Luís agora está no meio do povo, descendo a escadaria do parlamento. Muitos jovens disputam o caixão, mas haverá tempo para todos o carregarem, já que os estudantes desistem de levá-lo em um carro de funerária, como estava previsto, e resolvem conduzi-lo nos ombros pelos seis quilômetros de distância até o cemitério.

16h30: O cortejo passa em frente ao Cinema Império. O filme em cartaz se chama “A noite dos generais”. Um estudante pergunta em voz alta se o cortejo passará em frente à Embaixada Americana, alvo recorrente de pedradas dos estudantes. Ao ouvir que não, ele grita: “Direita, direita!”

16h35: O roteiro definido com o Comandante Celso Franco é desmontado quando os estudantes decidem seguir pela Rua da Lapa em vez de entrarem no Passeio Público rumo à Avenida Beira Mar.

16h53: Em frente ao predio do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, um homem tira o paletó azul-marinho e começa a sacudi-lo para a multidão, que o aplaude aos gritos de “desce, desce”.

Caixão chega à gaveta onde foi enterrado. Cinco anos depois, os restos foram para o ossário do cemitério – .

17h10: Na Praia do Russel, depois de passar pelo Largo da Glória, o cortejo era esperado por mais de mil pessoas. Doze passageiros do ônibus 54 049 (linha 119, Castelo-Copacabana) saltam do coletivo e se juntam à multidão, sob aplausos.

17h44: O cortejo muda o trajeto novamente ao entrar na Rua Barão do Flamengo até a Praça José de Alencar, de onde segue para a Rua Marquês de Abrantes.

18h05: Ao passar pela Rua Farani, o cortejo recebe mais 500 pessoas que ali aguardavam. Milhares de folhas de jornais são incendiadas para iluminar a rua, já escura. Velas também são acesar.

18h59: De longe, a multidão avista o muro do cemitério.

19h01: Quase três horas depois de deixar a Assembleia, o cortejo chega ao São João Batista. Quase 10 mil pessoas conduzem o caixão neste momento. Elas começam a assobiar e sussurrar a melodia do hino nacional.

Ninguém foi responsabilizado pela morte de Edson Luís, embora o superintendente da polícia executiva, general Osvaldo Niemeyer, tenha sido afastado. Todos lavaram as mãos. Niemeyer responsabilizou o então aspirante do Choque Aluísio Azevedo Raposo, que estava à frente de 25 policiais militares na ocasião. Este jogou a culpa no superintendente, que não teria ouvido seu conselho para recuar quando os estudantes atiraram pedras nos policiais, revidando às agressões. O governador Negrão de Lima, que nunca recebeu os estudantes do Calabouço para dialogar – há sete meses eles pediam uma audiência para tratar da conclusão das obras do restaurante, entregue inacabado -, responsabilizou o ministro da educação por não ter liberado verba para o fim das obras. Enquanto isso, Tarso Dutra, o ministro, viajou a Porto Alegre para ser padrinho da ex-miss universo Ieda Maria Vargas. O presidente Costa e Silva não quis comentar a morte do estudante: disse se tratar de um assunto estadual.