Crise orçamentária para quem?

30/mar/2018, 17h38

Por Beatriz Calderón, estudante de geografia da USP e Michele Simões, bacharelado em química da UNESP Araraquara. Militantes do Juntos SP

 

O Estadão divulgou que Marco Antônio Zago, antigo reitor da Universidade de São Paulo, e Antônio Carlos Hernandes, atual vice-reitor, receberam mais de 110 mil reais de auxílio moradia, por conta de “viagens à capital”. Curiosamente, ambos têm casa própria na cidade de São Paulo. O mesmo aconteceu para o atual reitor da UNESP, Sandro Roberto Valentini, e “cargos de confiança” da reitoria, que somados levaram R$1,8 milhões no último ano.

Na USP e na UNESP a escolha do reitor se dá por meio de Lista Tríplice, processo absurdamente antidemocrático no qual os estudantes quase não têm voz. Inscrevem-se chapas com candidatos a reitor, e essas são votadas no Conselho Universitário, em que alunos e servidores têm baixíssima participação. Uma lista com os três candidatos mais votados é enviada ao gorvernador, que com uma canetada decide qual vai ser o futuro das Universidades.

As universidades estaduais enfrentam uma crise financeira desde 2014. Como solução, a casta política das Universidades vem adotando uma postura demagógica, com o discurso de que é preciso “cortar gastos”. Esses cortes atingem diretamente as políticas de Permanência Estudantill e causam precarização dos serviços e ensino, com as terceirizações e congelamento da contratação de novos servidores e docentes.

Desde que foi eleito, Vahan, atual reitor da USP, que dá continuidade a desastrosa gestão de Marco Antonio Zago, tem adotado uma postura contrária à permanência estudantil, chegando, inclusive, a dizer em uma entrevista que a Universidade “não era uma entidade assistencialista”. E, portanto, não deveriam existir quaisquer políticas de Permanência Estudantil. Pior ainda: ano passado quase 4 mil estudantes da USP não conseguiram vagas na moradia estudantil. No ano de 2018, com a vitoriosa inclusão de cotas raciais, esse quadro deve piorar.

Na UNESP, das 34 unidades que possui, apenas 13 contam com uma moradia universitária. Somente em 10 existem restaurantes universitários, e no campus de Araraquara o RU segue fechado a mais de 3 anos. A universidade oferece ao todo 1240 vagas em moradia, 743 bolsas de auxílio aluguel e menos que 5 mil refeições aos seus quase 53 mil alunos. A partir de 2018, 50% dos ingressantes passaram a entrar pelo Sistema de Reserva de Vagas, sendo 35% pela cota racial.

Os reitores, por outro lado, recebem esses exorbitantes auxílios moradia, enquanto existe o déficit nas políticas de permanência, logo agora que são mais necessárias.

Seguindo essa lógica, o corte de funcionários também entra na demagogia de “salvar a folha de pagamento”. Não nos esquecemos, por exemplo, do conjunto de medidas que ficou conhecido como “PEC do Fim da USP”, aprovado no Conselho Universitário no começo do ano passado. Essa PEC afetará mais de 5 mil funcionários com a justificativa de “enxugar gastos”.

E agora é a vez do “Plano do Fim da UNESP”, com a proposta do Sandro Valentini de Sustentabilidade Orçamentária, que propõe cortes nos benefícios dos servidores e o congelamento dos salários por 5 anos, com sugestões aos professores para oferecerem cursos por EaD e vender matérias.

Isso tem que acabar! Não podemos aceitar reitores que nos tiram direitos: cortam da Permanência, precarizam creches, visam adotar Ensino à Distância, desvinculam e precarizam os Hospitais Universitários. Chega de privilégios para esta casta! Pela investigação imediata desses casos e pela abertura do livro de contas das Universidades! É preciso de uma grande mobilização para que os recursos sejam destinados a permanência estudantil, ao lado das condições de trabalho de funcionários e professores!

Queremos uma universidade pública, gratuita, de qualidade e a serviço da população!