Vitória: finalmente Cotas nas IEES do Ceará

07/mar/2018, 12h05

* Giselle Marçal
** Domingos Alves

É notório que os negros são minorias nas Universidades, porém é importante celebrar algumas conquistas que por via da luta da negritude se fazem acontecerem. Este ano de 2018 pode ser considerado um marco em avanços das políticas afirmativas no estado do Ceará, conforme a Lei Estadual nº 16.197 aprovada em 17 de janeiro de 2017. Assim, a Universidade estadual do Acaraú (UVA), que este ano celebra 50 anos de existência, lançou o primeiro edital com cotas sociais e raciais de sua história. É importante reafirmar isso, pois as problemáticas da negritude tem em seu cerne a questão da cor, porém não se limitam só a isto, pois perpassam questão econômicas, políticas e de gênero.

Além disso, nossas conquistas são extremamente justas, pois reparam anos de desigualdade sociais advindas de um passado escravocrata. As críticas às cotas muitas vezes são interpretadas pelo discurso traidor da meritocracia, que esvazia nossa história e só reafirma uma série de preconceitos nas quais já estamos cansados de conviver. Ressaltamos isso porque historicamente o Ceará foi interpretado como um lugar que “não existia negros”, um discurso falacioso que paulatinamente vem sendo desconstruído, sobretudo com as pesquisas acadêmicas. É pela educação que é negada as pessoas pretas, é pelos postos de trabalhos que não ocupamos, é pelo extermínio da juventude negra em nossas periferias que reafirmamos: As cotas são importante sim! E é uma vitória do movimento negro cearense.

Desta forma, as cotas constituem-se como mecanismo de acesso aos espaços que nos foram negados historicamente e, sobretudo, de podermos ter representatividade num ambiente que ainda é pouco frequentado por pessoas negras. Para termos noção da importância das cotas raciais na nossa Universidade, em 2015, apenas 12,8% da população negra com idade de até 24 anos tinha acesso ao ensino superior. Isso, num país onde sua população é majoritariamente negra.
Esses fatos revelam as consequências do racismo institucional que historicamente esteve arraigado na sociedade brasileira, contribuindo diretamente para perpetuação de desigualdades sociais e raciais que atravessam nossas vidas e tornam-se muito visíveis quando percebermos que existe no cerne das nossas relações cotidianas imensa disparidade de médias salariais, de acesso ao ensino superior, de qualidade de vida, dentre outras caracterizações que expressam nossas disparidades sociais e históricas.

Desta forma, a adesão da UVA à política afirmativa de cotas significa também um passo importante no combate aos privilégios de classe herdados socialmente, em decorrência da formação do povo brasileiro. A entrada de negros na universidade representa também um deslocamento importante de pessoas que geralmente são objeto de estudo nesse espaço e passarão construir conhecimentos também, descentralizando assim, assim o recorte racial na construção do conhecimento.

Portanto, queremos não apenas sermos os beneficiários das políticas afirmativas, mas também sermos as pessoas que pensam e propõem essas políticas no sentido de avançarmos contra o racismo e a desigualdade social que nos aflinge. Seguimos na luta pela construção de uma Universidade pública, gratuita, de qualidade e com mais oportunidade para todxs e todxs.

* Giselle Marçal é professora de História e militante do Juntos!
** Domingos Alves é estudante de Ciências Sociais da UVA e militante do Juntos!