Professora de sociologia responde Folha, Thais Waideman Niquito e Adolfo Sachsida

17/abr/2018, 12h59

Ayla Viçosa, professora de sociologia da rede pública do DF, militante do Juntas e da Rede Emancipa

Ontem nos deparamos com um texto absurdo feito pela Folha de São Paulo, associando uma queda no rendimento das áreas exatas ao fato de existir Sociologia e Filosofia nas escolas.

Para começar, se analisamos um pouco os detalhes da pesquisa, verificamos que os índices de rendimento nas redações do ENEM também caíram. A dificuldade de nosso alunato em tirar boas notas em ENEMs, vestibulares, PAS e outros processos seletivos tem diretamente a ver com a realidade da educação pública. Se, por um lado, temos governos que deixam alunos desmaiar de fome, ou roubam dinheiro de merendas, ou tentam fechar escolas, ou que batem em professores quando esses fazem greve para assegurar condições minimamente dignas para o exercício de nossa profissão, por outro, a realidade de sucateamento do ensino superior público impacta diretamente na formação de nossos docentes. Os cortes no PIBID, como os para custeio e investimento nas universidades impactam diretamente nas condições de funcionamento, e portanto de formação, de todo alunato do ensino superior público. Sem estrutura mínima, a formação também se precariza.

Considerando ainda a crise econômica que você nosso país, muitos são os jovens que não podem mais dedicarem-se exclusivamente ao estudo, pois necessitam trabalhar para complementar a renda de seus familiares em casa.

Essas são variáveis muito mais relacionadas com a queda no rendimento de nossos estudantes. E disso, nosso governo e essa mídia podre não fala. Por quê? Porque é bem mais fácil e conveniente o caminho de tentar menosprezar e extinguir a importância da Sociologia e da Filosofia nas escolas.

Quando pensamos, sobretudo, os motivos fundamentais em torno de todo movimento nacional de inclusão da Sociologia no Ensino Médio – que relaciona-se a oferecer instrumentos para o alunato do ensino médio entender a construção sócio-histórico-cultural de nosso país, como os mecanismos de funcionamento da política no Estado, fortalecendo uma noção mais aprofundada do que é cidadania e direitos humanos -, vemos como a enquete feita pelo Senado visando defender a extinção das Ciências Humanas das universidades, ou como a Reforma do Ensino Médio vão em outra direção. Percebemos que a educação que esse governo quer oferecer para nossa juventude não é crítico-reflexiva, voltada para a transformação da realidade, e sim direcionada para a formação de mão de obra, com um viés categoricamente tecnicista e mercadológico.

Nenhum aprendizado de uma disciplina atrapalha no de outra. Isto é uma falsa polarização, pautada em nada consistente, visando tirar o direito de aprender dos alunos e o dever de educar dos professores.