130 anos da Lei Áurea não libertou as mulheres negras

Por Ayla Viçosa, Juntas DF, e Vivi Reis, Juntas PA

“Deve-se inferir que aquela que aceitava passivamente sua sina de escrava era a exceção, não regra” (Davis, 1944).

A história das mulheres negras é marcada por resistência. Ângela Davis relata em “Mulheres, raça e classe” que são insuficientes os registros sobre a questão das mulheres negras escravizadas – e os poucos que existem, de forma racista e preconceituosa, enfatizam a suposta promiscuidade destas – , portanto é necessário entender o papel de força de trabalho e luta das mulher negras.

O povo negro para o sistemática escravagista era tido como propriedade do senhor, e portanto alvo de violências. Assim sendo, quando pensamos as condições das mulheres negras nesse contexto, as violências se multiplicam e se intensificam, pois elas eram tratadas com animais reprodutores. Muitas eram vítimas de estupro como forma de punição e dominação econômica do senhor.

Esses séculos de escravidão refletiram na configuração social atual, em que a população negra é mais atingida pela desigualdade econômica, desemprego, violência e falta de representatividade. Abolição da escravidão não significou a inserção social de negras/os, e no Brasil tão pouco ameaçou a concentração do poder das elites brancas, oligárquicas e conservadores que anteriormente mantinham tantas/os negras/os na condição de escravas/os, na busca da manutenção de seus lucros e pela manutenção de uma vida regada de privilégios.

Atualmente, a diferença econômica entre brancos e negros é gritante: 67% dos negros no Brasil compõem a parcela dos que recebem até 1,5 salário mínimo e são estes indivíduos que ocupam os cargos de trabalho mais precarizados, em condições insalubres para exercício da profissão, em trabalhos informais ou estão em situação de desemprego.

Nesse contexto, o Ministério Público do Trabalho expõe que as mulheres negras tem mais dificuldade para inserção no mercado formal, progressão de carreira, igualdade salarial e são as mais vulneráveis ao assédio moral.

Como se não bastasse, alarmamo-nos com os dados que revelam que são as mulheres negras as principais vítimas de violência doméstica, violência obstétrica, mortalidade materna, morte por abortos clandestinos, estupro e feminicídio.

Segundo IBGE mais da metade da população brasileira é negra, 30% são mulheres negras. Mas onde estão estas mulheres? Certamente não integram as cadeiras dos parlamentos na mesma proporção que se encontram encarceiradas, em situação de vulnerabilidade, solitárias na posição de chefia familiar e sofrendo as mazelas desse sistema desigual e opressor.

É dentro desse sentido que hoje, nesse 13 de Maio, precisamos denunciar a falsa democracia racial brasileira, lembrando quantas são as mães negras desse país que neste dia das mães, passarão o dia longe de seus filhos por incontáveis problemáticas de nosso sistema política. Uma sociedade que estratifica a população de acordo com a cor da pele e classe econômica tem muito a superar. O Brasil precisa enfrentar de forma veemente a questão do racismo sistêmico e estrutural de nosso país, que faz com que o destino de nossa juventude negra seja comumente associado a caixões ou prisões.

Denunciar a falsa abolição passa por, nesses dias tão duros, lembrar e defender o legado de Marielle Franco, que por ocupar a política pra expressar tantas lutas da negritude por uma vida mais digna, foi brutalmente assassinada. O extermínio da juventude negra precisa acabar. A guerra às drogas precisa acabar. O país precisa avançar na discussão e no projeto de um modelo de segurança pública que não tenha como princípio tratar a negritude como suspeita ou como alvo. O combate a hiperssexualização de nossas mulheres também se faz fundamental para a concretização de qualquer sociedade que pretenda ser democrática e de todas/os. E em 2018, para a construção de um outro poder, feito pelas mãos da negritude, que sejamos sementes de Marielle Franco, não esquecendo nenhuma/nenhum de nossas/os mortas/os e honraremos seus legados, transformando o luto em luta, a dor em resistência, o sofrimento em mobilização.

Nossos passos vem de antes. Tentaram nos matar, mas não sabiam que éramos sementes.

Marielle vive! Negritude viva! Povo negro unido é povo negro forte. Mulheres negras mudam a sociedade!

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