A liberdade que há de chegar! #MarielleVive

13/maio/2018, 21h53

Por Juntos!

“Quantos mais precisarão morrer pra que essa guerra acabe?”

O 13 de março deste ano marca os 130 anos de uma abolição da escravidão que ainda mantém o povo negro no Brasil preso a várias correntes . Não houve liberdade para o povo negro, pois os mesmos donos do poder que impuseram a escravização no passado hoje nos mantêm nos piores postos de trabalho, nos presídios e nos caixões. Ainda que sejamos o país mais negro fora da África, os direitos em solo brasileiro sempre foram negados à negritude. Aqui, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos, somos 60% da população carcerária e 71% dos mortos por armas de fogo.  A Lei Áurea não extinguiu um sistema de exploração da negritude, mas o substituiu por outro.

Contudo tão antiga quanto a exploração é a nossa resistência.  Nossa história é marcada pela a escravização, mas é eternizada pelas cicatrizes da luta por liberdade. Os quilombos estão entre as mais antigas formas de resistência e organização contra o sistema. Nós não paramos e nem pararemos de resistir. A cada minuto que passa a luta do povo negro se fortalece. Um povo que clama um grito há tanto tempo preso na garganta: por justiça, reparação histórica, direitos e empoderamento político! Esperar não é uma opção!

Muitos negros e negras lutaram por liberdade antes de nós e devemos seguir seu exemplo: empoderar a juventude, as mulheres, LGBT’s, trabalhadores e trabalhadoras negras. Não permitimos que escrevam nossa história. Vamos escrevê-la com as nossas próprias mãos! Para isso é importante lembrar que as estruturas de poder – Executivo, Legislativo e Judiciário – não estão a nosso favor, e sim do 1% a quem interessa a manutenção da exploração. Esse fato se expressa na profunda crise que vivemos com ainda mais retiradas de direitos.

É fundamental identificar os reais inimigos para combater de maneira certeira o desemprego, a precarização do trabalho e os baixos salários que são primeiro destinados à negritude. Mesmo em bons postos de trabalho a diferença salarial entre negros e brancos é intragável. Somos também a maioria da população em situação de rua, quando até o direito de viver sob um teto e com dignidade é negado.

Nossos inimigos não são invisíveis. Eles possuem cor, classe social e endereço. O Congresso Nacional – composto majoritariamente por homens, brancos, velhos e ricos – defendem leis e reformas carcerárias que nada mais são que a legitimação e acentuação da exploração do povo negro. Não aceitaremos! Precisamos de uma reforma do código penal que dê liberdade e igualdade de oportunidade para a negritude e não que acentue ainda mais a desigualdade e a violência. A guerra ao povo negro, disfarçada de “guerra às drogas” deve acabar! Ela é o cerne que garante o encarceramento em massa e o extermínio da juventude negra todos os dias nas periferias brasileiras.

Exigimos reparação histórica concreta na forma de direitos à educação de qualidade, ao transporte público gratuito e de qualidade, à moradia digna, ao acesso e permanência nas universidades públicas, à saúde pública universal e de qualidade e ao emprego não precarizado. A cada momento se faz mais necessária uma revolução político-econômica da negritude e para a negritude.

Temos a consciência que o racismo é intrínseco ao sistema capitalista e, portanto, sua solução não se restringe às fronteiras brasileiras. Nossa solidariedade aos povos negros e oprimidos do mundo é fundamental para conseguirmos mudar o sistema. Nos somamos aqui à luta da negritude e dos povos tradicionais, dos latinos nos Estado Unidos, dos curdos e palestinos, dos povos e nações africanas.

Mais que uma necessidade, a luta pela liberdade também nasce de um sonho: o sonho de um mundo diferente, com justiça e igualdade. Lutamos por outra forma de entender o mundo, outra política de drogas, contra o genocídio do povo negro, contra o encarceramento em massa e contra a exploração sexual e laboral das mulheres negras. Lutamos pela liberdade religiosa para as religiões de matriz africana e não aceitaremos mais a intolerância. Afinal se é verdade que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, como bem nos afirma Elza Soares, também é verdade que “negro é a raiz da liberdade”, nas palavras de Dona Ivone Lara. As palavras e a luta das mulheres negras são e serão o nosso farol. Seguiremos em marcha sob o legado de Marielle Franco, mulher negra, assassinada por ousar bater de frente com os poderosos. Não nos calaremos! Ainda queremos saber quem matou e quem mandou matar Marielle. Somos sementes e andaremos sobre seus passos em direção à liberdade real!

É pelas nossas vidas! É por liberdade, reparação, igualdade e justiça! Marielle, presente! Até que a liberdade que ainda há de chegar seja a realidade, porque todos serão livres quando o povo negro for.

Vidas Negras importam!